«- David? - Sim? - Viste? - Vi. - O que pensas? - Nada. - Deixa-te de rodeios. Fala abertamente. - Vi, sim. Sempre ouvi falar de histórias de feitiçaria, mas nada do que ouvi se compara com isto. Parece uma montagem de cinema, contos de fadas, coisas do maravilhoso e do fantástico. Diz-me que estive a sonhar, Lourenço, vá, diz-me, isto não pode ser real!» [...] A perplexidade de David vai-se tornando nossa, à medida que mergulhamos no mundo fantástico que Paulina Chiziane nos oferece. Um mundo de feitiços e tabus, de magia negra e fantasia, de sonhos e de pesadelos, de luz e de trevas. Um mundo de contrastes e contradições, em que as forças do bem e do mal travam uma luta contínua e titânica. Um mundo de destruição e corrupção, mas também um mundo a que os valores da tradição e a sabedoria de séculos emprestam uma inegável beleza. Um mundo inquietante, assustador, misterioso, em que a atracção pelo abismo é incontrolável e a realidade do dia-a-dia, tal como supomos conhecê-lo, é permanentemente questionada. Será que David esteve mesmo a sonhar?»
Paulina "Poulli" Chiziane (born 4 June 1955, Manjacaze, southern province of Gaza, Mozambique) is an author of novels and short stories in the Portuguese language. She studied at Eduardo Mondlane University, Maputo. She was born to a Protestant family that moved from Gaza to the capital Maputo (then Lourenço Marques) during the writer's early childhood. At home she spoke Chopi and Ronga. Chiziane was the first woman in Mozambique to publish a novel. Her writing has generated some polemical discussions about social issues, such as the practice of polygamy in the country. For example, her first novel, Balada do Amor ao Vento (1990), discusses polygamy in southern Mozambique during the colonial period. Related to her active involvement in the politics of Frelimo (Liberation Front of Mozambique), her narrative often reflects the social uneasiness of a country ravaged and divided by the war of liberation and the civil conflicts that followed independence. Her novel "Niketche: Uma História de Poligamia" won the José Craveirinha Prize in 2003.
Neste seu romance Chiziane conduz o leitor a uma questão cultural, particularmente intensa, na sociedade moçambicana: a feitiçaria.
Numa leitura mais atenta de alguns textos sobre a temática encontramos referências como esta, da investigadora Paula Meneses: “a feitiçaria é apresentada como o modo mais comum de alcançar sucesso, riqueza e prestígio em épocas de declínio económico e escassas oportunidades de promoção social. No espaço doméstico, os conflitos familiares e sociais cristalizam-se constantemente em torno de acusações de feitiçaria, sobretudo quando ocorrem mortes inexplicáveis ou desastres pessoais. Permeando todo o espectro social e cultural, a feitiçaria sobressai hoje como uma força ambivalente que ajuda a promover a acumulação individual e colectiva, actuando simultaneamente como mecanismo de controle das diferenças sociais.”
Além da feitiçaria, a autora concentra neste livro algumas das suas temáticas centrais como sejam as famílias e e as relações desiguais entre homens e mulheres. Assim a crítica aos sistemas patriarcais são uma marca da obra da autora. Neste caso a trama centrada num casal de classe alta em que a dicotomia se torna presente nas múltiplas “mulheres” da personagem masculina; e na presença matricial das mães como edificantes culturais e de resistência, diga-se particularmente interessantes.
Outro elemento interessante da obra esta relacionada como a “feitiçaria” como duplicidade: modo de ascensão social para o pai; ou como plano de vida para o filho que se transporta para o futuro como “adivinho” o que mostras a intensidade cultural deste conjunto de práticas.
Este foi o meu segundo livro de Pauline Chiziane. A sua escrita poética e carregada de oralidade encanta-me como leitor. Em termos narrativos esse livro é, por vezes, circular o que nos faz ter a sensação de dispersão na leitura. Ainda assim gostei muito!
(li de 05 a 10 de Agosto de 2022 no âmbito da iniciativa #eternasescritoras dinamizada pela Catarina Durão Machado)
Em enredo familiar que se entretece com os desígnios e rumares de uma sociedade libertada há não muito tempo do jugo colonialista, Chiziane expõe as repercussões dos ecos sociais que mantêm o pior dos vícios ostentados pelas potências colonizadoras, sempre perenes, perpetuando mecanismos milenares de opressão, designadamente a manutenção da miséria generalizada, e da mulher como ser inferior. Tudo o resto é enredo e simbologia lateral, numa discussão entre o que será uma autêntica libertação desse cerceio ontológico que foi a história recente de dominação por uma força que visou somente extrair riqueza e subjugar o povo, sempre em favor de um terceiro jamais interessado em construir uma sociedade igual, justa, e tolerante.
