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Diário do Hospício / O Cemitério dos Vivos

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O volume reúne duas obras de Lima Barreto, Diário do Hospício e a novela inacabada O Cemitério dos Vivos. O primeiro é um documento impressionante da internação do escritor, entre o natal de 1919 e fevereiro de 1920, no Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O segundo enfrenta, em chave ficcional, a experiência da loucura, narrada no primeiro. Publicados postumamente, em 1953, funcionam como vasos comunicantes. Esta nova Edição, além de contar com um prefácio exclusivo do crítico Alfredo Bosi, oferece um conjunto inédito de informações que entrelaça diferentes disciplinas: crítica literária, história e psiquiatria. Aliando pesquisa iconográfica e a reprodução de crônicas de escritores como Machado de Assis, Raul Pompéia e Olavo Bilac, o drama pessoal do escritor ressurge num quadro histórico mais amplo em torno do Hospício e da capital da República, na virada do século XIX para o século XX.

347 pages, Paperback

First published January 1, 1988

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About the author

Lima Barreto

244 books162 followers
Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881 na cidade do Rio de Janeiro. Enfrentou o preconceito por ser mestiço durante a vida. Ficou órfão aos sete anos de idade de mãe e, algum tempo depois, seu pai foi trabalhar como almoxarife em um asilo de loucos chamado Colônia de Alienados da Ilha do Governador.

Concluiu o curso secundário na Escola Politécnica, contudo, teve que abandonar a faculdade de Engenharia, pois seu pai havia sido internado, vítima de loucura, e o autor foi obrigado a arcar com as despesas de casa.

Como leu bastante após a conclusão do segundo grau, sua produção textual era de excelente qualidade, foi então que iniciou sua atividade como jornalista, sendo colaborador da imprensa. Contribuiu para as principais revistas de sua época: Brás Cubas, Fon-Fon, Careta, etc. No entanto, o que o sustentava era o emprego como escrevente na Secretaria de Guerra, onde aposentaria em 1918.

Não foi reconhecido na literatura de sua época, apenas após sua morte. Viveu uma vida boêmia, solitária e entregue à bebida. Quando tornou-se alcoólatra, foi internado duas vezes na Colônia de Alienados na Praia Vermelha, em razão das alucinações que sofria durante seus estados de embriaguez.

Lima Barreto fez de suas experiências pessoais canais de temáticas para seus livros. Em seus livros denunciou a desigualdade social, como em Clara dos Anjos; o racismo sofrido pelos negros e mestiços e também as decisões políticas quanto à Primeira República. Além disso, revelou seus sentimentos quanto ao que sofreu durante suas internações no Hospício Nacional em seu livro O cemitério dos vivos.

Sua principal obra foi Triste fim de Policarpo Quaresma, no qual relata a vida de um funcionário público, nacionalista fanático, representado pela figura de Policarpo Quaresma. Dentre os desejos absurdos desta personagem está o de resolver os problemas do país e o de oficializar o tupi como língua brasileira.

