"(...) tento voltar e repetir os teus passos como uma criança que se esforça a encaixar os próprios pés nas pegadas maternas que encontra impressas na areia."
Estive pensando bastante nas estrelas que atribuiria a este livro. Diversas vezes, em diversos outros pensamentos que escrevi sobre outras obras, relatei que a avaliação em notas objetivas - estrelas ou números - acabam sendo falhas. É o que sinto ao precisar preencher as estrelas sobre este livro.
Não tenho certeza se o autor construiu a narrativa a partir de sua própria história - e, consequentemente, de sua mãe - ou se a narrativa e os acontecimentos são inteiramente ficcionais. Sinceramente, a segunda opção é aquela da qual duvido muito. A metalinguagem aqui é muito clara para ser algo apenas inventado, apenas construído de uma percepção longínqua. Acredito que Gabriel teve contato com o que descreve a ponto de criar um horror tão grande pela situação que, o máximo que pôde fazer neste livro, foi justamente se distanciar ao máximo dela. Não há como culpá-lo: um filho, que viveu com uma mãe saudável, de repente precisa assistir à sua deterioração física e mental, como vê-la apodrecendo em vida, sem poder fazer nada para que a situação seja revertida - é o que acontece, em um dos últimos capítulos, ao descrever a cena na qual há saliva escorrendo de sua boca e fezes na fralda que a equipe de cuidados troca. É difícil humanizar os pais. É difícil não enxergá-los como eternos e intocáveis. Dói reconhecer que, assim como nós, são perecíveis, frágeis, e que podem desintegrar-se a um simples toque.
Acredito, então, que compreendo o ponto do narrador: ao querer reconstruir a mãe, as suas memórias, redescobri-la em sua vida enquanto ainda tem e teve tempo, e descobri-la quando ele próprio ainda não existia, jamais seria possível. Há toda uma vida a qual jamais se é permitido ter acesso; este acesso é ainda mais proibido quando, à sua frente, já se estende uma inevitável e visceral partida. Mergulhar no passado, no que existiu, e que não poderá mais ser reconstruído, seria encarar de frente, sem barreiras, sem escudos, a realidade como ela é, tão escaldante quanto o brilho do sol que queima os olhos ao simples encontro das íris. Isto é evitado a todo custo, inconscientemente. Este não é um livro completo. Não é uma ideia completa. É o que poderia ter sido, finalizando com o melhor que se pôde fazer de uma ideia que se tinha. Considerando as circunstâncias, não há nada de errado com isso.
Quanto à parte puramente literária, acredito que partes da estrutura do livro poderiam ter sido melhor trabalhadas. Sei que, considerando a história, a intersecção poética de confundir as vozes de mãe e filho, em certo momento, poderia ser um acerto. No entanto, na disposição dos capítulos, fica somente bagunçada. Não é em todos os momentos que isso acontece, mas, na prática, havia maneiras melhores de encaixar uma ideia que, no rascunho, era mais organizada e compreensível.
Assim como outros leitores, também tive alguns problemas com o narrador. Não há, exatamente, um pano de fundo de como era sua convivência familiar. A relação com o pai era fria, e consigo compreender que, até certo ponto, por não ser este o foco do livro, ela poderia - como é - ser deixada de lado. Contudo, e a relação com a mãe? Esta, sim, é crucial, e não fica clara na narrativa. "Vivia entre a carência da mãe e a escassez do pai (...)", diz o narrador. Mas que carência? A princípio, a relação do protagonista com a mãe parece ter sido um fardo a vida inteira - não para ela, mas para ele. Fiquei, então, com a impressão de que ele estava, na verdade, correndo atrás de um tempo perdido, ocasionado em grande parte pelos seus próprios erros. É um personagem com o qual apenas há conexão quando ele escreve para a mãe, momentos nos quais surgem seus pensamentos mais bonitos. Os horríveis também seriam bem-vindos, mas não aparecem. Ele pisa sobre ovos, até mesmo para falar de si mesmo. Creio que saiba que, assim como demonstrou em poucos capítulos de seus pensamentos sobre quem ele era, não consegue ser interessante, tampouco busca a simpatia de ninguém. Ele brilha apenas quando fala sobre sua mãe. Talvez isso diga muito sobre ele, mas mais ainda sobre ela.