A lua vem da Ásia é um romance surrealista brasileiro, escrito por Campos de Carvalho e publicado originalmente em 1956, marcando o nascimento da narrativa surrealista de Campos de Carvalho. É o diário de um homem que se chama Astrogildo – mas já foi Adilson, Heitor, Ruy Barbo – e está hospedado em um hotel de luxo que, para o bem da verdade, talvez seja um campo de concentração ou um manicômio. A loucura é o tema central deste romance, cujo protagonista inicia o relato confessando que, aos 16 anos, matou seu professor de lógica e foi viver sob uma ponte do Sena… embora nunca tenha estado em Paris.
Enfileirando recordações (ou seriam alucinações?) de suas passagens por Melbourne, Varsóvia, Cochabamba, Cuzco, Madagascar, Nova York, Cidade do México e, claro, Paris, Astrogildo torna-se o narrador de um mundo governado pela lei do absurdo, mas que parece assustadoramente semelhante à nossa normalidade cotidiana.
Walter Campos de Carvalho (Uberaba, 1º de novembro de 1916 — São Paulo, 10 de abril de 1998), foi um escritor cujos trabalhos são singulares na literatura brasileira. Em 1938 formou-se em direito, tendo se aposentado como procurador do estado de São Paulo, onde viveu em companhia da esposa Lygia Rosa de Carvalho.
Sua vida sempre esteve ligada à literatura, tendo publicado inicialmente Banda forra (ensaios humorísticos), em 1941, e Tribo (romance), em 1954. Mais tarde, escreveu os romances A Lua vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva Imóvel (1963) e O Púcaro Búlgaro (1964), hoje considerados verdadeiros marcos da literatura brasileira. A Lua vem da Ásia e A Chuva Imóvel chegaram a ser traduzidos para o francês.
Campos de Carvalho, como ficou conhecido no meio literário, também colaborou com O Pasquim e trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, no período de 1968 a 1978.
Curioso como durante a rápida pesquisa sobre A Lua Vem da Ásia encontrei raras citações que o associavam com Cândido, aquela pequena-grande-schadenfreude-clusterfuck-irmãos-coen-comédia-de-erros, onde um pobre e ingênuo coitado sofre todas as coisas mais horríveis que alguém pode imaginar, mas segue acreditando piamente que "este é o melhor dos mundos". Lançado por Campos de Carvalho em 1956, Ásia pode não ser a versão brasileira e marginal da tragicomédia do francês, mas faz empréstimos polpudos deste. Formado advogado e tornado escritor, Campos muito infelizmente caiu na vala da "escrita marginal", que hoje em dia não me parece nada além de um imenso guarda-chuva onde se apinham todos e quaisquer artistas que usavam a palavra 'cu' ou descreviam sexo como uma pulsão violenta da carne, e não como uma experiência religiosa e moralizante; ou seja, um punhado de gente.
Presença discreta nos círculos literários durante sua época de criação mais firme, que data mais ou menos de 41 a 64, Campos desapareceu do olhar público e morreu em paz em 1998, deixando cinco romances, um livro de ensaios, e esparsas colaborações em publicações como O Pasquim. O fato é que, colocando em perspectiva, talvez fosse um texto realmente sensível para a opinião pública dos anos 50, o que incutiu em seu relativo anonimato. Relançado de tempos em tempos por alguma editora inteligente, lembro de ter conhecido a existência de seu trabalho quando foi homenageado pela FreePorto, feira literária anárquica que acontecia aqui pelo Recife.
Mas tentando focar neste, que aparentemente divide o posto de melhor escrito de Campos com o mais famoso O Púcaro Búlgaro, Ásia é um mergulho bastante vívido, ainda que não tão violento ou "marginal" como se queira fazer parece, na mente de Astrogildo, que já teve tantos nomes e viveu em tantos lugares, e que agora definha num hotel de luxo, que também é campo de concentração e sanatório. Impecável exercício de imaginação em seu esmiuçar de como funciona a mente de uma pessoa aparentemente acometida por um distúrbio psicológico, o comentário social proposto por Campos pode ser algo formulaico ou anedótico (os loucos tem melhor percepção da sociedade que aqueles ditos sãos), mas é levado à cabo com tanta vivacidade que é impossível não se deixar seduzir.
A questão do hotel/sanatório e a observação das vidas ali presentes remete um pouco as observações de Thomas Mann em sua Montanha Mágica, porém diferente do virtuoso alemão, o ritmo aqui é bem mais frenético e errático, costurando os relatos da vida no cárcere (as visitas da mãe, por exemplo, são passagens absolutamente geniais), com os devaneios sobre aventuras mirabolantes ao redor do mundo (como as vividas pelo citado Cândido), e finalmente a vida numa cidade de que não se sabe o nome, o hemisfério, ou mesmo a data presente. É triste que alguém com uma prosa tão acessível, imaginativa, e sobretudo bem-humorada mesmo ao lidar com temas tão específicos e duros seja relegada ao gueto por fugir aqui e ali de um padrão vigente. Ao menos, sempre há alguém -e uma editora consciente- disposto a fazer com que seu nome não desapareça.
