Se um de nós chegar a cem anos, a cento e dez, a cento e vinte, a cento e cinquenta, seria isto um bem ou um mal? Josué Montello responde à nossa curiosidade, com este surpreendente Largo do Desterro, cujo personagem central, o Major Ramiro Taborda, sobrevive a todos os seus contemporâneos, com o seu chapéu alto, a sua sobrecasaca e a sua bengala de castão de ouro, lúcido, de passo firme e cabeça erguida. Conheceu Dom João VI e o Presidente Vargas. Assistiu à Comuna, em Paris, e à Segunda Guerra Mundial. Andou de carruagem e de automóvel. Viu quando as mulheres ousadas só podiam mostrar a ponta dos pés e quando começaram a exibir-se com os primeiros biquínis. Ora a arregalar os olhos espantados, ora a contrair intrigadamente as pálpebras, tem ele a impressão, ou de que os seus semelhantes endoideceram, ou de que o doido é ele, e assim vive a sua experiência existencial com a sensação de que a morte o esqueceu.
Josué de Sousa Montello foi um jornalista, professor, teatrólogo e escritor brasileiro. Entre suas obras destacam-se Os tambores de São Luís, de 1965, a trilogia composta pelas novelas Duas vezes perdida, de 1966, e Glorinha, de 1977, e pelo romance Perto da meia-noite, de 1985. Trabalhou como diretor da Biblioteca Nacional e do Serviço Nacional de Teatro, escreveu para a revista Manchete e o Jornal do Brasil, além de trabalhar no governo do presidente Juscelino Kubitschek. Obras de Josué Montello foram traduzidas para o inglês, francês, espanhol, alemão e sueco. Algumas de suas novelas foram roteirizadas para o cinema; em 1976, Uma tarde, outra tarde recebeu o título de O amor aos 40; e, em 1978, O monstro, foi filmado como O monstro de Santa Teresa. Morreu em março de 2006, vítima de insuficiência cardíaca. Encontrava-se internado na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, há mais de um ano, para tratamento de problemas respiratórios. O corpo foi velado na Academia Brasileira de Letras e sepultado no fim da tarde no Cemitério São João Batista.
Josué Montello é uma das melhores descobertas que já fiz, o homem me impressiona a cada linha de seus livros e Largo do Desterro é, de certo, uma obra-prima
A palavra "desterro" possui três significados interessantes: solidão; local habitado por alguém que foi expulso (deportado); e lugar calmo ou inabitado.
Bem, o último significado certamente refere-se ao Largo do Desterro de fato, que, do início ao fim, é um local calmo e tranquilo (exceto em algumas situações), já os dois primeiros referem-se ao Major Ramiro Taborda.
O major, com 152 anos, enterrou dezenas de amigos, conhecidos e até amores, ou seja: ele praticamente mudou de cidade sem mudar-se, todo o mundo que por ele era conhecido foi alterado, morreu. Major Taborda viveu a época das sobrecasacas e dos ternos, viu a Comuna de Paris e a morte de Getúlio Vargas, teve sua casa iluminada por lamparinas e por lâmpadas. O personagem de Josué Montello foi degredado pelo tempo.
Diante de tais condições nenhum sentimento poderia ser maior que o da solidão. Quantas vezes não nos sentimos assim? Mesmo que não tenhamos um século e meio de vida não é raro que olhemos para amigos e familiares e pensemos: como tudo mudou tão rápido? Sempre identifiquei algo em mim: já morri várias vezes. Sim, toda vez que, como Hamlet, decidimos "ser ou não ser" algo, estamos matando parte de nós, mesmo que seja uma parte que ainda não se realizou e é isso que Montello explora em seu livro.
O sentimento de solidão é um fiel companheiro do homem e a morte, como nos mostra o major Taborda, pode ser nossa amiga.
Num período em que todos queremos viver mais e melhor, o protagonista da história, vivendo bastante mais do que o razoável e argumentando que Deus se esquecera dele, leva-nos a pensar o que seria de facto viver quando já não conhecemos ninguém e todas as nossas referências foram ultrapassadas por uma sociedade que já não compreendemos. Um livro qir me surpreendeu, descoberto numa feira ao acaso, que nos leva por alguns episódios da história do Brasil entre os sec. 19 e 20.