Autópsia de Um Mar de Ruínas, romance singular pela dupla perspectiva da guerra colonial que nos apresenta, comporta duas narrativas paralelas: uma centrada na acção dos militares portugueses no Norte de Angola, outra num quotidiano de medo e miséria, na revolta silenciosa e fria, na vitimização de duas sanzalas. Eis, pois, um romance construído sobre duas linguagens, dois pontos de vista, duas razões sociais, duas histórias dentro da História contemporânea do colonialismo e da guerra - a realidade adversa de dois universos humanos em situação de emergência. Se o assunto e a narrativa alternam ao longo do romance, é contudo na dupla linguagem do autor que se centra a diferença desses dois mundos em guerra, sob a vertigem do mal e através da criação de vozes e de narradores distintos, no fulgor de uma escrita literária em sintonia com a experiência do vivido. Este foi o mundo que o autor conheceu em Angola, ao longo de mais de dois anos de comissão, como enfermeiro militar, entre centenas de homens, mulheres e crianças, por conta das suas dores de alma, das suas doenças, dos males de viver e morrer numa emboscada, em hora de combate, na explosão das minas, num acidente com arma de fogo ou numa flagelação à distância.
Nasceu na ilha de São Miguel (Açores) em 1949, onde completou a instrução primária, após o que prosseguiu os seus estudos no continente. Em 1967 passou a residir e a trabalhar em Lisboa. Depois de participar na guerra colonial em Angola entre 1971 e 1974 (tema de duas das suas obras mais significativas, a antologia “Os Anos da Guerra” e o romance “Autópsia de Um Mar de Ruínas”), trabalhou na vida sindical, foi editor de autores portugueses e crítico literário. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pela qual veio a licenciar-se em 1981 com o curso de Filologia Românica. Professor dos ensinos secundário e superior durante vários anos, foi convidado pelo governo português para o cargo de conselheiro cultural junto da embaixada de Portugal em Espanha (que desempenhou durante 9 anos, entre 2001 e 2010). Em 2003, em Madrid, criou a “Mostra Portuguesa” (de que realizou 7 edições), sendo o maior evento cultural português fora de fronteiras. Tem traduzidos para espanhol os seguintes livros da sua autoria: “Gente feliz con lágrimas”, “Antología del cuento portugués” (Alfaguara), “Cronica del principio y del agua y otros relatos”, “Mi mundo no es de este reino”, “Mar de Madrid” e “Autopsia de un mar de ruinas” (Linteo Ediciones).
“Autópsia de um Mar de Ruínas”, de João de Melo, é porventura um dos melhores livros sobre a guerra colonial já publicados e seguramente aquele, dentre eles, o que mais implicou com a minha maneira de viver e sentir essa guerra que também eu vivi… João de Melo foi enfermeiro militar no norte de Angola e contactou com duas realidades distintas, mas interligadas – a situação militar propriamente dita, que ele descreve, em certas alturas com uma tão forte descrição, que me chegou a perturbar intensamente, mas ao mesmo tempo a fascinar… Todos já pensámos na morte, decerto, e lá, naquela situação, esses pensamentos agudizam-se, mas assim, com esta intensidade e promenorização, nunca me tinha passado pela cabeça. Eu que experimentei dois cenários dessa guerra – 4 meses na Guiné Bissau e mais de 2 anos em Moçambique, no Niassa, tenho que confessar, que apesar de todos os problemas que lá tive, mormente como capitão miliciano, fui um felizardo, pois o Niassa estava nessa altura, já algo pacificado. A outra realidade, descrita no livro, é o dia a dia de uma sanzala, agregada ao aquartelamento e a visão dessa mesma guerra, de um “outro lado”, não menos terrível do que o das nossas tropas. Estas duas realidades estão de tal forma bem escritas que me fazem mesmo crer que este livro, apesar da sua espeficidade, é um dos grandes livros escritos neste Portugal contemporâneo. Uma obra prima, que recomendo vivamente, mas que dificilmente poderá ser aguentado por pessoas com um espírito fraco, de aceitação da crueza das coisas.
