Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus nasceu em Dezembro de 37 d.C. e foi imperador do Império Romano durante 14 anos, tendo sucedido ao seu tio Cláudio aquando da sua morte por envenenamento.
Figura controversa, até pela forma como subiu ao poder, está associada a inúmeras acções de uma barbaridade extrema a fim de satisfazer o seu enorme ego. A ele é atribuída a ordem de assassinato da sua mãe, a famosa Agripina, ela própria implacável e a principal responsável da subida de Nero ao poder. A sua primeira esposa, Cláudia Octávia, filha do imperador Cláudio, também ela assassinada, assim como o irmão desta, Britânico, também estão associados a Nero, assim como a sua segunda esposa, Popeia Sabina, esta morta a pontapé pelo próprio Nero. O devastador incêndio que deflagrou em Roma durante três dias ou a brutal perseguição aos cristãos que serviam de entretenimento nas arenas e tantos outros eventos terríveis que deixaram para a História uma imagem de crueldade e tirania.
Em todo o caso, a questão que poderemos colocar é: foi realmente assim? Deve-se a Nero todas essas acusações, esteve de facto Nero por detrás desses horríveis actos?
Este livro, de uma forma muito cuidada e coerente, responde a todas essas questões.
Confesso que a História de Roma sempre me aborreceu. Nunca fui um grande entusiasta desse magnífico império. Já li muito sobre o império romano e, embora admita o meu fascínio pelo seu legado, as suas intrincadas teias e influências políticas sempre me aborreceram, sobretudo os obscuros jogos políticos e de interesses que o Senado mantinha, das conspirações e demais excessos.
Esta obra não escapa a essa teia.
Agripina toma desde o início a preponderância que a História lhe atribui. É ela a principal protagonista a desbastar o caminho da subida ao poder do seu jovem filho Nero.
A história é-nos narrada por um irmão de Lúcio Séneca, célebre pensador e filósofo romano que foi o tutor de Nero.
É através das suas memórias que o trama de Nero se vai desenrolando e o autor, de facto, faz um trabalho notável de pesquisa e posterior escrita romanceada da época e dos acontecimentos.
Não esquecendo que se trata de ficção, Cronin, não descura o mínimo pormenor.
Desde a infância de Nero até à sua morte, toda a vida de Nero é aqui escalpelizada, não se omitindo nenhum facto. No entanto o autor não se limita a narrar o que a História refere. Ele, à luz da mentalidade e do contexto da época, emprega uma congruência que me surpreendeu e que dá ao texto verosimilhança que nos transporta e faz crer que Nero agiu daquela forma e não, se calhar, como a História apregoa.
Exemplo disso é os acontecimentos que dão origem ao incêndio de Roma. Durante muito tempo a História defendeu ser o mesmo da responsabilidade de Nero, depois que Nero tocava harpa enquanto observava a devastação da cidade. No entanto, provavelmente, não foi bem assim. E porquê? Simplesmente porque Nero agiu antes e posteriormente de determinada forma, o que impede que ele tivesse procedido de forma insana que a História refere.
Em suma, um livro algo denso devido à imensa informação nele contida, que nos mostra um Nero algo diferente daquele que a História apregoa. De sublinhar a imensa importância e influência de alguns personagens na vida de Nero e o quanto ele foi responsável pelo futuro desse grande império que, nessa altura, já demonstrava muitos sinais de decadência.