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1 (<1%)
Displaying 1 - 25 of 25 reviews
Profile Image for Adriana Scarpin.
1,738 reviews
August 4, 2016
Mais um documento histórico que funciona como preparação, Diário do hospício não é propriamente um diário, soa mais como anotações dispersas para futuro uso ficcional, se comparado ao diário de Maura Lopes Cançado sobre sua internação também no Pedro II algumas décadas mais tarde, as diferenças de qualidades literárias são gritantes, sendo a obra de Cançado de um primor inigualável. Adentrando Cemitério dos Vivos, vemos como funcionou a mente barretiana com relação ao diário e de como galgou as informações ali contidas em prol da ficção.
Profile Image for Valéria Ota.
19 reviews1 follower
July 14, 2021
“Diário do hospício” não é bem um diário, é mais um conjunto de anotações que não me chamou muito a atenção. No entanto, ele serviu de base para uma das mais belas narrativas que li acerca do doente mental. “Cemitério dos vivos” é um relato de dentro do hospital psiquiátrico e curioso como Lima Barreto conta a história baseada em sua experiência, mas como se vista de fora, como se ele não fizesse parte daquele ambiente (“Lima Barreto se identifica à posição de Dante (em “Divina Comédia”), isto é, se coloca como escritor e também como visitante ilustre, apenas de passagem naquele mundo subterrâneo, marcando com isso uma alteridade profunda e dramática em relação aos outros internos”).
Essa edição ainda contém textos de outros escritores sobre o Hospício (o de Olavo Bilac sobre as crianças internadas é emocionante) que enriquecem ainda mais a experiência do livro.
Profile Image for Arthur Oliveira.
6 reviews
December 1, 2021
Diário do Hospício é 5/5
Infelizmente ler o Cemitério dos Vivos logo após o Diário faz com que as coisas se repitam demais
Os apêndices são ótimos, salvo dois textos.
No geral excelente, o Diário principalmente, a sensibilidade e honestidade que Lima tem pra descrever o ambiente e a situação dos manicômio é incomparável, ele transmite a sensação do manicômio e a sua própria dor de forma única.
Profile Image for Marta D'Agord.
226 reviews16 followers
August 9, 2021
Com prefacio de Alfredo Bosi, os organizadores dessa edição crítica, Massi e Marcondes de Moura, ainda incluíram três contos de Lima Barreto e algumas crônicas e reportagens sobre o Hospício Nacional de alienados. As crônicas e reportagens publicadas na imprensa de 1905-1920 e assinadas, entre outros, por Machado de Assis e Olavo Bilac, além do testemunho de Lima Barreto no diário do Hospício, falam da função social do Hospício.

O diário e o Cemitério dos vivos dialogam bastante, se no primeiro trata-se do registro em primeira pessoa da segunda internação de Lima, no segundo, há muitos registros do diário transpostos para a ficção através do personagem Vicente Mascarenhas, viúvo e pai de uma criança doente.

Ambos, diário e cemitério, destacam-se pela crônica da internação, da descrição da arquitetura e do espaço físico e dos ocupantes, moradores, cuidadores, enfermeiros, médicos. Há simpatia pelos cuidadores, muitos portugueses, que passam a maior parte da vida no convívio com os pacientes. Nas duas obras, Lima Barreto faz uma crítica à teoria da hereditariedade e ainda apresenta duas outras hipóteses que lhe parecem mais razoáveis, a da identificação e a da sugestão.
Profile Image for Amanda Lemes.
64 reviews7 followers
June 9, 2021
Esta é uma leitura que recomendo pra absolutamente toda e qualquer pessoa, e que penso ser fundamental para aquelas que pretendem trabalhar dentro dos dispositivos da rede de saúde mental. A edição sobre a qual escrevo é fantástica, porque, além de reunir diversas obras de Lima Barreto (e outros autores), também traz muitas notas que ajudam na compreensão da vida deste e de sua época. O livro está dividido em 3 partes:

i. a primeira corresponde ao Diário do hospício, um conjunto de anotações que o autor fez quando da sua segunda internação no Hospital Nacional de Alienados (entre o fim de 1919 e o início de 1920). É uma escrita bastante rica, na qual ele levanta questões sobre a judicialização da vida e a atuação policialesca de repressão nas questões da loucura, a predominância de práticas puramente tecnicistas (e também biologizantes) entre os profissionais da saúde, a violação de direitos e a falta de amparo social por parte do Estado aos considerados loucos, dentro outros tópicos. Destaco um trecho em que ele faz uma análise sobre sua própria relação com o álcool, que me deixou extremamente tocada; é um relato que enfatiza bem a dimensão social da dependência química:
"[...] deu-me conselhos para reagir contra o meu vício. Oh! Meu Deus! Como eu tenho feito o possível para extirpá-lo e, parecendo-me que todas as dificuldades de dinheiro que sofro são devidas a ele, e por sofrê-las, é que vou à bebida. Parece uma contradição; é, porém, o que se passa em mim. [...] Muitas causas influíram para que viesse a beber; mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele."