Absolutamente fascinada com a escrita de João de Melo. A escolha do livro não é para todos, devo dizer. Se já leram obras sobre a guerra colonial como os livros do Lobo Antunes, podem imaginar que os temas tratados não são nada fáceis de abordar. Mas João de Melo fá-lo de forma diferente: Torna o relato bidimensional, dando voz a diferentes personagens enquanto narradoras participantes. O registo narrativo varia consoante se se está do lado dos jovens soldados e furrieis, inconformados com o seu destino, ora do lado das sanzalas, onde os africanos contam a história da sua perspectiva, na sua oralidade característica. A linguagem adapta-se e parece que estamos a acompanhar tudo o que se passa entre a aldeia e o quartel. O mais difícil e fascinante neste livro é que conta histórias brutalmente macabras de modo poético, com uma escolha de palavras excecional.
Mas são 350 páginas de muito disto, de muitas mortes, de muita violência, de muito confronto com o que de pior tem o homem (português, sobretudo). É penoso aguentar tudo sem que o autor nos dê um pouco de esperança. Talvez o não tenha feito porque João de Melo bem se deve lembrar de Calambata como o local mais desesperado à face da terra. Afinal, usou-se a si mesmo como personagem secundária, mas baseada na sua própria experiência como furriel enfermeiro, no livro, o homem que carrega com o peso do mundo às costas.
"Digo-te que em tudo existe o tempo próprio, o luar, as horas mornas e ardentes, as ausências, os regressos, os amores tão derradeiros quanto impossíveis. Existem para que alguém os possa cantar. Esse canto ausente és tu, amor, e só a ti o confesso e digo. Escrevo-o de mim para mim, por entre o abandono e o desamparo de um sentimento de amor por ti. Porque o meu amor será sempre assim - maior do que a vida que me deres a mim."
Esta é uma obra incontornável sobre a guerra colonial. É um relato emocionado e fortíssimo sobre o que foram, para os militares portugueses e para o povo angolano, os duros tempos de uma guerra que uns se viram obrigados a fazer e os outros obrigados a viver. João de Melo conheceu de perto o que de forma tão dura relata nesta autópsia de um mar em ruínas. Cumpriu o serviço militar em angola, em Calambata uma zona do interior, experiência essa que por certo serviu para que este seja um livro de cortar a respiração de tão realista, de tão sujo, de tão duro e feio, de tão vergonhosamente real e genuíno. Aliada a esta dureza, está a escrita poética de João de Melo que nos permite afastar um pouco do que é descrito.
"Autópsia de um Mar em Ruínas" é contado a muitas vozes, mas duas destacam-se claramente, a do alferes Renato e a da negra Natália, uma das muitas mulheres que vivem na Sanzala da Paz. A história é, portanto contada sob dois pontos de vista que, ao contrário do que poderíamos achar, são muito mais coincidente que divergentes. Do lado dos militares portugueses conhecemos homens de olhar perdido, de corpos exaustos, afectados física e psicologicamente pelo que já viveram na guerra, pelos companheiros mortos e pela certeza de que a sua hora não tardará a chegar. Não compreendem a guerra, não a querem fazer, não querem matar ninguém, só não querem morrer sem poderem abraçar uma última vez as namoradas, as mulheres, os filhos ou os pais. Acreditam que a forma mais rápida de acabar com a guerra é a apatia, é miná-la por dentro. Afinal não existe guerra se ninguém estiver disposto a combater. Na messe do quartel de Calambata mantinha-se a seguinte frase escrita numa das paredes:
É PROIBIDO DIZER QUE HÁ GUERRA.
Em Calambata os militares seguem convictamente esta máxima, vivem os dias em contagem decrescente para o fim da comissão em Angola, passando os dias a beber, a jogar às cartas, ou a pensar nas namoradas que deixaram em Portugal. Até que uma emboscada os põe frente a frente com os horrores de uma guerra que ainda não tinham conhecido e a partir desse dia nada mais pode voltar a ser o que era.
Do lado dos negros, que vivem na sanzala da paz, assistimos à miséria a que estavam sujeitos. Deslocados da sua terra natal, viviam como prisioneiros, trabalhando praticamente de graça os colonos da região. Tratados como animais e brutalizados pelos brancos, são homens e mulheres resignados à miséria, sem força ou armas para lutar. Desejam secretamente que os seus patrícios na mata acabem de vez com a presença dos brancos em Angola. As crianças são a única referência positiva naquele lugar. Mesmo mal-nutridas, são inúmeras as vezes que se referem as barrigas arredondadas com o umbigo pontiagudo destes meninos (curiosamente não falam das meninas, apenas dos meninos), é nas crianças que surge o sorriso da esperança, da alegria de viver. As mulheres surgem como o pilar da pequena comunidade, desesperadas pela resignação dos maridos que gastam tudo em bebida, todos eles precocemente envelhecidos e derrotados. Quando João de Melo refere os maus-tratos por parte dos brancos, estes quase nunca envolviam os militares, que desempenhavam, neste caso, um papel mais neutro. Convém também referir que os colonos da região não aceitavam muito bem a presença militar na zona. Diziam-se capazes de dar caça aos "turras" e ensinar-lhes uma lição que os ia colocar nos seus devidos lugares e terminarem com o conflito num piscar de olhos.
