Publicado em 1942, é com esta obra que Manuel da Fonseca revela o seu grande talento para o conto. Os contos foram escritos a partir do fim dos anos vinte e até ao fim da década de trinta.
MANUEL DA FONSECA nasceu em Santiago do Cacém, a 15 de Outubro de 1911. Tendo feito estudos secundários em Lisboa, deixou colaboração dispersa em revistas literárias (designadamente na Atlântico) e fez parte do grupo do "Novo Cancioneiro", com a publicação de Planície (1941). Poeta e ficcionista, estreou-se com o volume de poemas Rosa dos Ventos (1940), e os livros de contos Aldeia Nova (1942) e O Fogo e as Cinzas (1942). Entre os seus romances avultam Cerromaior (1943) e Seara do Vento (1958). Integrado de início na corrente neo-realista, enveredou depois por um regionalismo expresso simbolicamente através da vegetação castigada e das pessoas sem fortuna nem esperança. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1983. Faleceu em Lisboa, a 11 de Março de 1993.
"Cinco destes contos criei-os a partir de acontecimentos vividos por pessoas de minha família. Alguns a que assisti, outros que ouvi contar."
Serão, talvez, os contos em que há a mesma personagem (Rui), em várias idades desde menino até adulto. Todos são histórias tristes do povo alentejano numa época de pobreza; saiam de casa ainda noite e voltavam de noite, para trabalhar a terra que lhes dava o pão. Para além disso, só tinham o sonho de, um dia, ir por esse mundo fora procurar uma vida melhor.
Manuel da Fonseca conhecia o Alentejo, as suas gentes e as suas histórias. Não embelezou nenhuma delas; antes pelo contrário. Sentimos em cada momento que aquelas histórias só podem ter sido reais, em lugares e tempos reais, atravessados por personagens de carne e osso. Há marcas de uma autobiografia e ecos longínquos de um Dostoievski, de um Tolstoi (as imagens que se foram formando na minha cabeça foram muitas vezes as de filmes de Bela Tarr, sobretudo de «O cavalo de Turim»; aquela paisagem e aquele drama podiam ter tido lugar no interior do Alentejo). E, no entanto, é radicalmente diferente de qualquer um deles. De um tema considerado «menor» (o espaço rural de uma região tantas vezes desprezada) Manuel da Fonseca retirou o pitoresco e o anedótico: ficou a aridez da paisagem, a têmpera das gentes, o cante, o trabalho, a miséria. O Alentejo não é só isso, mas ali era isso. E aqui nenhum desses aspectos é lugar-comum onde se caia ingenuamente. Não há exagero, fantasia, eufemismo. Os fios que habilmente ligam os diferentes contos estão lá para marcar uma certa realidade, como se fôssemos reconhecendo velhos companheiros. Habituei-me, enquanto alentejano, a que a paisagem que conheço desde sempre e as suas histórias fossem tipificadas, remetidas para a caracterização burlesca, menorizadas perante olhares estrangeiros. Aqui não. Orgulhosamente não.
The short stories in the book “Aldeia Nova” are unhappy. The solitude and sadness of his characters set the tone for these stories. The feeling is that the region portrayed in the Alentejo has stood still in time and imprisons the souls of its residents. The only lucky ones are those individuals who migrated to other areas in Portugal or immigrated to any of the country’s foreign colonies.
"No terreiro, os homens cantam a desolação que vem de noite e lhes aperta o peito. Vozes arrastadas como o vento gemendo num pinhal. Choro, mágoa, raiva. Que a aldeia de Valgato é uma terra triste. Cercada de carrascais e sobreiros descamados. não tem searas em volta. Só a planície sem fim que se alarga para todo o resto do mundo."
Temos 12 pequenos contos que focam aspetos do quotidiano dos habitantes da vila Cerromaior e de outras pequenas aldeias alentejanas, dos anos trinta. São histórias simples, mas que retratam bem a realidade do povo que labuta de sol a sol, que vive com dificuldades, que parte à procura de emprego, que sofre, que morre, que vive de intrigas e de favores. A descrição do espaço envolvente é muito importante para a compreensão dos acontecimentos. Verifica-se que há uma sequência cronológica porque algumas personagens são recorrentes. É o caso de Rui Parral que aparece como criança, mais tarde como estudante universitário e ainda como adulto. Foi bom voltar a Manuel da Fonseca, excelente escritor que marcou uma época e que considero um pouco esquecido na nossa literatura.
Honestamente, pensei que fosse gostar menos do que gostei.
Embora seja um conjunto de peripécias desconexas, acaba por contar a história da família Parral, bem como doutros personagens dos quais Manuel da Fonseca se usa para dar cor ao quadro da aldeia que a dita família habita.
Peripécias fatídicas e bucólicas contadas numa narrativa simples mas cheia de significado, que apenas pecam pela falta de fluidez entre elas. Julgo que as teria apreciado mais se o autor tivesse assumido a estrutura de um romance (já que teria perfeito potencial para isso), em vez de se ter ficado pela estrutura do conto.
"Ao findar do dia, comida a última côdea, ganhões e malteses para ali ficam longo tempo, adormecendo à custa de histórias e descantes. Por trilhos de carros, subindo o cabeço onde se ergue o monte, ainda a essa hora, de sábado para domingo, vem gente para o paleio, que dura até tarde. Mas, com as sombras alastrando, por todo o descampado, alastra a solidão que não tem eco para histórias e depressa puxa cantigas, tristes e largas como a noite alentejana."
Aldeia Nova [1984] de Manuel da Fonseca. Este é um livro sobre 12 contos. Muito comum essas histórias tristes que eram contadas em Portugal antigamente e o primeiro livro que leio em português desde 2014. Não gostei muito das histórias desse livro, pois me deixaram triste.
Gostei principalmente pela coerência interna que não esperava encontrar num livro de contos. Para além do tema e ambiente serem sempre mais ou menos os mesmos: Cerromaior, ou pelo menos Alentejo; os contos são recorrentes, ou seja, são quase episódios, onde reaparece a mesma personagem por várias vezes em diferentes momentos da sua vida: Rui, neto do lavrador do parral. Quando se espera 12 histórias dispersas, desunidas, vemos que há ali um fio condutor que as une e interliga. Não se trata de uma coletânea de contos, mas de um livro com estes 12 contos. Um a mais ou amenos, iria prejudicar. Contos são: Campaniça; O primeiro camarada que ficou no caminho (relato da morte sofrida do irmão de rui ainda criança - muito poderoso e impressionante); o ódio das vilas; Sete-Estrelo; névoa; A torre da Má Hora; a visita; viagem; mestre finezas; aldeia nova; maria Altinha; Nortada (resumo da vida de Rui e da sua família de que é o último descendente).