ii. em seguida, temos O cemitério dos vivos, uma ficcionalização dos escritos do Diário. Nesta parte, muitos trechos do Diário são utilizados ipsis litteris, ou com mudanças mínimas. No entanto, é uma leitura mais fluida, já que, no conjunto da obra, a escrita se apresenta mais coesa e lapidada. Lima Barreto faleceu antes de conclui-la e, portanto, a história "termina" de modo abrupto. Ainda assim, é uma leitura muito interessante e destaco dois trechos dessa parte que ajudam a ter um panorama de como o autor se sentia com a reclusão das internações (o primeiro faz referência ao título do livro e o segundo aborda a tristeza vinculada à clausura):
"Olham-se os quartos e todos aqueles homens, muitas vezes moços, sem moléstia comum, que não falam, que não se erguem da cama nem para exercer as mais tirânicas e baixas exigências da nossa natureza, que se urinam, que se rebolcariam no próprio excremento, se não fossem os cuidados dos guardas e enfermeiros, pensa-se profundamente, dolorosamente, angustiosamente sobre nós, sobre o que somos; [...] Parece tal espetáculo com os célebres cemitérios de vivos que um diplomata brasileiro, numa narração de viagem, diz ter havido em Cantão, na China. Nas imediações dessa cidade, um lugar apropriado de domínio público era reservado aos indigentes que se sentiam morrer. Dava-se-lhes comida, roupa e o caixão fúnebre em que se deviam enterrar. Esperavam tranquilamente a Morte."
"Com o ar azul da enseada de Botafogo, para quem olha, devia ser um alegre retiro, tivesse ele outro destino; mas a beleza do local pouco deve consolar, apreciada através das grades, da triste condição em que se está, torvo o ambiente moral em que ali se respira. A beleza da natureza faz mais triste a quem tem consciência do lugar em que está e, olhando-a com os olhos tristes, ao amanhecer, a impressão que se tem é que não se pode mais sonhar felicidade diante das belas paisagens e das belas coisas..."

iii. por último, temos um conteúdo extra, que abarca contos e entrevistas de Lima Barreto que orbitam ao redor da questão da loucura e/ou das experiências de suas internações, assim como materiais de outros autores (Machado de Assis, Olavo Bilac etc) sobre essa mesma temática. Confesso que não gostei tanto assim desta parte, porque achei os textos, em sua maioria, bem maçantes, especialmente os do Machado de Assis. Ainda assim, fornecem uma base interessante para vermos como tais questões eram pensadas no Brasil há pouco mais de um século, com destaque para um conto do próprio Lima Barreto, que coloca em pauta o preconceito religioso e a vinculação feita entre a loucura e certas crenças e espiritualidades, assim como o uso da força policial e do enclausuramento para repressão da prática religiosa de grupos marginalizados.
Profile Image for Ricardo Silvestre.
207 reviews37 followers
September 25, 2023
Tenho sentimentos contraditórios em relação a esta obra.

A temática é do meu interesse, por um lado, mas achei que a obra torna-se um pouco repetitiva com tanto relato diferente sobre o mesmo tema, feito não só por Lima Barreto (nos apontamentos dispersos e depois no romance e ainda nos contos incluídos já no final) mas também por outros nomes reconhecidos da literatura brasileira do início do séc. XX.

A escrita de Lima Barreto é inegavelmente rica. Em certas passagens, especialmente no romance “O Cemitério dos Vivos” a leitura é de tal forma prazerosa que é como se estivéssemos a desgostar o final dos cornetos de chocolate, onde sempre fica acumulada uma quantidade extra de substância. Porém, noutras partes é difícil de perceber a intenção do autor logo na primeira leitura, muito por conta da quantidade de palavras das quais não sabemos o significado e que torna o processo num jogo de vai e vem do qual não sou particularmente fã.

Não deixa, contudo, de ser um relato de extrema importância pois temos aqui alguém que passou efectivamente pela experiência de estar internado num hospício, numa altura em que as coisas eram significativamente diferentes da actualidade, especialmente no que toca às doenças de foro mental.

Parabenizo os organizadores da edição deste livro que é de uma riqueza ímpar, não só pelas inúmeras notas de rodapé, que esclarecem muitas das situações em contexto, mas também pelas fotografias incluídas.

Fico, no final, com uma sensação boa de que voltarei a ler este livro lá mais para a frente.
Profile Image for Laurinha Lero.
105 reviews753 followers
April 1, 2016
"Aquelas árvores, aqueles bambus, destinavam-se a uma remansosa estação de recreio (...) Os anos as fizeram ver a mais triste moléstia da humanidade, aquela que nos faz outro, aquela que parece querer mostrar que não somos verdadeiramente nada, nos aniquilando na nossa força fundamental."

