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215 pages, Hardcover
First published January 1, 1991
A transgressão e a rebelião se tornaram rotinas, o não conformismo é assalariado, os anarquismos são podres de ricos.
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Os certificados de bom-mocismo são como as meias, a moda agora é andar mostrando. Até os racistas, hoje, se vendem como antirracistas, iguais a todo mundo. Ficam o tempo todo jogando nos outros as suas obsessões nojentas […]
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Esse princípio de antecipação alcança até os plagiários profissionais, os quais mal podem esperar que um livro seja lançado para que o espremam até a última gota, lançando uma versão requentada.
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[o livro é de 1991, mas este trecho cabe sem sobras ou apertos na militância racial e feminista que, muito tempo depois de negros e mulheres terem alcançado plenos direitos, age como se estivesse lutando bravamente por essas minorias em 1850]
É sempre divertido ver os trejeitos e meneios de quem finge ter devotado a própria vida à filantropia magnânima. Deve ser bastante agradável só entrar em campo com partida ganha, batalhas já vencidas antes de se iniciar. É tranquilizador retornar a questões já resolvidas.
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É a lei implacável da máquina, a rotação das coleções. O efêmero é rei. Os bons sentimentos seguem os caprichos das modas. Como todo o resto, são “roupa”, como tudo o mais.
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E o consenso, ao fim e ao cabo, não é nada mais do que outro nome para “servidão”. Ele muda de acordo com as épocas, já se chamou patriotismo, igreja, sacralização da família, da ordem, da propriedade. Cada século traz uma decoração. Protege com seus arames farpados, se enfeza contra os ofensores.
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“Farisaísmo”, diríamos em dias um pouco mais cultos… O que era um “fariseu”? Alguém que estava convencido de estar ele mesmo em estado de graça, logo justificado para intervir na vida alheia com ferro e fogo. As mídias deram ao farisaísmo um rejuvenescimento providencial.
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“Nunca se viu um egoísmo tão às claras, mas o bem público, a liberdade, a própria virtude estavam em todas as bocas”, constatava Madame de Ménerville na atmosfera de 1789.
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Verde paraíso do ano 2000 em que os anunciantes serão também os censores!
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[…] aqui estamos em nossa época, às portas do ano 2000… sim, a Mulher está tendo alguma dificuldade de se tornar, ao menos aqui na França, esse Totem incriticável, intocável, nunca ironizável que o feminismo nunca perde a vontade de um dia erigir.
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Cito os escritores porque somente eles souberam ver, souberam dizer, que são sempre os piores crápulas que fazem procissão com o coração na mão.
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Também Don Juan descobre, como grande artista que é, a arma absoluta de certa lógica invertida, mas eficaz, segundo a qual, para cometer os crimes em paz, é preciso que eles sejam legalizados pela ostentação de seu contrário virtuoso.
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Os homens do espetáculo se entregam sem parar a uma gigantesca empreitada de idealização alucinada. As mulheres feias serão mais desejadas que as belas, porque eles estão dizendo isso para você, então é verdade… Um empresário riquíssimo e branco vai se apaixonar perdidamente por uma diarista negra e pobre… As lágrimas, o amor, a paixão, a generosidade, as efusões sentimentais nos anunciam uma idade de ouro iminente. Mas essas fábulas caritativas não têm nada a ver com a vida real, não é? De fato. Mas e daí? O que vale é a intenção; a intenção vale pela ação, chega até a superá-la grandemente. É preciso saber acariciar o coração das populações. […] Eu já disse para vocês, a intenção! A mina de ouro do Sentimento!
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Todos os dias, gente que nunca toleraria que se fumasse em suas narinas empurra suas preferências [musicais] em nossos ouvidos.
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Em Cordicópolis, a literatura só é tolerada como espécie em extinção. Os animadores culturais a quem damos prêmios por sua “ação em favor do livro” são as madres Teresas da grande Calcutá do livro impresso. Quase nada mais pode chegar ao público que não seja meloso, poético, miserabilista, sofredor. Somente as chagas em carne viva ainda triunfam. É preciso ao menos ser agonizante, ter sido soterrado por bombas, ter passado dez anos em uma prisão na Malásia, para ter a chance de ser percebido.
Ah, mas como o sistema faz as coisas bem-feitas! Tem para todos os gostos. O Bem, todinho, contra todo o Mal. Sim! Eis a epopeia! Tudo o que tem razão completa contra o que sempre foi errado. A Nova Bondade está de vento em popa contra o sexismo, o racismo, contra as discriminações de todas as formas, contra os maus-tratos aos animais, contra o tráfico de peles e de marfim, contra os responsáveis pela chuva ácida, a xenofobia, a poluição, o massacre das paisagens, o tabagismo, a Antártida, os perigos do colesterol, a AIDS, o câncer e por aí vai. Contra todos os que ameaçam a pátria, o futuro da empresa, a vontade de vencer, a família, a democracia.
