Num país sem tradição memorialista, no qual as poucas obras que existem representam a justificação de acções pretéritas, Maria Filomena Mónica procura apresentar a sua vida sem glorificações nem lamúrias. Não presume fornecer a verdade, mas apenas a sua verdade: outros terão olhado as pessoas, os acontecimentos e as peripécias, de que aqui nos fala, de forma diferente. Num país conservador, católico e hipócrita, o tom cru deste livro poderá chocar. Mas a intenção da autora não foi essa, mas sim a de tentar perceber, e dar a perceber, uma vida, uma família e um país, entre 1902, data do nascimento da sua avó, e 1976, o ano em que, após uma estadia no estrangeiro, regressou a Portugal.
MARIA FILOMENA MÓNICA nasceu em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1943. Licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa, em 1969, e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Oxford, em 1978. Colabora regularmente na imprensa. Entre outros livros publicados, é autora de «Eça de Queirós» (Quetzal, 2001), «Bilhete de Identidade» (Alêtheia, 2005) e «Cesário Verde» (Alêtheia, 2007). É investigadora-coordenadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
No âmbito do meu curso de Informação e Animação Turística achei por bem, munir-me de biografias diversas de modo a elaborar a minha própria, pois, algo que parecia simples ao início, depressa se tornou numa aborrecida e, repetidamente adiada, tarefa.
Este "Bilhete de Identidade" veio a revelar-se uma leitura agradável, talvez por o ter lido como se de um romance se tratasse, mas principalmente, de grande utilidade para a minha empreitada.
Também aprendi imenso sobre determinantes factos políticos e sociológicos da História de Portugal, que desconhecia ou talvez não me recordasse.
Não fiquei fã da escrita nem da personagem. Confundi-me com tanto nome pomposo dos amigos e amigas e com as descrição da acção, saltando entre datas mais à frente e mais atrás no tempo. O enquadramento sobre o clima político que se vivia na altura está bem conseguido e foi o que mais me interessou no livro. Tudo o resto cansou-me.
2ª leitura, Nov2020: quase seis anos depois da primeira leitura, continuo a adorar MFM e tudo o que escreve. Mantenho o que opinei sobre este livro em 2015.
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1ª leitura, Jan2015:
Penso que esta terá sido a segunda autobiografia que alguma vez li e decidi fazê lo por a autora ter vivido numa fase de transição política e cultural em Portugal. Assim, graças aos relatos das suas experiências pessoais, é permitido aos leitores recuarem algumas décadas no tempo e perceberem, com toda a exatidão que uma visão individual permite, como se organizava a sociedade portuguesa antes do 25 de Abril de 1974 e até um pouco depois. Para quem, como eu, nasceu muito depois dessa data, este conjunto de memórias de Maria Filomena Mónica vem trazer alguma cor e textura àquilo que nos tentam ensinar ns aulas de História. Outro aspecto que me faz adorar este livro é a própria personalidade da sua autora. Maria Filomena Mónica lutou toda a sua vida contra o estereótipo imposto acerca da mulher, insurgindo-se contra os tabús, as convenções (mulher enquanto mão e dona de casa) e o poder masculino numa sociedade patriarcal. Admiro a sua sede de experiências e de conhecimento, a sua persistência e coragem. Nalguns aspectos, faz-me lembrar a minha avó, na tentativa permanente de se emancipar do controlo alheio e de ser dona de si mesma, em particular. O relato destes 30 anos de memórias pode parecer frio, distante e até arrogante. No entanto, é a ausência de floreados que deve ser louvada. A vida e como é e Maria Filomena Mónica conta a sua sem papas na língua. Fiquei com vontade de conhecer o resto da sua história, do seu "Bilhete de Identidade".
Gostei imenso do livro. A nota rigorosa seria 4.5, em virtude de algumas passagens que me pareceram mais maçadoras, mas nada significativo. Confesso que, como tinha lido algumas críticas antes de ler, estava à espera de um teor muito mais chocante do que o real. Percebo mal os eventuais choques; é um livro franco, em muitas das passagens evidentemente datado e quem não o sabe ler assim perde imenso. Admiro, apesar de tudo, a coragem de Maria Filomena Mónica, ao assumir uma forma de escrever tão franca. Quem de nós não gostaria de ter coragem para o mesmo? O livro é, até historicamente, muito interessante. Tendo o período do Estado Novo e dos primeiros anos pós-revolução ainda muitas lacunas em termos de tratamento histórico, o livro permite alcançar a forma como uma parte da sociedade via a realidade e se comportava. O facto de ser uma parte da sociedade mais privilegiada não lhe retira o interesse; temos de deixar de ser hipócritas , até nisso. Achei muitíssimo interessante todo o retrato da vida, enquanto mulher e profissional. As dificuldades, as angústias, as lutas para tomar decisões que uma sociedade machista e hipócrita como a nossa era (e ainda é, muitas vezes) são exemplos de tenacidade, de força, de coragem. Finalmente percebo pouco o choque que li em algumas críticas sobre as passagens da vida amorosa. Não achei nada chocante, além de que, confesso, não foi o que achei mais importante no livro. Li este Bilhete de Identidade um pouco por acaso. Andava à procura de um outro livro da autora, tropecei neste e resolvi comprar. Em boa hora. E da autora, de quem não tinha particular afinidade, tornei-me admiradora.
A melancolia assaltava-me, quando, ao entardecer, relembrava as naus em que jamais embarcaria. Não desejava que o meu sossegado fosse feito de resignação.