Excelente livro duplo do Lima Barreto, sendo em parte o seu diário de estadia no hospício da Praia Vermelha e em parte a obra (inacabada) que a experiência inspirou. Me agradou mais o primeiro, com seus relatos da doença do pai e do alcoolismo do autor, do seu orgulho intelectual e do arrependimento de não ter amado a mulher, que impressionam pela franqueza.

Se não dou nota mais alta é porque é incompleto e me deixa querendo mais, tanto da história de Vicente quanto da do próprio Lima, recluso e aborrecido num manicômio com vista pro Corcovado. Quatro estrelas.

Profile Image for Felipe Vieira.
789 reviews19 followers
July 26, 2022
4,5

É a primeira obra do Lima Barreto que leio. Essa edição da Cosac Naify é simplesmente incrível. O trabalho e os textos de apoio são primorosos e nos ajudam a conhecer não só um pouco do autor, mas também a conhecer um pouco mais sobre as suas intenções.

Diário de Hospício abre o conjunto dessa edição. É uma coletânea de escritos que Barreto escreveu no período em que esteve internado em um Hospital para Alienados. São relatos sobre o funcionamento dos alojamentos, dos tratamentos que recebia e como os outros internos eram tratados. Também há descrições sobre os que ali conviviam com ele não só pacientes, mas também enfermeiros, médicos e ajudantes. Lima Barreto inúmeras vezes compara o manicômio como uma prisão. Ali funciona como uma prisão por muitas vezes privar os pacientes de serem tratados como seres humanos. Apesar disso há também informações sobre como alguns médicos e enfermeiros faziam de tudo para que os internos fossem bem tratados.

Toda essa escrita me cativou bastante. É uma escrita que inspira, mas também nos faz juntamente com o que ele expõe questionar inúmeros problemas de uma sociedade problemática. Já naquele tempo ele questionava a violência policial, o desinteresse da sociedade sobre as questões humanas, os maus tratos as pessoas com problemas mentais e a exclusão delas. Um livro que foi escrito há quase cem anos ainda consegue conversar com o Brasil atual. Sinal de que estamos caminhando a passos lentos ou o pouco que conquistamos está sendo tirado da população que precisa. Prova disso é que o campo da saúde brasileira ligada a psicologia está sendo desmontada pelo governo Bolsonaro. É lamentável que mudanças positivas foram conquistadas pós-escrita de Lima Barreto esteja sofrendo com uma ingovernabilidade ignorante e com o intuito real de destruição.

Para além disso, há em Diário de Hospício, inúmeras reflexões existenciais. Barreto narra e questiona o amor quase inexistente pela mulher, a tristeza de não conseguir viver plenamente daquilo que gostava de fazer (escrever suas ficções e refletir sobre a humanidade), o medo de não seguir outro caminho mais promissor, não acreditar no seu potencial como alguém criativo. Esses questionamentos que nos é tão presente e pulsante já eram retratados há anos. Isso s�� me dá a certeza de que os problemas ainda são os mesmo só a sociedade e a tecnologia que muda de tempos em tempos.

Logo após os relatos da sua existência em mais de uma vez no hospital para alienados chegamos a obra ficcional inacabada baseada nesses momentos: O Cemitério dos Vivos. Preciso dizer que essa parte não me apeteceu muito por conter praticamente a mesma coisa o livro anterior. Há pouquíssimas diferenciações. Existe ali somente o necessário para introduzir os principais personagens e os seus relacionamentos. Quando Barreto começa a parte em que o personagem vai para o hospício as descrições são praticamente as mesas das suas anotações. Para mim, o Diário cumpriu o papel denunciante e questionador de toda a situação das pessoas que viviam em manicômios. Mas ali e nos textos seguintes crônicas e contos é possível captar o poder da sua escrita mesmo que tenha soado extremamente repetitivo.