Isso dito, não entendam aquilo que eu jamais escreveria. A fórmula mágica de hoje, se quisermos a paz, consiste em declarar, logo de cara, que não temos nada contra ninguém, especialmente contra aqueles que estamos atacando. É a palavra mágica e indispensável: “Esta é uma obra de ficção baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade.” Então vou dizem bem alto: é óbvio que sou A FAVOR, totalmente A FAVOR de todas as causas justas; e CONTRA, totalmente CONTRA aquelas injustas. Pronto! Paguei o pedágio está dito. Não venham me encher o saco, está bem claro. Sou a favor de tudo que pode vir de bom e contra tudo que existe de mau. Pela transparência, contra a opacidade. Pela verdade, contra o erro. Pela autenticidade, contra a mentira. Pela realidade, contra as ilusões. Pela moral, contra a imoralidade. A favor de que todos possam comer quando sentem fome, para que não haja mais excluídos de nenhuma forma sobre a terra, pelo triunfo da dietética.
Não me venham presumindo coisas.
O imprevisível não chegará, nem que a vaca tussa. O espontâneo chega no vazio. Todos os cigarros são mild, cerveja, sem álcool, e churrascaria, light.
Fui ingênuo por muito tempo. Eu achava que as boas causas eram autoevidentes. Que tudo aquilo que era interessante discutir começava exatamente onde terminava o que era autoevidente. Eu estava errado, é claro. Não é porque estamos de acordo que todos condenamos a morte, o câncer, o apartheid, as queimadas ilegais, não é porque preferimos a tolerância, o cosmopolitismo, as trocas entre povos e culturas, sofremos todos pela Etiópia, pelos novos pobres, pelos famélicos do Sahel, que essas sejam razões para não dizermos isso mil vezes por dia.
A transsexualidade de massa cessou de ser uma utopia para se tornar nossa realidade de substituição. “Eu adoro”, disse uma jovem “intelectuala” [no original, “écrivaine”, conforme nota do tradutor] em um arroubo pleno de poesia consoladora, “ver as fronteiras do sexo transgredidas pelo ser andrógino que se recusa a ser mutilado”… uhuu! Que beleza de suspiro! De um lado “fronteiras”, “mutilado”, noções antipáticas; do outro “transgressão”, um conceito tanto melhor quanto mais hoje se tornou inofensivo. O ponto culminante, a celebração do “ser andrógino”, herói ideal, o justo, da nova intelligentsia, dos bem-pensantes.
Da hitlerização do planeta a sua disneyficação contemporânea, apenas a violência foi extirpada. E ainda assim, não de toda parte.
Uma noite liguei a televisão em um programa sobre “acidentes domésticos”… não? Sim! Mas não vão fazer um debate com isso? Claro! Com certeza! Aí está! Seríssimo! É proibido rolar! Seu apartamento está fervilhando de perigos, não confie nas aparências! No fim das contas, Saint-Juste não estava errado: “Viver frouxo e entocado é uma ideia nova na Europa.” Atenção, o terror escorre pelos cantos das paredes. Seus querubins vão se queimar na cozinha se ela não estiver dentro das normas europeias! Vão se envenenar com o detergente! Água fervente vai cair sobre eles! Vão fechar as portas sobre os dedos. Sua sala é Beirute! É Stalingrado nos piores momentos!
Um dia desses, saindo de casa, descendo as escadas do metrô, vejo a enorme manchete de um jornal: “Às 20:00, a França vai parar”. Ah, bom, tá certo, tudo bem, eles devem saber o que fazem… mas fiquei em dúvida e me aproximei do quiosque, porque nunca se sabe, talvez houvesse uma greve geral, talvez eu ficasse preso sem poder voltar. Chego perto, leio. Descubro que se trata de não sei qual partida de futebol que todos os franceses estavam intimados a experimentar juntos diante da televisão! “A França vai parar!” Todo mundo? Sério? A França inteira? Tem certeza?
“A França está muito atrasada em relação à Alemanha para a inclusão de pessoas com deficiência na vida profissional…” A gente escuta essas coisas todo dia da boca dos cordicocratas. […] Um dia desses vi uma jornalista inconsolável dizendo que a França estava atrasada em relação à Holanda na questão da “imagem dos homossexuais nas mídias” […] Pois pronto! […] Nas mídias, logo, no mundo, porque só existe esse também! No mundo, logo, nas mídias. A crença geral é a de que só as imagens são capazes de nos conferir uma aparência de ser, a vida dos homossexuais é ruim porque o seu lugar nas imagens não é o suficiente.