Livro que troquei com minha irmã e levei um choque com essa leitura. Pensei que fosse bem levinha, mas não. É profunda e provoca algumas reflexões, principalmente sobre paternidade e amor. Lorenzo narra desde sua infância sem muita atenção do pai, de como ele se sentia ferido pelas indiferenças, do anseio pelo toque e carinho, até sua vida adulta. Em determinado momento, ele larga o ensino médico para trabalhar no bar da família e o impressiona a situação financeira em que vivem, como estão apertados, ressaltando a honestidade do pai, em sempre pagar e não ficar com algo que não lhe pertence. Conta como ele fica deslocado por não andar na moda, sua primeira paixão frustrada, o contato com os livros, música, arte por meio de um vizinho que tinha acabado de se mudar e a quem nada impressionava ao falar de futebol (papo corriqueiro em bares). Como consegue seu emprego promissor em publicidade, pois, ainda que não tenha o ensino médio, tem muita criatividade, sua mudança para uma agência maior e o distanciamento do pai ainda mais; suas amizades e seu amor por uma mulher que quer filhos e ele não; a separação deles e como ele tenta retomar com ela (após 2 anos), ao saber que ela vai se casar com alguém que quer filhos. Ódio que senti dessa parte com o egoísmo dele!!! Pouco antes disso, ele havia desabafado com o pai sobre suas frustrações e eles se reaproximam beeem aos poucos com o pai decide cuidar de suas plantas. Ao descobrir um câncer, eles se perdoam e há a reflexão do título do livro: ela queria todo o tempo que havia passado, em que ele estava separado do pai e da mulher que ama. Ele e a mulher se reencontram e, por muita insistência, vão tomar café no ap dele. ELE A ESTUPRA (sério, mano, que ódio dessa parte)!!! Ela pede mil vezes para Lorenzo sair de cima dela, trava a perna e ele a força falar que o ama, batendo no rosto dela, várias vezes, enquanto força sua entrada. Choque com essa cena! Sério! Ela finalmente diz e realmente parece estar sendo sincera, diz que quer filhos com ela e vai tomar banho. Quando retorna, ela já não está mais no apartamento. Acaba o livro. Ótima leitura, escrita muito boa! Algumas marcações feitas para refletir.
"Olhei meu pai e percebi que ele não era mais aquele de antes. O homem que eu estava olhando era um pai novo, que eu acabava de ganhar. Justamente quando temia perdê- lo, eu o encontrei, ele estava ali comigo. Ele e todo o tempo recuperado que trazia consigo. Um tempo do qual pela primeira vez tive plena consciência e que me apareceu em toda a sua preciosidade. Um tempo que valia o dobro, porque eu pensava não tê- lo mais, imaginava tê- lo perdido para sempre. Um tempo que seria ao mesmo tempo breve e desmesurado. Naquele instante, desejei não mais me deixar arrastar pela vida. E compreendi que também com ela, a minha ela, não podia desperdiçar mais tempo. Passaram- se dois anos: uma eternidade. Em dois anos, perdi uma infinidade de emoções que não vão voltar. Com meu pai e com ela, joguei fora muitas oportunidades. Esse era o tempo que eu queria."
"Cresci desejando não ser igual a ele. Queria demonstrar ser um homem diferente. Desde garoto, tive de me confrontar com o mundo dos adultos e conheci cedo a ferocidade deles. Tive também de aprender a lidar com as dificuldades econômicas e emocionais de minha família. Consegui me livrar fugindo, me afastando daquela situação; saí dela levando bordoadas em todas as frentes, e esse percurso de vida me mudou para sempre. Tornou- me quase incapaz de afeto, não por natureza ou por escolha, mas por instinto de sobrevivência. Não tendo jamais investido nos afetos, revelo nas relações importantes todos os meus limites e minhas carências fundamentais. Eu tinha uma mulher que me amava e a quem, à minha maneira, eu amava; mas a deixei ir embora, exatamente como meu pai fez comigo. Um pai que estou aprendendo a conhecer e ao qual percebo me assemelhar, sempre mais a cada dia."
"Ler sobre gente que vivia situações difíceis, duras, até piores do que a minha me aliviava e fazia com que eu me sentisse menos só, graças a uma espécie de humilhação coletiva. Em algum lugar do mundo, havia outras pessoas como eu. Sentia- me menos abandonado e sobretudo aprendia muitas coisas que eu não conhecia. Porque, embora as histórias fossem inventadas, o sentimento era real, e percebia- se que o escritor sabia o que estava descrevendo."
"Com um filho, eu tinha medo de precisar recomeçar tudo desde o início. Fazer um filho me dava a sensação de acrescentar mais trabalho e mais responsabilidades às que eu já enfrentava. E, também, como podia desejar um filho se ainda estava desejando um pai? Ela queria um filho justamente no período em que eu, ao contrário, queria curtição e leveza. Para falar a verdade, penso que ela foi embora não só porque eu não queria ter um filho, mas sobretudo porque eu não deixava que me amasse."
"Muitos não conseguem se largar, simplesmente porque não sabem para onde ir ou então porque não suportam a ideia de ser responsáveis pela dor do outro. A pessoa que está para ser deixada quase sempre se torna mais afetuosa, mais gentil, mais maleável; não percebe que desse jeito piora a situação, porque qualquer pessoa condescendente demais perde o fascínio. Quanto maior é a demora, mais a vítima se enfraquece."
"Ele é sempre mais forte do que eu. Sempre foi. Porque lhe basta uma palavra para me magoar. Ou melhor, menos ainda: uma palavra não dita, um silêncio, uma pausa. A esse homem, durante anos, pedi amor de um jeito equivocado. Procurei nele o que não existia. Eu não enxergava, não entendia, e agora me envergonho um pouco disso. O amor que ele me dava estava escondido em seus sacrifícios, nas privações, nas infinitas horas de trabalho e na opção por arcar com todas as responsabilidades."