É um pequeno milagre, esta claridade. Os telhados acendem-se como fornalhas, permanece vermelha uma parte do céu. A noite, se existiu, foi para nós um erro de perspectiva, uma ilusão, um ardil de sombras e estrelas perdidas no escuro.
Agora é de um azul sem mácula, o céu; a cidade, um corpo branco a levantar-se; e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um pequeno milagre, mas uma evidência.
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sturnus vulgaris
Estorninhos. Um bando deles no céu de Lisboa - forma informe contra a luz exígua do crepúsculo. Eu vejo-os no seu voo colectivo, como um corpo que dança e se agita, etéreo. Abro a janela, ponho a cabeça de fora, pasmo diante da beleza. Atrás de mim, alguém buzina. Estou no meio de um engarrafamento, a olhar para os estorninhos, imaginando um poema em que cada verso seria como cada um daqueles pássaros, uma nuvem de pontos escuros a pairar, com a cidade por baixo.