Na mata escondem-se autênticos fantasmas, um pesadelo para os militares portugueses, incapazes de se protegerem de um inimigo que simplesmente não conseguiam vislumbrar. Expostos às inúmeras emboscadas, os militares faziam o melhor que sabiam para sobreviver, para adiar o dia em que iriam morrer. As descrições dos ataques é tremenda, no sentido em que, por diversas vezes, quis fechar os olhos e não ler... Tamanha violência e irracionalidade é muito difícil de conceber para quem, felizmente, nunca a sentiu de perto, mas julgo que o relato de João de Melo nos consegue fazer chegar bem perto. O mesmo se aplica à violência física sobre os negros, essa sim, completamente irracional e arbitrária, que me fez sentir vergonha. Como é que sentimentos destes se continuam a perpetuar pelas gerações mais novas?
É um livro imenso, imensamente triste, violento, real e um documento que não pode nunca ser esquecido. Este é daqueles que deveria ter lugar no "Cemitério dos Livros Esquecidos" de Carlos Ruiz Zafón. :) Todos nós sabemos o final desta história. O que gostaria de frisar é que "Autópsia de um Mar de Ruínas" não só mais um livro sobre a guerra colonial, é muito mais do que isso. João de Melo é sem dúvida um escritor extraordinário com uma enorme capacidade de expor as emoções e deixar-nos, como leitores, completamente desprotegidos.
Recomendo sem qualquer hesitação! Mesmo os mais sensíveis deveriam fazer um esforço... :)
"Che cos'è un uomo, Renato?- chiede Semedo, al mio fianco, senza poter vedere nulla davanti a sé. -Per te, cos'è un uomo? Che cavolo, cos'è un uomo? Per la prima volta nella vita non lo so più, perchè c'è un precipizio senza fondo nei miei sentimenti. Per te, cos'è un uomo, Renato? Un precipizio che, se possibile, è un richiamo non ascoltato, il fischiare delle pallottole vicino alle orecchie e la certezza che nulla, a partire da ora, può garantire la mia esistenza".
Melo è uno scrittore e saggista portoghese che qui fa un ritratto violento, crudele, vero della terribile guerra coloniale tra Angola e Portogallo alla quale lui stesso ha preso parte tra il 1971 e il 1974. Si tratta di un romanzo che ha per questo un grande valore documentale, come l'autore stesso fa capire nella dedica che apre il libro: "Alla memoria di coloro che sono morti a Calambata", luogo in cui si svolge l'azione e nel quale Melo stesso aveva prestato servizio come furiere infermiere nell'esercito portoghese. La particolarità del romanzo è nel fatto di presentare due punti di vista: quello dei soldati portoghesi nella caserma a Calambata e quello degli angolani, in particolare della comunità della sanzala (villaggio) di Calambata, costretti quindi a vivere a stretto contatto con i militari europei. Melo narra con grande lucidità e schiettezza la difficile vita degli angolani schiacciati dalla brutalità delle forze dell'ordine portoghesi rappresentate soprattutto dal personaggio di Valentim, un uomo crudele che vigila sulla sanzala a suon di frustate e violenze e umiliati continuamente dai soldati con i quali sono costretti a convivere ogni giorno, ma allo stesso tempo offre al lettore anche un ritratto veritiero dei soldati portoghesi che si scoprono, attraverso le parole di Renato che è una delle voci narranti del romanzo, giovani catapultati in una guerra insensata, obbligati a uccidere o ad essere uccisi in nome di una Patria esaltata dai discorsi esagerati e ridicoli dei grandi burocrati e schiacciati da una costante e opprimente paura della morte. Uno degli aspetti più interessanti del libro è infatti proprio la volontà di Melo di far capire, al di là delle azioni militari, delle uccisioni, il lato più umano, più fragile dei soldati concepiti solo come macchine da guerra svelandoci invece le loro fragilità, le paure, i pensieri più intimi, i desideri più inconfessabili. Renato e gli altri soldati alla fine sono vittime di questa guerra come lo sono gli angolani (seppure da una prospettiva diversa ovviamente) e alcune delle pagine più belle, commoventi e struggenti in assoluto sono quelle dedicate alle lettere d'amore che Renato in uno dei momenti più tragici della sua