Depois de «Bilhete de Identidade», Maria Filomena Mónica escreve «Passaporte», um livro sobre as suas viagens e incursões pelo mundo. Com «Bilhete de Identidade» (Alêtheia Editores, 2005), Maria Filomena Mónica alcançou grande sucesso e suscitou grande polémica pela forma desassombrada como descreveu o seu passado e relatou a sua vida até 1976, tendo sido a primeira a fazê-lo na sociedade portuguesa. São também conhecidos outros dos seus livros, como «Cesário Verde», a biografia do poeta que editou em 2007 (Alêtheia Editores).
MARIA FILOMENA MÓNICA nasceu em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1943. Licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa, em 1969, e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Oxford, em 1978. Colabora regularmente na imprensa. Entre outros livros publicados, é autora de «Eça de Queirós» (Quetzal, 2001), «Bilhete de Identidade» (Alêtheia, 2005) e «Cesário Verde» (Alêtheia, 2007). É investigadora-coordenadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Este foi outro livro que me foi emprestado pela Sandra, e também gostei bastante!!! Faz-me lembrar imenso ler os diários/relatórios de férias que o meu pai escreve sempre que vamos a algum lado, mas com um acrescento de um contexto histórico de cada local - a maior parte dos capítulos tem um balanço muito bom entre este dois aspectos (o que significa também que se sente mais o desilusão nos capítulos em que o mesmo não existe...) Achei os capítulos bastante interessantes - gostei bastante não só da novidade de sítios a que não fui, mas também de ler sobre sítios que conheço e em que as descrições eram me familiares (a certo ponto é mencionado tanto o sitio onde vivo como onde trabalho). Para mim houve só algumas partes que não resultaram tão bem, devido à negatividade do texto em si - certo, é valido, é a opinião da autora do espaço, mas não consigo (e acho que não é esperado) concordar com tudo. Concluindo, recomendo o livro sem dúvida, é uma forma de viajar um pouco por Portugal e pelo mundo sem sair do conforto de casa :)
“(…) o hotel situado dentro do próprio recinto, era suficientemente luxuoso para albergar quem, como eu, se tornou intolerante em relação aos incómodos da viagem. Isso não me impedira de, no dia anterior, ter passado quarenta minutos hesitando se deveria levar comigo a almofada Colunex. Decidira pela negativa, do que previsivelmente me arrependi.”
A Expo 98 fechou as contas sem dizer quanto custara a festa, embora hoje se saiba ter sido altamente deficitária. No meio da babugem, algumas coisas ficaram. Desde logo, uma estação de Metro, que ligou a zona, de 323 hectares, à cidade, alguns bairros novos e sobretudo uma zona verde. Um dos grandes pecados de Lisboa é a falta de vegetação. É verdade que o clima não é propício a árvores, mas a razão mais funda é a falta de amor dos lisboetas e das autoridades municipais pelos espaços públicos. Mesmo os que regam todos os dias as sardinheiras penduradas nos vasos das varandas são capazes de assistir, sem um protesto, à morte de uma árvore centenária situada numa praça pública. Um poeta francês, que nunca visitou Lisboa, Baudelaire, já mencionara o facto em Le Spleen de Paris: «É uma cidade à beira da água; dizem que está edificada em mármore e que o povo tem um ódio tal à vegetação que arranca todas as árvores.»10
(…) subi o Chiado. Junto à Brasileira, à volta da horrível estátua em honra de Fernando Pessoa, alguns turistas fotografavam-se uns aos outros. Dois pedintes, acompanhados de um cão ameaçador, preparavam-se para passar a noite debaixo de um arco. Caíra a soturnidade que, ao anoitecer, provoca o apetite por sofrer.
Quando eu era pequenina, nunca fui interrogada sobre o que queria ser quando fosse grande, pelo que não tive oportunidade de responder que a minha ambição era doutorar-me por Oxford. Uma menina com um laço de tafetá não podia aspirar a mais do que a uma vida entre a cozinha e os engomados. Mas o destino não é tão inflexível quanto parece. Aos vinte e oito anos, encontrei-me a caminho da cidade das «dreaming spires» (não consigo usar o termo «pináculos de sonho»).
Depois de uma noite mal dormida, peguei na maleta e regressei ao meu bairro. É esta a cidade que amo. Revi, sob o céu de Janeiro, tão azul e tão fino, as casas com tabuinhas nas janelas, entre as lojas que, desafiando as leis da concorrência, conheço desde a infância. Os donos, o patrão da drogaria da Rua da Lapa, o sapateiro da Travessa do Noronha, o ourives da Rua das Portas de Santo Antão, são vestígios de uma civilização em vias de desaparecer. Tal como a luz de Lisboa, são eles que me mantêm ligada à cidade onde nasci.