O que dizer deste livro? A autora acha uma proeza, eu sinto constrangimento, que é como quem diz “ai que vergonha!” Tenho este sentimento ao colocar-me nos sapatos dos pais, irmãos, ex-marido, das dezenas de amantes, dos amigos e amigas que veem a sua vida literalmente a nu e entendo o corte de relações que muitos fizeram. Há quem diga que este livro os ajudou. Não vejo como, mas ainda bem.
Vamos ao enquadramento e à decepção: Desde 2011 que o procuro em livrarias e alfarrabistas, depois de me ter sido recomendado pelo Prof. Vegar no curso “como escrever histórias de família” no Chiado. Disse: “é o que de melhor se escreveu em Portugal sobre histórias de família, e um retrato da alta sociedade rica e intelectual em Portugal anos 40-70.”
Já tinha feito o download da versão e-book para o meu telemóvel quando, no final de 2017 saiu nova edição e finalmente tive oportunidade de o ler à séria, como eu gosto (com o cheiro a papel e o peso na mala). Devorei os primeiros capítulos, uma escrita fácil, até divertida, envolta num mistério familiar, com uma forte dose de frontalidade e sarcasmo. Do misterioso avô, aos anos da infância e adolescência ainda fui levando com gosto. A partir dos 20anos fui desenvolvendo um desamor por esta mulher que não imaginam. Perdi a conta aos nomes dos homens da sua vida, todos com 3 apelidos pomposos da praça, todos infieis, todos mentirosos, todos descartáveis, assim como ela. Do desapego aos filhos, da arrogância, do egoísmo, da sua mente doente e complicada. Quem tolera? Eu não.
Li pela segunda vez, e decididamente não achei piada nenhuma ao livro. Mesmo sendo memórias e por isso relatar a vida da aurora, achei despropositado não ter sequer alterado o nome dos intervenientes, expondo-os desta forma. Acredito que os mesmos tenham sido consultados e dada autorização para tal, mas preferia que a história tivesse fluido sem nomes reais. Não me despertou interesse nenhum a história.
Um contributo muito raro para entender, de uma perspetiva individual, uma parte específica da sociedade Lisboeta da altura. Também interessante pelos relatos que inclui da vida na altura da revolução de 25 de Abril, e tudo isto com o humor, inteligência e bom estilo característicos da autora. Muito bom!
Como ya he comentado, las biografías no son mi género favorito y recuerdo que empecé la lectura con prejuicios. Sé que no llegué a empatizar con la autora ni con su vida. Sus aventuras, opiniones y visiones no me aportaron gran cosa.
How can a person lack so much generosity, pay so much importance to making friends with 'the right kind of college people' with the right degrees and still so many years after say and keep that was the right way of thinkig? This is an appalling portrait of this generation.
Sem papas na língua um romance autobiográfico ? Que retrata o século XX em Portugal antes de abril de1974. Apreciei a leitura nua e crua mas simultaneamente em grande estilo à imagem da autora que muito admiro. O 1 que li que me despertou para outros da mesma autora.
Gosto da Filomena Monica e por isso li o livro. Não sendo uma obra prima de escrita, envolve no momento, na visão do Portugal da altura e consegue dar uma visão pessoal do relacionamento em família. E é sempre e admirar as mulheres que muito antes de ser norma, abriram o caminho!
Difícil comentar um livro ao mesmo tempo tão simples e tão complexo. Simples pelo óbvio que constitui, para alguém habituado a escrever sobre temas sociais, contar a sua própria vida como a recorda e como a reconstitui através de pesquisas em velhos arquivos pessoais e públicos. Complexo pelos turbilhões emocionais que, adivinhamos, deve ter provocado no autor e personagens o atrevimento quase inédito de publicar em Portugal um livro descrevendo eventos e opiniões pessoais sobre pessoas - públicas e não públicas - ainda vivas e claramente identificadas. No balanço, um livro que se lê com evidente prazer e muito facilmente e rapidamente, com uma escrita escorreita e quase desprovida de preocupações literárias. Imagino a catarse que este livro deve ter constituído para a autora, e deteta-se claramente o prazer que retira, embora não o queira admitir, do desfilar de nomes ilustres com quem conviveu, social ou intimamente. Que lhe faça bom proveito, se esse exercício de egocentrismo lhe é útil. Para o/a leitora, fica o retrato de uma época, através do qual se vislumbra muitos do que são as atuais características e defeitos das classes dirigentes da sociedade portuguesa. Só por isso, ou principalmente por isso, vale este interessante livro!
Fiquei enfeitiçada pela leitura destas memórias que devorei em três dias. Segui com interesse as indicações geográficas, localizando todas as ruas, os nomes das famílias, identificando quase todas e os acontecimentos histórico-políticos. Mas o que verdadeiramente me fascinou foi poder observar as mentalidades, as personalidades, as relações familiares e os tiques de status. Tudo isso foi um acréscimo de conhecimento sobre o que é ser português, ou melhor, lisboeta de um meio social privilegiado. Foi uma janela para perceber como funcionavam por dentro, sobretudo devido à visão crua e escorreita da autora. Recomendo vivamente.
(4,75) Enquanto estava a ler este livro, tive várias vezes a sensação de estar a espiar inadvertidamente o diário, que uma senhora de uma certa idade escreveu na sua juventude. Admiro a coragem em expor tudo "cá para fora".