Depois de a minha mãe tanto me ter falado deste livro, gabando-o, confesso que tinha as expectativas bastante altas quando o comecei a ler. E depois, simplesmente, não correspondeu. Talvez as primeiras 100 páginas, em que o protagonista nada faz a não ser estar obcecado com a mulher que lhe apareceu à frente e que ele tentou ajudar e, depois, decidiu seguir, não tenham ajudado com a primeira impressão. Estar dentro da cabeça de Coy nesse momento fez-me ficar um bocado desconfortável.
A partir do momento em que a história avançou para outros temas, contudo, a coisa tornou-se mais interessante, e o desejo de saber mais aumentou, assim como a velocidade de leitura. O meu coração de historiadora por afinidade não pode ficar indiferente a temas destes, a pesquisa do autor sobre navegação e jesuítas no século XVIII é impecável, o seu fascínio pelo tema é claro e o mistério daquele barco que desapareceu com a sua carga seria tentador, mesmo não se sabendo o que ele transportava, e, aumenta quando se pensa que casos desses são reais e que ainda há tanto do nosso passado para descobrir, perdido nesses oceanos.
Mas mesmo assim, algo faltava neste livro para que realmente funcionasse. Talvez fosse a forma de narrar a história. Muito mais contando do que mostrando, como se houvesse sempre ali uma barreira entre nós e o que se está acontecer, que não nos permite completamente desligar-nos do facto de que estamos a ler um livro. Parágrafos enormes, pouco diálogo, sobretudo em discurso indirecto, e uma tendência irritante do autor para descrever as coisas a um pormenor desnecessário que, frequentemente, quebra a narrativa. Como numa cena de acção em que este decidiu, sem grande relação com o que se estava a passar, dizer a cor das cuecas da secretária do "vilão". Percebo que o objectivo fosse dar um pouco mais de ambiente, mas da forma como essas descrições surgiam apenas me fazia revirar os olhos. E o aparecimento do narrador como personagem quase no final do livro era absolutamente desnecessário, além de que só serviu para dar aos leitores uma lição sobre meridianos e paralelos que bem poderia ter sido dada de outra forma e num ponto mais oportuno, sem que a personagem (pedante e machista) tivesse de ser o narrador.
Quanto a Tânger (um nome que me faz sempre pensar no nosso D. Duarte), passei o tempo todo a imaginá-la igual à Rachel do Orphan Black. Queria mais dela. Achei-a muito mais interessante do que o Coy ou qualquer outra personagem da história, e fiquei com pena que no final fosse aquilo que, desde o início, se dizia que seria. Tânger, apesar de ser a líder de toda a missão, não tem direito a ter a sua própria voz. É sempre descrita (ao pormenor da roupa que usa todos os dias, a sério, não é preciso saber exactamente o que ela veste) a partir das impressões dos outros (geralmente desfavoráveis, excepto quando se trata de Coy, que vai alternando entre amá-la e odiá-la, mas honestamente, ele é que se meteu na salganhada toda), como um ser vagamente misterioso e, claro está, traidor. Dá assim aquela imagem de Adão e Eva do século XX, em que a mulher é, à partida, um ser à parte, impenetrável, mau e condutor à perdição, que, infelizmente, parece ser ainda aquela que muitos homens têm das mulheres. Como é comum neste tipo de narrativa em que homem se apaixona por uma mulher e a segue para um mistério, qual Adão prisioneiro da sua Eva, percebe-se, desde o princípio, que a sua história não vai acabar de forma feliz, o próprio Coy o sabe. Mas mesmo assim, gostava de ter tido mais dela.
No final disto tudo, fiquei com vontade de ir visitar o Museu Naval de Madrid e, sobretudo, com uma pica para finalmente pegar nos livros do Tintim, a grande inspiração de Tânger. Não se espantem, por isso, de me ver em breve a ler o Tesouro do Rakan o Terrível e outros que tais.