"Não há mistério nenhum."
Acreditem quer não é assim que começa este thriller misterioso que se desenrola na cidade de Edimburgo. Preparem-se porque "Uma Questão de Sangue" é surpreendente até à última página.
"Sangue espalhado pelo chão e pelas paredes. Sangue por todo o lado. Sangue com histórias por contar."
O Caso Port-Edgar tem inicio numa Terça-feira e termina após nove longos dias. Uma escola é o palco de um massacre. Um psicopata faz três vitimas e, em seguida, suicida-se. Um total de três mortos, o que nos deixa um sobrevivente.
O nome do assassino é-nos revelado logo no primeiro parágrafo do livro. Então onde reside o mistério? perguntam-me vocês. É por isso que "Uma Questão de Sangue" é tão especial. É um romance sobre a amizade, a traição, a família e o passado onde nos vemos envolvidos na procura pelos motivos de um acto atroz e, aparentemente, inexplicável.
Esta é uma história sobre um inspector chamado John Rebus. Este elemento das forças policiais, ao lado da sua colega e, acima de tudo, amiga, Siobhan Clarke, esforça-se para aplacar o medo real e asfixiante da sociedade pelos actos criminosos. Portanto, como devem imaginar, ambos contribuem para o bem-estar dos cidadãos da Escócia, ao contrário dos jornalistas. E não me julguem! As minhas conclusões baseiam-se no relato das personagens deste enredo fascinante, ao qual imediatamente me afeiçoei. O sentimento pela nobre - será? - profissão de jornalista é comum nesta obra. Mas dizem eles, um da espécie pelo menos, que são o quarto poder. Mas quem lhes dá credibilidade?
Bobby Hogan, o responsável por esta investigação, pede ajuda ao nosso herói para encontrar respostas para o trágico acontecimento. Rebus, incapacitado fisicamente, arrasta consigo Siobhan para desempenhar as tarefas mais redundantes como conduzir, abrir uma porta ou acender um cigarro. Afinal de contas, o homem não pode usar as suas mãos. Pelo menos é esta a explicação que dá à sua chefe, Gill Templer, que o mantém constantemente debaixo de olho e não o deixa escapar às tão necessárias, segundo ela pensa, repreensões.
A determinada altura "Rebus teve um pensamento terrível: os loucos tinham-se apoderado do asilo, os verdadeiros funcionários eram agora seus prisioneiros, daí o semblante vivo e corado de Billy. Ou isso, ou então andou a mexer no armário dos medicamentos."
Bem, a mim a segunda hipótese pareceu-me a mais plausível e julgo que irão concordar comigo durante a vossa experiência de leitura. E não é só o Billy que aparenta estar sob o efeito de estupefacientes. O humor deliciosamente contagiante das várias personagens torna-as igualmente suspeitas! Divertidas, sim, mas suspeitas de qualquer forma!
Os dois investigadores vêem o seu trabalho dificultado pelos repetitivos confrontos com um membro do parlamento escocês que foi detido numa rusga habitual a um antro de prostituição, com um duo infernal que trabalha para o exército e com um parasita que trabalha como jornalista e insiste obter informações em primeira mão.
"Ele não achava que fosse um vilão, mas também sabia que provavelmente não era um dos bonzinhos." Para mim, esta é a frase que melhor descreve John Rebus, ao mesmo tempo que nos oferece uma ante-visão da qualidade de todo o enredo. Ian Rankin criou um herói de carne e osso, um inspector com uma personalidade real e comportamento e atitudes verdadeiros. Com todos os seus defeitos e virtudes Rebus é um ser humano como todos nós. Longe de ser perfeito, o inspector esconde os seus segredos mais obscuros. Não o fazemos todos?
A normalidade desta narrativa, uma condição aparentemente simples de conferir ao enredo, proporciona-nos uma linha de investigação e mistério que poderiam, sem dúvida alguma, desenrolar-se no mundo real.
Se ficarem com vontade de ler este thriller impressionantemente bem escrito pelo escritor escocês Ian Rankin, não me culpem. Usando as palavras do autor, proferidas por uma das suas magnificamente bem delineadas personagens "só vos posso pedir desculpa e usar em minha defesa o facto de ser de carne e osso."