«Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações. Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de enteajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade. Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima. Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.»
HÉLIA CORREIA nasceu em Fevereiro de 1949, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético. Na sua ficção, conflui o reatar de uma herança literária que impõe certa linearidade à escrita romanesca com a assimilação de traços da narrativa contemporânea que vão de um García Márquez ou Carpentier até à novelística de Agustina Bessa-Luís, numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional. Estreou-se na poesia, em 1981, com O Separar das Águas e O Número dos Vivos em 1982. A novela Montedemo, encenada pelo grupo O Bando, deu à autora uma certa notoriedade. Aliás, Hélia Correia revelou, desde cedo, o gosto pelo teatro e pela Grécia clássica, o que a levou a representar em Édipo Rei e a escrever Perdição, levadas à cena, em 1993, pela Comuna. Escreveu também Florbela, em 1991, que viria a ser encenada pelo grupo Maizum. Destacam-se ainda na sua produção os romances Casa Eterna e Soma, e, na poesia, A Pequena Morte/Esse Eterno Conto. Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra Lillias Fraser, e em 2006 o Prémio Máxima de Literatura, pela obra Bastardia.
Uma espiral obsessiva e escura, que nos arrasta e faz nossa aquela doença. sem meio-termo.
Já vou na segunda tentativa de livro pós-este e não está a ser fácil arrancar-me de lá e conseguir interagir com outro universo. O Calvino tem demasiado mundo. Tento pela jogada fácil: Oscar Wilde. Substituir obsessão e doença por obsessão e doença.
Consegui, também, a proeza de ter o livro completamente entranhado no álbum dos EL VY. Não devo ter lido uma página dele sem ter estado a ouvi-lo. De tal modo que aos primeiros acordes de qualquer música, sou imediatamente arrastada para o mundo de Lizzie; ou, se pensar no livro, na minha cabeça ressoam imediatamente músicas do álbum. São 2 mundos exagerados, compulsivos. Ou talvez seja o que fiz deles, misturando-os.
Já atingi o fim deste livro após quase um ano e meio. Por um leitor do português como uma língua segunda, este livro me desafia, especialmente porque o sujeito histórico teria falado e vivido em minha língua primeira. O desafio foi enfim bem recebido e agradeci por uma experiência única de ler um livro assim. Não sinto a mesmo afinidade nem comportamento do vida do que o autor com as pré-rafaelitas e seus hábitos e habilidades de viver--de um mansão num campo inglês para um outro italiano e mais uma volta para londrês--mas o amor e o tédio são coisas quase universais. Gosto do exercício num português literário e como muitos dos "livros grandes" do mundo reconheço isto aspecto no livro, uma poesia dentro da prosa. Mas acho que este livro é um pelos escritores e outros profissionais transnacionais que não gosto do interrogar a suas posições no mundo mas querem estender as sensibilidades e preocupações dum sector pequeno e privilegiado por um grande mundo literário.
É um romance desconcertante. Se pudesse, daria 3 estrelas e meia. Não surpreende, tratando-se de Hélia Correia, a qualidade da escrita e o refinamento da prosa (que por vezes me faz lembrar Agustina, pela maneira ao mesmo tempo elegante, céptica e penetrante com que descreve e qualifica as manifestações da natureza humana - e esta comparação é um dos maiores elogios que consigo imaginar). O maior problema do romance é a sua extensão, consequência da exaustividade e minúcia a que a autora se obrigou para esta narração biográfica sobre as vidas de Dante Rossetti, Lizzie Siddal e os demais membros do círculo pré-rafaelita. Costumo apreciar livros pletóricos e longos, mas este é um daqueles casos em que senti agudamente a necessidade de desbaste e de abreviação. Se o romance fosse mais esparso e concentrado nas duas personagens principais e evitasse algumas digressões, e se moderasse as omnipresentes veleidades de trazer à luz prenúncios e significados ocultos em cada episódio, poderia ser magnífico.
Adoro a arte dos Pré-rafaelistas, bem como a nova visão de vida que eles preconizavam. Assim, um livro sobre Lizzie Siddal, a mais importante musa da irmandade e amante de Gabriel Dante Rossetti, chamou-me a atenção.
Porém “Adoecer” revelou-se uma leitura penosa, demasiado palavrosa e com pequenos detalhes/apartes/ fugas à história principal que tiraram qualquer magia ao enredo. As personagens não são apelativas e parecem figuras de cartão. Lizzie é um fantasma que decide morrer lentamente ao jeito das modelos anoréticas; já Gabriel é apresentado como um diabo, sem qualquer qualidade que o redima. Resumindo, uma grande “salgalhada” que aborda tudo e perde o essencial da história (nem consegui acabá-lo!)
Dolencia cuenta la relación de Lizzie Siddal -la Ofelia de Millais- y Dante Gabriel Rossetti hasta la muerte de ella. La novela, que resulta un poco confusa por la profusión de personajes y detalles- se centra en la naturaleza del “amor” que los unió pero hace poco hincapié en el papel de las drogas o las relaciones tóxicas y asimétricas y mucho en una especie de atracción fatal. Perfecta para fans del prerrafaelismo y enamorados de Londres
"Dolencia" se centra en la relación que mantuvieron Lizzie Siddall (modelo, pintora y poeta) y el pintor y poeta Dante Gabriel Rossetti. Como contexto - y también como protagonista - el grupo de prerrafaelitas ingleses que, a mediados del D. XIX, pretendieron innovar el arte. La historia resulta interesante para conocer en profundidad la génesis y evolución de este grupo de jóvenes artistas que hicieron de su trabajo una forma de vida, alejada de las convenciones burguesas. Eso sí, de este anticonvencionalismo se beneficiaron casi exclusivamente los miembros masculinos del grupo. Pero la proliferación de datos, nombres, fechas, obras, es tan extensa que, junto a la ausencia de diálogos, hace ardua la lectura de la obra.