Un romanzo molto particolare dove la linea tra realtà e mito é sottilissima. Sciopero, insurrezioni e malcontento vengono messi a tacere grazie alla magia, che porterà David, il nostro protagonista, alla più completa e profonda perdizione.
É una storia che si svolge in su due binari, che si incontrano in più riprese: quello, appunto, di David, che chiede aiuto a stregoni per risollevarsi dal polverone causato dai suoi operai, e quello di sua moglie, Vera, e del figlio Clemente creduto pazzo per molto tempo, ma unico vero conoscitore del futuro e della verità. Loro intraprenderanno un cammino opposto a quello dell'uomo: andranno, infatti, alla ricerca dell'antimagia, quella dei Ndau e degli Nguni, che Clemente accoglierà in sé in forma di studio e lavoro.
Uma história de família, de vida e morte, de traição e desilusão pela escrita da maravilhosa Paulina Chiziane. Destaco a complexidade dos feitiços africanos, dos rituais, da magia negra e dos sacrifícios tão bem descritos neste livro. Incrível.
A primeira coisa que tenho a dizer é: Paulina Chiziane é uma das melhoras escritoras que já encontrei. Ela consegue inserir-te na estória do livro, como se estivesses a ver tudo de perto. A estória é muito boa e conseguiu retratar as realidades moçambicanas. Conseguiu mostrar-nos o que uma pessoa em desespero é capaz de fazer para manter o seu estatuto. É conseguiu mostrar-nos o que uma pessoa é capaz de fazer para salvar os outros. Fenomenal!
Mais meia estrela pela intenção de mostrar que o fim do colonialismo não foi o fim do abuso e da exploração, que o acautelamento do interesse próprio não é exclusivo de qualquer cor ou credo. De resto, talvez por ser uma realidade muito vivida na sociedade Moçambicana - e, por isso, difícil de deixar de fora da narrativa -, demasiadas páginas a recaírem na feitiçaria, para o meu gosto pessoal.
Começo este pequeno texto com uma confissão. Quando terminei a leitura deste livro senti uma certa irritação comigo mesma. Já tinha visto vários livros de Paulina Chiziane à venda e nunca me decidi a ler um, adiando sempre para uma ocasião próxima. Há tantos livros para ler e tão pouco tempo que todos nós temos de ficar escolhas. Mas, finalmente a ocasião surgiu. E este livro é, até agora, o que mais gostei de ler este ano. A acção decorre em Moçambique e tem na família constituída por David e Vera o ponto de partida. Ele é director de uma fábrica e ela dona de casa, procurando ambos reproduzir o modelo vivencial europeu, afastando-se das suas raízes africanas. Vivem em abundância material, Vera subjugada às vontades e apetites do seu marido e senhor, que se esforça por antecipar. O problema mais evidente é a doença de um dos filhos, Clemente, desde criança com crises que o aproximam da loucura. Para além disso, David tem de encontrar forma de satisfazer a sua crescente ambição e Vera procura alhear-se da dura realidade existencial dos que a rodeiam, duas tarefas de não pequena monta. O precário equilíbrio da família desaparece logo nas primeiras páginas do livro. A contestação dos trabalhadores na fábrica leva David, já numa espiral descendente no início do livro, a perder-se cada vez mais, numa descida aos infernos que vamos acompanhando quase como se estivéssemos com ele nos vários episódios. Em busca de soluções para os seus crescentes problemas David acaba por se envolver com magia negra. Um dos aspectos mais interessantes desta narrativa são as várias dimensões de cada perosnagem. David é o exemplo paradigmático disso mesmo. Vai-se afundando, mas não perde totalmente a consciência moral e o juízo crítico. Questiona-se, procura formas alternativas de resolver as questões, mesmo com as forças sobrenaturais e, apesar de todo o mal que vai causando à medida que triunfa, parece acreditar, de vez em quando, que será capaz de parar o jogo num qualquer momento. Esta dualidade dá-lhe humanidade e torna-o credível. Na vida real, creio, são poucas as pessoas que se assumem como más. Todas procuram justificações e simulacros de compromissos éticos. As más acções não ocorrem todas ao mesmo tempo, pois as barreiras morais vão sendo paulatinamente quebradas. É isso que este livro ilustra muito bem. Também as páginas em que Vera entra em diálogo com uma mulher mais velha que põe em perspectiva o verdadeiro (pequeno) poder de David são um momento marcante do livro. Trouxeram-me recordação de uma outra leitura, totalmente diferente, A Nova Teoria do Mal do filósofo português Miguel Real. O Sétimo Juramento junta a modernidade e a magia, a ignorância das novas gerações face aos velhos saberes que, não obstante querem usar a seu favor, a feitiçaria negra e a branca, a corrupção, a miséria, o preconceito e o papel da mulher na sociedade, na família e na sua própria existência. É muito curioso como um livro que se centra na mundividência de um país de que pouco sei (tem um léxico na edição portuguesa muito útil para explicar