Barreto é um homem instigante. Essa obra fez com que eu me interessasse mais por ele. O Barreto escritor e o Barreto homem. Tanto que irei atrás de aluma biografia que possa me mostrar mais quem foi este homem. Por fim, indico esse livro para todo mundo.
Profile Image for Juliana Garbayo.
109 reviews7 followers
September 21, 2023
Este livro me tocou muito. Quis saber + sobre Lima Barreto (até então p/mim “só” o autor do Triste fim de Policarpo Quaresma, lido na escola). Barreto abrasileirou a arte da escrita, até então influenciada pela estética europeia, tornando-a + coloquial, simples, democrática (claro: rejeitado por acadêmicos/conservadores). Foi internado involuntariamente por complicações do alcoolismo, mas o que transborda no livro nem é isso, mas seu desânimo, sua desesperança, o menosprezo e completo descrédito com que se sente tratado depois de rotulado “louco”.

Inquietante a agudeza do seu raciocínio, seu poder de crítica e observação, sua angústia sem ter com quem falar, envergonhado por tirar a roupa em público, tentando mudar de ala pra ter acesso à biblioteca, onde não há silêncio nem livros em condições (abandonada como tudo ali). Como psiquiatra esse livro me fez refletir muito, desejei ter lido quando ainda era residente de Psiquiatria. Triste ele morrer aos 41 anos, 2 anos depois deste livro onde já se queixava tanto da vida, flertava tanto c/ a morte. Seu fim podia ter sido diferente se o suporte social fosse outro.

"De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões que as dificuldades da minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura, deliro."

"Ontem, matou-se um doente, enforcando-se. Escrevi nas minhas notas: suicidou-se no pavilhão um doente. O dia está lindo. Se voltar a 3ª vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus seja o dia tão belo como o de hoje.”

"O nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro. Não há dinheiro que evite a Morte, quando ela tem de vir; e não há dinheiro nem poder que arrebate um homem da loucura. Aqui no Hospício, com as suas divisões de classes, de vestuário, etc, só vejo um cemitério.*

"Entrei para a Pinel, a seção dos pobres, dos sem-ninguém, aquela em que a imagem do que a Desgraça pode sobre a vida dos homens é + formidável e + cortante."

"Recordei-me do meu sobrinho, da sua infantil mania de supor que o Hospício me curava e que era o álcool e as companhias que me punham a delirar. O meu sofrimento era mais profundo, mais íntimo, mais meu."
12 reviews
July 23, 2025
É possível que meu comentário seja um tanto quanto bagunçado, pois essa obra me trouxe um misto de sentimentos e reflexões.

Primeiramente, é aquele tipo de livro impossível de desvincular de seu contexto externo - por isso abordar a leitura das duas partes (Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos) como uma só é essencial no meu ponto de vista (ainda que muitos assuntos se repitam). A obra, integralmente, é mais sobre o próprio Barreto do que qualquer outra coisa, o que também é importante saber antes da leitura, pois não é um livro com início-meio-fim (muitas vezes vamos nos perguntar aonde o autor quer chegar e, para surpresa de ninguém, Barreto não faz uma viagem para além de um cotidiano brasileiro). Sinceramente, para quem gosta da literatura desse autor, a "falta" de enredo pouco incomoda.

Toda vez que escolho a nota de um livro eu penso em vários critérios, mas o principal para mim é o quanto eu verdadeiramente gostei da experiência de lê-lo. Diário do Hospício / O Cemitério dos Vivos possui (quase) tudo que amo em uma obra: reflexões críticas, sarcasmo, estilo literário notadamente próprio do autor e abordagem social. Obviamente o que transformaria esse livro em 5/5 é a construção dele como uma obra de fato - Lima Barreto nunca passou do estágio de manuscrito, o que dá para se notar -, porém, mesmo com essa tristeza, o resultado final é inquestionavelmente bom e, por isso, coloquei tal leitura como 4/5.
Profile Image for Danielle.
85 reviews1 follower
June 22, 2021
Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.

Tive minha primeira experiência lendo Lima com "Triste Fim de Policarpo Quaresma", que acabou se tornando um dos meus favoritos simplesmente por retratar com tanta atenção e sensibilidade vários temas que até hoje são considerados como tabu na sociedade brasileira.

