Comuns a qualquer época e lugar, os dilemas éticos estão presentes em todas as sociedades. Suas nuances, porém, não são poucas - variam conforme o período, o povo, a cultura. A literatura, portanto, é terreno fértil para o debate e o questionamento desses elementos tão próprios dos humanos. Ética e consciência estão sempre em pauta nas grandes obras. As obras desta coletânea são trabalhos na exploração da ética em seus diversos aspectos. As narrativas trazem personagens frente às mais variadas situações, como a do forte se sobrepondo ao fraco, a oposição entre honestidade e vantagem, a conformidade e aceitação de valores sociais impregnados de preconceitos. Abrindo as histórias, um texto introdutório evidencia a relação desta obra com outras manifestações artísticas e lançando luzes sobre o contexto histórico em questão.
MARISA LAJOLO é pesquisadora, crítica literária, autora de literatura juvenil e professora universitária. Deu aula na Unicamp e hoje é professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Em 2009, em parceria com João Luís Ceccantini, organizou a obra Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil (Editora Unesp/Imprensa Oficial), eleita pelo prêmio Jabuti o melhor livro de 2009 na categoria não ficção.
Em 2012, seu livro Gonçalves Dias, o poeta do exílio (FTD) foi premiado pela Academia Brasileira de Letras.
Gostei muito de toda a obra, retratam problemáticas com críticas muito bem construídas, sendo fáceis de ler e até prazerosas. Meus contos favoritos foram: O dia em que matamos James Cagney, de Moacyr Scliar, uma crítica à mídia e à banalização da violência; Casa de Bonecas, de Katherine Mansfield, um conto que retrata o elitismo, a divisão de classes sociais a partir de figuras femininas infantis; A nova Califórnia, de Lima Barreto, que retratou a ganância com uma narrativa extremamente cativante por ter um plot misterioso, cheio de suspense; Os gatos pardos da noite, de Lourenço Diaféria, o conto mais difícil de ler por retratar a violência policial e o racismo de uma forma crua e realista — apesar de ser um conto bem curto — criticando sobretudo a banalização do sadismo dos policiais que voltam às suas vidas normalmente, justificando um assassinato como apenas um acidente e dizendo a frase que deu título ao conto: "à noite todos os gatos são pardos", sem deixar de lado, obviamente, a questão racial. Por último, mas não menos importante, o conto Paloma, de Álvaro Cardoso Gomes, a carta de um detento à sua mãe, talvez o conto mais emocionante do livro.