"Em que consiste a força do romance machadiano da grande fase? Há relação entre a originalidade de sua forma e as situações particulares à sociedade brasileira do século XIX? Que pensar do imenso desnível entre as Memórias póstumas de Brás Cubas e a nossa ficção anterior, incluídas aí as obras do mesmo Machado de Assis?" Estas as perguntas a que Roberto Schwarz procurou responder em Um mestre na periferia do capitalismo, publicado pela primeira vez em 1990. Saem os impasses característicos da ficção inicial de Machado e entra em cena um princípio formal de grande eficácia construtiva - a volubilidade do narrador - projetando as Memórias no horizonte universal das obras-primas. Neste trabalho, de inspiração materialista, o crítico aponta como as liberdades da prosa machadiana da maturidade atendem à formalização das relações de classe, cujo traço dominante é a ideologia ambivalente das elites brasileiras. Um ensaio capital.
Roberto Schwarz é um crítico literário e professor aposentado de Teoria Literária brasileiro. Um dos principais continuadores do trabalho crítico de Antonio Candido, redigiu estudos sobre Machado de Assis elencados entre os mais representativos na fortuna crítica sobre o autor das "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
análise muito boa da forma de memórias póstumas. roberto schwarz vai nos mínimos detalhes buscar nessa narração irritante de brás a estrutura falha da elite brasileira. uma das razões desse discurso volúvel e nada confiável é a própria nação estar se desenvolvendo numa base escravista enquanto almeja aos ideais do homem moderno, já antenado para as questões do Direito do Homem, portanto, nada compatível com a crueldade perpetuada sem grandes dores morais pelos senhores das elites.
A contribuição crítica de Roberto Schwarz permanece sendo uma das leituras mais atentas e elucidativas de Machado de Assis, em particular, no caso deste ensaio, de "Memórias Póstumas de Brás Cubas". A interpretação materialista deste romance brasileiro faz enriquecer a leitura ao nos lembrar vivamente das complexas nuances ideológicas das classes dominantes no pós Independência e no período do Império no Brasil. Os paradoxos aí contidos serão importantes para compreender que figura é essa que nos narra suas memórias? De que posição social ela fala? Detentora de quais interesses em sua retórica de exposição biográfica? Schwarz tenta responder essas e outras perguntas neste ensaio fundamental.
Roberto Schwarz é um dos maiores críticos literários da história do Brasil e este livro é a prova disto. Com uma análise minuciosa da forma e da matéria de um dos grandes romances de Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas), o crítico delineia toda a organização social da elite brasileira pós-independência numa chave marxista impressionante. É difícil não se convencer com sua análise e com a leitura feita do livro que, nesta linha, demonstra o ponto fulcral da organização sócio-histórica do Brasil: o liberalismo escravista; isso é, uma pulsão para a modernidade burguesa após a independência em conjunto à permanência de benesses de uma elite formada durante o período colonial. Este conúbio, melancólico e risível simultaneamente, acha sua perfeita representação na prosa de Brás Cubas, interpretação essa argumentada com um primor inacreditável por Schwarz. Para qualquer um que tenha interesse pela literatura machadiana, ou que tenha qualquer tipo de pretensão de análise das organizações sociais do Brasil, acredito que este livro entre no rol das grandes obras que fazem o mesmo, como Raízes do Brasil, Casa-grande & senzala e Machado de Assis: A Pirâmide e o Trapézio.