Agora, em "Diário do hospício", tive a oportunidade de enxergar a vida pessoal do criador por meio das suas próprias lentes; e em "Cemitério dos vivos", a de acompanhar uma narrativa que criou vida própria a partir de uma reinvenção da realidade de quem o escreveu (e, infelizmente, não pôde terminar). Em vários momentos durante a leitura do romance, tive muita dificuldade em desvincular a figura do seu protagonista daquela que já me tinha sido apresentada pelo seu autor, mas acho que isso não é nada além de um pequeno preço a se pagar por ter mergulhado nas memórias de uma pessoa que tem o dom de eternizar tudo que vive por meio da arte de escrever.
40 reviews
January 27, 2024
"Aquelas árvores, aqueles bambus, destinavam-se a uma remansosa estação de recreio (...) Os anos as fizeram ver a mais triste moléstia da humanidade, aquela que nos faz outro, aquela que parece querer mostrar que não somos verdadeiramente nada, nos aniquilando na nossa força fundamental."

Excelente livro duplo do Lima Barreto, sendo em parte o seu diário de estadia no hospício da Praia Vermelha e em parte a obra (inacabada) que a experiência inspirou. Me agradou mais o primeiro, com seus relatos da doença do pai e do alcoolismo do autor, do seu orgulho intelectual e do arrependimento de não ter amado a mulher, que impressionam pela franqueza.

Se não dou nota mais alta é porque é incompleto e me deixa querendo mais, tanto da história de Vicente quanto da do próprio Lima, recluso e aborrecido num manicômio com vista pro Corcovado. Quatro estrelas.

Profile Image for Juliana Costa.
290 reviews10 followers
December 28, 2024
Eu não sabia nada sobre o autor e admito que a história pessoal dele me chama mais atenção do que a produção literária, mas essa leitura me ensinou muito e fez eu refletir sobre minha relação com a bebida, saúde mental, comportamento, hábitos, relação entre pessoas, produção ficcional... Enfim, parece que Lima Barreto conversou comigo, mesmo com séculos de distância.

Também fiquei agoniada imaginando aquele Hospício, em como colocavam todas as pessoas que "não se encaixam" num mesmo lugar, com condições mínimas e pouco dignas. O que me surpreendeu, talvez menos do que deveria, é que o papel de levar as pessoas para esse lugar era da polícia... acho que não mudou muita coisa.

Sinto que vou levar esse livro comigo por muito tempo.
Profile Image for Sergio Maduro.
231 reviews
Want to read
August 15, 2024
Esta edição tem um prefácio de Alfredo Bosi e reúne um texto memorialístico e um conto, que entrelaçam crítica literária, história e psiquiatria
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Rodolfo Borges.
252 reviews3 followers
February 2, 2025
O limite da lucidez permitido pelos intervalos da bebida para refletir sobre a loucura.
Profile Image for Micaela.
30 reviews
August 7, 2025
Um “diário” que nos retrata não só a vida de um hospício, mas mostra-nos indiretamente o que vai na alma de Lima Barreto.
Profile Image for Nayara.
4 reviews1 follower
January 9, 2026
devo ter lido esse livro umas quatro vezes. gosto muito dele
Profile Image for luisa.
18 reviews
January 20, 2025
amooo, meu livro nacional preferido. lima barreto é mt foda. orgulho demais!!
Profile Image for Alexandre.
66 reviews
March 15, 2025
Eis um retrato fiel do palco da loucura: o hospício! Hoje, esse lugar se chama “Internet": não menos cômico antes do que nos dias de hoje, assim como esse livro. Existe um Cemitério dos Vivos mais fidedigno do que a web, meus amigos?

— Não mesmo! Curiosamente, seus pacientes, nem sabe que estão internados, ou que precisam de tratamento... não contra a Internet, a Internet não é o mal; são todos os enfermos que a usam que compartilham sua própria doença com os demais: ...vil!

Os loucos desse livro não são nem metade tão loucos quanto eles aparentam, se forem comparados com as pessoas “sãs" que eu tenho que lidar na maioria dos dias...
Profile Image for Rubensespejo.
8 reviews
January 22, 2014
Comecei a ler este livro na Biblioteca Mário de Andrade(SP), era dia 07 de novembro!
Encantei-me e resolvi comprá-lo bêbado! Uma homenagem a Lima Barreto e a mim mesmo!


Estou entre mais de uma centena de homens, entre os quais passo como um estranho. Não será bem isso, pois vejo bem que são meus semelhantes. Eu passo e perpasso por eles como um ser vivente entre sombras - mas que sombras, que espíritos? (...)

Na Calmeil
Os primeiros dias [de 29.12.19 a 4.1.20]
Diário do Hospício
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