Magnífico. Eça de Queirós, em "A Ilustre Casa de Ramires", faz um delicioso retrato do Portugal novecentista, decadente e submisso, ao descrever a vida, os sonhos, desejos e frustrações do último herdeiro - Gonçalo Mendes Ramires - duma das mais antigas, senão a mais antiga, Casas do Reíno - a Casa dos Ramires.
Eça desenvolve a narrativa tomando como mote, como fio condutor, o processo de amadurecimento do Fidalgo da Torre que, de jovem vaidoso, fútil, covarde e tremendamente inconstante nas suas deliberações, transforma-se, pouco a pouco, em pessoa respeitável, firme, consciente da tradição multimilenar que carrega em seu sangue e à qual deve prestar o devido tributo da honra.
A história desenvolve-se em dois planos, o plano da vida, pequena e desimportante, de Gonçalo Ramires, decadente representante duma fidalguia, duma nobreza da terra igualmente decadente, sem qualquer influência política e econômica, e, de outro lado, o plano da tradição, da rica história dos Ramires, bravos e altivos senhores feudais que, com sua bravura e inquebrantável senso de honra, edificaram o Reino em meio a batalhas e confrontos militares de todo o tipo.
O lance capital se dá quando Gonçalo, esmagado pelas constantes humilhações, pela fraqueza sua, física, moral e política, sonha com seus antepassados ilustres, recebendo destes, num gesto de amor e carinho pelo distante descendente, as armas com que conquistaram a imorredoura fama. Gonçalo, num momento de luminosa autoconsciência, se dá conta de que o grande mal de sua vida, a raiz de seus problemas é a vontade, a vontade fraca e inconstante, que faz com que seja, a todo o momento, arrastado pelas circunstâncias em torno. Logo no dia seguinte, no violento entrevero com o valentão de Nacejas, Ernesto de Nacejos, Gonçalo redescobre a força, o ímpeto, a bravura indômita, tanto tempo represada, de seus avós ilustres - e, meditando sobre ocorrido, pôde dizer, com indisfarçada satisfação, que "enfim era um homem!".
Romance de transformação, de conquista da maturidade que, em larga medida, se realiza na tomada de consciência duma antiquíssima tradição familiar de honra viril - Gonçalo transforma-se no que verdadeiramente é - senhor de terras sobranceiro, altivo e bondoso - quando aceita, de uma vez por todas, o legado heróico de seus antepassados ilustres que construíram "Torre mais velha que o reino, Torre de Santa Irenéia!".