alguns conceitos e significados) e que mergulha num universo estranho à realidade portuguesa (as práticas mágicas africanas) consegue dar-nos uma mundividência que nos toca e transcende. O certo é que muitos dos problemas que aborda (a desigualdade na distribuição da riqueza, a exploração dos pobres, a pobreza dos afectos e o egoísmo) males universais. O combate entre o Bem e o mal (tema central do livro afinal) é o mais antigo dos assuntos e seguramente que qualquer leitor o compreende. Passa também pelo livro, uma mensagem de força, de impossibilidade das personagens se vergarem perante a injustiça e a destruição, mesmo que o trabalho de luta exija uma longa resistência e os inerentes sacrifícios. Neste sentido, acompanhamos o empoderamento de algumas das personagens a quem a narrativa patriarcal reservaria o papel de vítimas. Porém, na voz de Chiziane esse sacrifício não consegue consumar-se. A mulher desprezada, o filho diminuído e a filha sacrificada conseguem reagir. Falta dizer que a linguagem é variada e rica, com um ritmo próprio que, aliada ao enredo, nos faz virar as páginas sem esforço, ansiando por saber como tudo terminará, mas também já com pena por o livro ir terminar. Para este último mal há bom remédio. Paulina Chiziane tem vários livros publicados entre nós. Tenciono entrar mais a fundo na sua obra e só posso recomendar a quem ainda não conhece que remende essa lacuna rapidamente.
An intriguing and multifaceted novel, this book delves deep into the ethical dilemmas surrounding human ambition while exploring the cultural complexities. In this narrative, the author skillfully weaves a tale where the ethical boundaries of ambition are tested, revealing both the darkness of corruption and work disorganization, as well as the light of love and family.
The book takes us on a journey through the rich cultural tapestry of African peoples, exploring their traditions, beliefs, and values. The author adeptly reveals the nuances of a society where ambition can be a powerful force for good but also a guiding thread for corruption and decay. Through the lens of ambition, the reader is confronted with profound ethical questions, forcing us to ponder how far we are willing to go to achieve our goals.
A notable feature of this book is its exploration of the occult, skillfully interwoven into the plot. This mystical element not only adds a layer of complexity to the story but also serves as a reflection of the spiritual beliefs rooted in many African cultures. She also highlights the importance of love and family. In a setting where ambition can corrupt even the purest souls, love and familial bonds emerge as vital anchors. They offer redemption and hope, reminding us that regardless of the temptations of unbridled ambition, true human values lie in connection with others and unconditional love.
uma grande tragédia. magia, traição, lutas e revelações.
há momentos explícitos: muito sangue, sacrifícios, acidentes e violência. de uma maneira geral a narrativa tem uma força arrebatadora que lança mão de mergulhos nas ações desesperadas de personagens levados aos seus limites.
a história começa criticando abertamente a corrupção dos líderes revolucionários que viraram grandes capitalistas. é muito triste contemplar a situação precária pós independência de Moçambique. o monopólio dos lucros das fábricas fez dos líderes revolucionários grandes capitalistas. depois de todas as personagens apresentadas e o palco estabelecido, o drama dá uma guinada vertiniginosa para o universo da magia.
sem julgamentos, Paulina Chiziane percorre o centro rico e as periferias pobres de uma cidade vizinha da guerra persistente. ninguém se salva, ninguém é santo, a sobrevivência guia todas as ações. na rua todos passam lado a lado. todos são filhos de lances terríveis da época colonial.
há momentos de tempestade emocional com enchentes de efeitos especiais das presenças mágicas que dariam um filme impressionante.
este livro é uma obra de peso. assim como as outras obras da autora, me surpreendeu durante toda a leitura.
livro tão intenso q chega a ser assustador, mas genial! essa mlr mds do céu não dá descanso para a mente humana, obriga a pensar na moralidade e os seus pqs, gosto mt dela! (não recomendo a leitura a crentes)
Foi o meu primeiro livro da Paulina Chiziane. Comprei quando li a notícia do Prémio Camões. A primeira escolha não estava disponível e escolhi este por 'feeling'...
Ler a cultura moçambicana em português. "Penteia-lhe o cabelo com um pente de espinhos de ouriço, para lavar o cérebro e eliminar as loucuras da mente."
Sometimes books are a way to travel, this one was a way to stay. I read it all the day I left Mozambique, and it was a way to keep my journey going. The story of a business man richer than most around him, corrupt, who resorts to witchcraft when his workers go on strike and luck deserts him. A greatly entertaining read.