Para já, tiro do peito aquilo que não quero que ensombre o valor deste livro: a edição tem grandes, graves, e ridículos problemas (da inteira responsabilidade da tradutora, e agravados pela inexistência de um revisor), cujos principais exemplos são, só para mencionar os que provocam pesadelos, a utilização de expressões como "ir de encontro" [à linha do horizonte]; a acentuação aguda ("ás") para a contração da preposição com o artigo definido; ou a embaraçosa ausência de pronomes pessoais átonos ("ouvi ela contar"; "deixou ele revirar").
Agora que isto ficou para trás, Um Mundo de Estranhos merece toda a nossa atenção - e vale muito a pena dispensar-lha.
"Odeio o rosto dos camponeses.(...)Rostos cansados, indulgentes e rudes, nos quais a emoção perpassa fugazmente, vinda do exterior, como uma mosca no focinho dum boi, e desaparece quando a mosca é afastada por um estremeção involuntário que não é mais consciente que a reacção de um músculo. Em Inglaterra odiava os seus rostos nos campos. vermelhos e sorrindo para nada. A única diferença destes, que estavam entre os caixotes no cais, era o brilho negro do suor em vez do tom vermelho, e os olhos castanhos injectados e não daquele azul inexpressivo, que, com propriedade, é a cor do vazio, do espaço."
Um Mundo De Estranhos não é, de todo, uma obra pacífica, mas é uma obra muito honesta na qual Nadine Gordimer não empola as situações, mas antes as apresenta com a normalidade com que, em regime de apartheid, as pessoas se acostumaram a encarar a realidade xenófoba.
"Disse cuidadosamente, porque o sentia com sinceridade, tal como o dissera a Sam por delicadeza, que esperava voltar de novo a vê-lo. Mas ele respondeu:
- Está bem. Quando?
- Podíamos talvez almoçar sexta-feira?
Ele riu-se de mim calmamente.
- Mas onde é que podemos almoçar juntos? Nem tinha pensado nisso, ele não podia entrar em nenhum restaurante ou café da cidade."
A Joanesburgo de Nadine Gordimer é uma cidade profundamente fraturada pelo regime de apartheid, resultando essa divisão num cenário em que dois mundos (o dos europeus e o dos nativos) ao invés de se confrontarem abertamente, mais se evitam, se ignoram com todas as forças, onde uns se submetem a, e outros exercem uma força milenar que não ousam pronunciar
"(...)tudo o que aqui se refere à vida citadina [está] ligado a outro mundo: as peças de teatro são as peças da Europa, as piadas de cabaré são de Londres ou de Nova Iorque... Percebe o que quero dizer? Joanesburgo parece não ter um estilo próprio... É o que as pessoas sentem. Em parte. Mas agora penso que há mais qualquer coisa. Solidão dum género especial. A nossa solidão. A falta de uma identidade humana comum. A solidão duma minoria poderosa."
Sendo a segregação racial um tema que percorre esta (e grande parte) da obra da autora é curioso notar como a questão é apenas aflorada pelos personagens que compõem a galeria deste livro.
Toby, um jovem inglês que se opõe às restrições sociais e legais, e aos valores morais europeus, embarca rumo à África do Sul, enquanto representante da editora Aden Parrot. Uma vez lá chegado, e vivendo em pleno contexto de apartheid, Toby não nos devolve a dimensão política exterior, mas apenas a sua visão pessoal do regime a partir dos relacionamento que estabelece com outros personagens que atuam como representantes das duas facções que se digladiam no terreno - posto de forma muito simples: os colonizadores e os colonizados.
"...um preto e um branco, mesmo sendo conhecidos, não tinham probabilidades de se encontrarem por acaso em Joanesburgo. As suas rotinas podiam desenrolar-se paralelamente durante a maior parte do tempo, mas era surpreendente como eram eficientes os sistemas que evitavam um encontro."
Nadine Gordimer domina sabiamente a arte do "não dito", e faz uso desse mecanismo para, através de uma série de encontros fortuitos, festas, bailes etc, permitir a Toby traçar um retrato da sociedade africana durante este período histórico ao mesmo tempo que o desenha como um homem também ele fragmentado entre a força da chamada "tradição" ocidental e as vivências pessoais que o forçam a encarar uma realidade diferente daquela em que foi educado e para a qual foi sendo tendencialmente formatado.