A parte mais difícil de entender é por que esse livro não está no cânone do romance brasileiro do século XX. Talvez seja porque os devaneios megalomaníacos do narrador, que fantasia aventuras ao redor do mundo, tenham sido considerados pouco sérios. Coisa de louco de anedota, é o que parece. Mas Campos de Carvalho usa isso como armadilha. O protagonista se vale do rocambolesco para construir sua reflexão existencialista sobre a vida, a morte, a liberdade, a literatura.
A primeira parte do livro é muito interessante, mas sem um fio condutor muito claro - o que pode afugentar o leitor. A segunda parte, por conseguinte, constrói uma narrativa linear, com uma cronologia mais clara. O último capítulo, por fim, é brilhante e belíssimo.
Esquisitíssimo e genial. Daquelas raras experiências de leitura que não se parece com nada que se tenha lido antes.
Desbravei este livro entre o primeiro e o segundo dia da resistência à invasão do exército Huno ao consulado soviético em Montevidéu. Me provocou variadas risadas, que culminaram na digna e gentil sutileza de um desmoronamento psíquico. Num momento de trégua, entre um jogo de xadrez e uma luta de boxe, li em voz alta os tão bem numerados capítulos aos meus algozes invasores. Dividiram-se em duas interpretações, assumo que igualmente válidas. Decidiram uns que tratava-se um manual de instruções ancestral para a correta execução de cirandas de roda assimétricas. Outros alardearam que não poderia ser senão um ensaio vanguardista sobre vertentes não ortodoxas de cripto-astrologia. Ao fim e ao cabo acabei impondo-lhes, por comum acordo, que a solução para o conflito estaria, como bem pontua o autor logo na primeira página, no assassinato indiscriminado de todos os professores de lógica. Em resumo, foi uma leitura que me surpreendeu muito positivamente. Especialmente porque não sei ler.
A Lua vem da Ásia é sobre o absurdo. O surreal. Astrogildo, um dos nomes do protagonista, vive um hospício. No entanto, ele acredita ser um hotel e depois um campo de concentração da qual é prisioneiro.
Ele narra as suas memórias e os convívio com os ilustres e variados personagens da mais alta patente e estirpe. Além da sua viagens pelo mundo e suas inúmeras histórias que viveu pelos caminhos que percorreu.Campos de Carvalho criou uma história gostosa de ser ler por mais que muita coisa nela não faz sentido. No entanto, tem um capítulo belíssimo. Jurando eu que o personagem ali estava lúcido. Ledo engano. As reflexões sobre a morte no final do livro são ótimas também.
É um livro super agradável e engraçado. Leia sem procurar sentido. Viaje junto.
A única certeza desse livro é que uma frase é seguida por outra mais absurda. Mesmo assim, existe algo encadeando essas situações tão aparentemente díspares e sem sentido. O personagem, que possui muitos nomes, vai se deslocando nessa vida entre quatro paredes (hotel, prisão ou manicômio ou todos ao mesmo tempo?) e a geografia parece não depender das fronteiras ultrapassadas, mas apenas do corpo ultrapassando limites apenas com a imaginação.
Ainda que seja caótico, esse livro suga tanto a gente para dentro do nonsense que é impossível largar e é bem difícil de se perder no que tá acontecendo - mesmo com a loucurada toda!
Campos de Carvalho tem uma das mais irresistíveis linguagens da nossa literatura. É um prosador habilíssimo, impressiona a cadência natural que consegue dar às frases, ainda que elas sugiram tremendos disparates. Lê-se o livro com muita facilidade. Chama-me muito a atenção nesse livro o seu espírito libertário, e mesmo anárquico. O livro é divertido e engraçado durante boa parte do tempo, mas é também terno e comovente. Para mim, o momento mais bonito do livro é o parágrafo "Aos que só choram quando há motivos para chorar..."
Momentos de lucidez em um mundo louco, em forma de prosa. E não acabou chorare. Uma leitura em que curiosamente encontrei calma e reflexão através das estórias mirabolantes e viagens dentro da mente de "Astrogildo".
Gostei bastante dele. Ainda que ele seja extremamente inventivo e cheio de abstrações (as aventuras impossíveis do protagonista são muito legais), há bastantes momentos em que ele soa extremamente sincero e real, muitas vezes nos finais de cada capitulo. O que me passou mais profundidade a ele
Brilhante livro. Em meio aos devaneios do locutor estão pérolas sobre o mundo e a vida como vivemos. Os últimos capítulos em especial trazem um rallying cry emocionante.
É o forrest gump brasileiro. A gente sabe que as histórias não são de verdade mas a gente quer acreditar na loucura do protagonista irônico e engraçado. O louco sou ele ou sou eu? Talvez os dois..
Jubilatoire au possible ! La 4ème de couverture nous laisse entrevoir une littérature pessimiste ce que ce livre n'est aucunement. Il n'a juste aucune limites, joue, est irrévérencieux et donne à son lecteur tout le plaisir qu'un bon livre sud-américain peut offrir. Un petit bonbon qui pique et fond sous la langue... Allez-y, vous risquez d'être sacrément surpris, et agréablement malmené !
As menções das tramóias e equívocos de revolucionistas contra a Igreja e o Estado brasileiros durante a primeira metade do século XX já vale a leitura. Apesar das comparações ele se mantém numa linha muito mais surrealista debochando do futurismo, mesclado pelos modernistas. Uma surpreendente defesa do individualismo humanista no reino de Jorge Amado.