Uma vida contada através das treze casas a que Leonor Xavier chamou suas. O tema é tanto mais interessante quanto a autora viveu nessas casas experiências marcantes, não só para ela, mas para toda uma geração. Oriunda de uma família da média-alta burguesia, casada cedo com um jurista brilhante, com três filhos pequenos, passa do ambiente protegido de uma família tradicional numa casa da Lapa, para São Paulo, no Brasil, quando, em 1975, ela e o marido decidem começar uma nova vida fora de Portugal. A experiência - que foi certamente vivida por muitos portugueses que abandonaram Portugal nos anos 70 - é muito bem narrada no livro. Tudo é novo: a situação precária em que chegam, os trabalhos ocasionais, a nova escola dos filhos, a empregada brasileira, a solidariedade dos amigos que conhecem no Brasil, a língua diferente, os costumes muito mais livres. Mais tarde, o regresso a Portugal, a adaptação ao país diferente que vem encontrar, o recomeçar de novo,integrando na sua nova vida o espírito optimista, sem preconceitos e convivial que foi talvez, para além dos muitos amigos, o que de melhor lhe ficou da experiência brasileira.
Numa escrita colorida e muito pessoal, Leonor Xavier dá-nos o retrato de dois mundos muito diversos que ela conseguiu conciliar como ninguém.
LEONOR XAVIER nasceu em 1943. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1975 foi para o Brasil acompanhando o marido, convidado a leccionar na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, após ter sido saneado, no pós-25 de Abril de 1974, da Faculdade de Direito de Lisboa. Viveu depois no Rio de Janeiro, onde foi correspondente do Diário de Notícias. Regressou em 1987 a Portugal, onde foi redactora da revista Máxima. Tem colaborado com vários periódicos salientando-se, entre outros, o Jornal do Brasil, o Mundo Português, o Diário de Lisboa, e as revistas Mulher, Dez de Junho e Sábado.
A biografia de Leonor Xavier contada por ela própria. Adorei ler, conhecer a vida de alguém que nasceu nos anos 40 em Lisboa e a sua transformaçao pessoal. Como as coisas eram antigamente, tao diferentes da minha avó que nasceu numa aldeia e fez só a quarta classe. Como foi a sua experiência a viver no Brasil pós 25 de Abril e como isso a mudou. Como voltou a Portugal e como era uma pessoa totalmente distinta. O meu tipo de livro!
Gostei muito de ler esta autobiografia, escrita de forma muito elegante, clara e profunda. O relato de Leonor Xavier permite-nos ficar a conhecer mais, não apenas sobre a sua história de vida, mas também sobre marcantes episódios da história recente de Portugal. As suas detalhadas descrições abrem-nos as portas para o estilo de vida, os hábitos, os costumes e os valores de uma família de classe média-alta de Lisboa, no pré-25 de Abril. Mais tarde, conta-nos na primeira pessoa a experiência daqueles que emigraram para o Brasil após a revolução, os diferentes grupos que aí se formaram e como foram ou não capazes de se adaptar a uma nova realidade. Um tema muito interessante e pouco explorado. Ao longo deste livro vai sendo feita, a espaços, uma interessante reflexão sobre aquelas que são as principais diferenças entre os portugueses e os brasileiros. Diferenças na maneira de estar, de encarar a vida, de se relacionar com os outros. Gostei do facto de ser também um livro auto-reflexivo sem se tornar, contudo, demasiado abstracto. As reflexões surgem e são enquadradas na sequência de pequenos episódios de vida da autora, de conversas que nos vai relatando. Todas estas dimensões se conjugam de forma harmoniosa neste relato.
Interesse/comoção: 3 Escrita e estrutura: 3 Aprendizagem: 4
Gosto da ideia de encadear as memórias através da sequência de casas em que a autora habitou. Houve momentos em que tive muita inveja do seu estilo de vida, da educação, das viagens, do hedonismo, de todas as personalidades com quem conviveu... No entanto, nota-se que lhe faltou, ao longo da vida, uma certa clarividência que só alcançou mais tardiamente, com a maturidade. Foi uma vida muito cheia, que tinha de ser passada ao papel. E ainda bem que ela o fez. Só não gostei que certas passagens fossem uma enumeração de lugares, eventos, nomes - páginas mais maçadoras e despersonalizadas. Também acho que o livro teria ficado enriquecido com fotografias, sobretudo as que são descritas para assinalar alguns momentos-chave.