"(...) pertencíamos ao velho tecido social dum país antigo e os nossos ossos partilhavam com as suas pedras uma memória ancestral. Se não sabíamos o que éramos, sabíamos o que tinhamos sido e esta continuidade era inquebrável pelo trauma do nascimento de várias gerações numa nova civilização."
Com isto, a autora conseguiu criar um narrador muito próximo do europeu jovem e culto da atualidade, aquele que se debate entre os ensinamentos do currículo e a experiência em primeira mão; o que pretende viver no terreno a condição do outro em vez de prolongar a pantomina que observa em seu redor, embora sempre com receio de que esse pisar da linha origine a falência do papel que lhe permite o regresso à vida calma de todos os dias.
"Sabia que, se contasse a Cecil que os meus amigos mais íntimos em Joanesburgo eram negros e que eu comia com eles e dormia nas suas casas, a perderia. Era esse o cerne da questão."
Pelo meio, as questões que Gordimer coloca são variadas e ocupam bastante espaço nesta obra: o embate entre a esfera privada e o pública; o bem estar pessoal e o coletivo; o confronto interno e o externo.
"Cresci num mundo em que os fantasmas são as bombas e os horrores da radiação atómica: em pessoas como eu há uma certa nostalgia da ameaça pessoal, palpável, dos ladrões e assassinos de carne e osso, esses fantasmas do passado, há muito ultrapassados no mal."
Ainda assim, a autora não é um Nobel consensual pois as suas obras têm uma cadência pouco usual e expressam atitudes fortes e politicamente incorretas - e, quando a tendência é a de ler (erradamente) o/a narrador/a como autor/a a coisa corre ainda menos bem -, mas a sua capacidade de captar a realidade fragmentada do meio em que vive - através do quotidiano banal -, é uma arte absoluta.
"(...)não me tinha eu, por razões minhas, sentido um estranho, sem compromissos, no meu próprio mundo em Inglaterra: e não era essa a razão por que acabara por me sentir curiosamente bem neste país africano, um estranho entre pessoas que eram estranhas entre si?"
Nadine Gordimer coloca muitas vezes o dedo na ferida ao longo do livro (isso mesmo justificou que a sua obra fosse banida no seu país), abana o leitor sentado em total conforto na distância segura de x anos de um regime que hoje não ficaria bem apoiar. Mas o leitor que se senta confortavelmente também sabe que os regimes mudam de nome, ganham novas roupagens, mas raramente se eclipsam totalmente deste mundo.
"Por um lado, havia o enorme grupo de brancos para quem a barreira da cor não era uma lei feita pelo homem, mas uma barreira real e eterna: pelo outro lado, as pessoas que, ou por consciência social ou (como eu) falta de paciência com as distinções restritivas que pessoalmente achavam sem sentido, se misturavam com pessoas de cor. Com todos os livros e artigos de jornal que se escreviam sobre a África do Sul era inevitável que a fraternização proibida se tornasse, de certo modo, uma moda e atraísse certos brancos que, doutro modo, nunca teriam vencido os seus preconceitos ou a indiferença pelas raças que viviam na periferia das suas vidas.(...)Começou a estar a moda (...) ter pelo menos um amigo africano, uma espécie de animal de estimação, cujo nome se podia citar como que por acaso:
-Ainda no outro dia em minha casa o Tom Kwasa me dizia..."
Por isso as injustiças (não limitadas à discriminação pela cor) continuam; os homens continuam mais diferentes do que iguais; mais divididos do que próximos, mais estranhos num mundo de estranhos do que qualquer outra coisa.
"Ele não olhava para mim nem para nada: e seu isolamento penetrou-me silenciosamente; tive consciência dele, mas devia ter existido todo o tempo enquanto nos comíamos, bebíamos, cantávamos e praguejávamos no acampamento. Ofereci-lhe um cigarro mas ele não o tirou do pacote: estendeu as mãos juntas em concha e eu tive de lhe deixar cair o cigarro nelas. A solidão uniu-se ao frio, um miasma do antigo continente: estávamos ao alcance das mãos um do outro, como duas pessoas lado a lado, mas inconscientes dessa proximidade, num nevoeiro muito cerrado."
No fim, e após reunidas todas as peças, a obra não tem um tom otimista, antes nos deixa com uma vaga, triste impressão de que vivemos numa aparente democracia onde continuamos a ser governados pela superstição, manipulados para permanecer ignorantes, ingénuos e egoístas.
"Agradou-me pensar que para ela Deus estava pura e simplesmente fora de moda: era melhor do que suspeitar, como me acontece a mim, de que Deus estava de novo na moda."