vita scrive alla sua amata Maria Adelaide, figura salvifica al cui ricordo il giovane si abbandona completamente cercando un conforto e una dolcezza che da troppo tempo non conosce più. Dei capitoli dedicati agli angolani è straziante l'immagine di bambini malnutriti, costretti ad elemosinare gli avanzi della razione di cibo dei soldati della caserma e che, nonostante tutto, rappresentano il futuro di questa comunità in cui più degli uomini, ridotti a fantasmi dediti ad alcool e tabacco, spiccano le donne, vero pilastro della sanzala, che nascondono la loro disperazione dietro l'odio, il rancore verso il bianchi che hanno sconvolto la loro vita e che diventa la fonte della loro vitalità e ossigeno per i loro cuori oppressi e sofferenti. Tra le donne sicuramente risalta il personaggio di Natalia che per il suo statuto di donna nera e narratrice ha un ruolo fondamentale nella vicenda, è lei che simboleggia la possibilità di lottare ancora per la propria dignità, per la speranza della libertà, è lei che spingerà le altre donne a ribellarsi, è lei che nella sua rabbia silenziosa resiste ai soprusi dei soldati, è lei che apre a tutti gli occhi sulla falsità e ipocrisia degli europei, è lei che a denti stretti non si arrende mai. Credo sia una dei libri più crudi e feroci che abbia mai letto, si sente forte l'esperienza diretta e il dolore dello scrittore che mette tanto di sè in questa storia, a cominciare dal personaggio del furiere infermiere che è una sorta di suo alter ego, è un romanzo che fa male perchè tutto ciò che narra non è purtroppo frutto di un'invenzione, è solo uno stralcio di una guerra assurda e sanguinaria che i giovani portoghesi furono costretti a combattere per volontà di un regime cieco e tirannico e gli angolani a vivere. Mi ha sorpreso moltissimo la scrittura di Melo che risulta poetica, ricchissima di metafore e immagini estremamente evocative ed è stato interessante il contrasto con le immagini tragiche dei combattimenti, delle imboscate, delle violenze, della disumanizzazione causata dalla guerra, anche se devo ammettere che in più punti la penna di Melo si faceva troppo ardita e un po' pretenziosa, tanto da farmi perdere il filo del discorso, infatti sento che lo avrei apprezzato ancora di più con una scrittura un po' meno complessa in alcuni passaggi. Di sicuro un libro che va letto con attenzione, essendo preparati a pagine che colpiscono come coltellate e a una ferocia difficile da concepire per chi, come noi, per fortuna la guerra l'ha letta solo tra le pagine di un libro. Consiglio a tutti coloro che ne vogliono sapere di più di questa pagina di storia di cui non si parla poi molto.
"É proprio quello che scrivo adesso, seduto nella notte. Nel luogo dove sono, amore. Di fronte alle colline che circondano Calambata, accerchiata dalla guerra del Nord. Mentre penso, amore, che ho dentro di me un morto che non muore".
João de Melo, que combateu em Angola durante a Guerra Colonial, utiliza as suas memórias desse tempo difícil para criar um romance que nos fala não só do dia-a-dia dos combatentes portugueses, mas também da miséria dos negros nas sanzalas. O autor oferece-nos uma dupla perspetiva dos acontecimentos. Por um lado, transmite-nos o ambiente de tédio nos quartéis, o medo nas missões de campo, a desconfiança e desprezo pelos nativos. Por outro lado, temos a vida dura nas sanzalas, a fome constante e a exploração.
O tema é interessante, não há dúvidas, mas não consegui apreciar a escrita. Demasiado rebuscada, com exageradas metáforas e adjetivos, como se o autor quisesse tornar “bonito” um tema duro. A “objetividade” seria melhor, pois é isso que esperamos de um livro de guerra. Também achei as personagens mal construídas – não me provocaram qualquer sentimento de empatia ou de repulsa. E havia situações com potencial para despertar estes sentimentos mas, no final… nada!
A guerra. No contexto colonial e numa narrativa alternada entre um soldado colocado no Norte de Angola e os habitantes da sanzala local. Tem partes maravilhosas. Por vezes lembra o "Apocalypse Now" (Francis Ford Coppola). A reler / impressionante o cap. 11.