Como fez com o Mapa Cor-de-Rosa em Baía dos Tigres, Pedro Rosa Mendes reinventa, nesta Peregrinação de Enmanuel Jhesus, um espaço nobre da literatura portuguesa, de Fernão Mendes Pinto a Ruy Cinatti: o arquipélago malaio, imenso território de aventura, onde as caravelas chegaram há exactamente 500 anos.
Passagens de História, memórias políticas, cadernos da guerrilha, tratados breves de diplomacia, debates teológicos, cenas de artes marciais, cartografia antiga, observações de botânica, notas de geologia, ritos de sagração, sortes tauromáquicas, até um fado perdido (por Amália?) lá em «Outramar»: abundantes são os tesouros que nos acompanham nesta viagem. Uma vertigem de personagens desfilam e falam a várias vozes.
O resultado é um romance em diário de bordo, uma ficção de portulano, «suma accidental em que da conta de mvitas e mvito estranhas cousas que vio e ouvio nos reynos do Achém, Çamatra, Sunda, Jaua, Flores y Servião y Bellos, que vulgarmente se chamam Timor, homde nace o sandollo».
Peregrinação de Enmanuel Jhesus pertence ao que, na minha opiniao, é um dos arquétipos do livro português: experimental, intelectual, poético, filosófico, cheio de camadas. Leitura fácil? Definitivamente não. Às vezes não fazia ideia do que estava a acontecer, eram só vibes. Gratificante? Absolutamente. Peregrinação tem algumas das melhores cenas que já li em português.
O livro passa-se em 1999, na época do referendo de independência do Timor-Leste, quando um jovem arquiteto indonésio chega a Timor para aprender mais sobre a arquitetura da ilha, com o intuito de desenhar a casa do futuro líder independentista timorense. A história é contada da perspectiva de 8 personagens, incluindo um alto funcionário indonésio, timorenses que fizeram parte da resistência, um padre guerreiro, e uma princesa nativa. Há muito olhar para trás para as décadas de 1970 e 80, durante a invasão pela Indonésia em 1975 e o terror dos anos seguintes.
Apesar de estar devidamente impressionada com os capítulos dos personagens mais intelectuais e as suas discussões sobre a história, a diplomacia, a liderança, a arquitetura, e artes marciais dos diferentes povos de Timor e da Indonésia, o verdadeiro coração do livro são os personagens mais pobres, os soldados rasos. As suas histórias são contadas com linguagem mais simples, mas extremamente poderosa e memorável.
A minha maior queixa é a falta de mais personagens femininas. O livro não passa o Bechdel Test e é pena só haver uma mulher entre os 8 personagens que seguimos. E os seus capítulos são basicamente descrições dela na cama com o personagem principal ou a pensar nele...
Mas em geral, *chapeau* ao Pedro Rosa Mendes e à sua Peregrinação!
Quelques passages intéressants sur la culture timoraise, mais sinon je suis jamais rentré dedans. Il manque un fil conducteur, j'ai pas trop le style avec les dialogues sont écrits ni présentés. Pas une grande réussite mon premier auteur portugais.
Um livro muitíssimo bem escrito e que denota um profundo conhecimento da realidade Timorense. Especialmente interessante para quem percorreu aquela ilha ou para quem nela tenha interesse. Uma rica combinação de história, antropologia, política, romance, viagens.
Meia ilha do arquipélago das Pequenas Sondas, que está tatuado na perna direita de Alor: Timor Lorosae, onde nasce o sândalo, “…homde nace o samdollo.”
O mapa que tem tatuado é uma réplica do atlas de Francisco Rodrigues, elaborado entre 1511 e 1515, durante as viagens que fez ao lado de Afonso de Albuquerque em busca das “ilhas das especiarias”, as ilhas Molucas.
Encontrar o mapa das Sondas na anatomia de Alor é como encontrar constelações, linhas imaginárias a formar figuras unindo as estrelas. Diz Wallacea, que conheceu de bem perto este mapa tatuado,
Alor é feito de estrelas.”
Percebo pelo belíssimo diálogo entre Alor e Wallacea que as Pequenas Sondas se estendem pela perna direita em direcção ao tronco, e as Grandes Sondas passarão pela perna esquerda. Timor estará no peito, no coração: Timor Lorosae, onde nasce o sândalo, “…homde nace o samdollo.”
Este é um livro difícil. Os personagens entrelaçam-se, o tempo avança e recua, como a cabeça de um tear – como um tais, embora esteja incerta de que este seja um tributo ao povo timorense, como foram os tais:
A colecção de tais – os panos tradicionais timorenses – não tinha apenas um valor museológico incalculável. A colecção era, também, o registo mecanográfico do genocídio: milhares de tais, com milhares de nomes, alinhados, acumulados, salvos do esquecimento.
Durante duas décadas, as nossas mulheres receberam ordens da liderança para fazer algo mais do que chorar: a instrução era para tecerem o nome do seu choro (…)”
Pedro Rosa Mendes
Pedro Rosa Mendes nasceu em 1968, em Cernache de Bonjardim, concelho da Sertã. Estudou Direito em Coimbra, e é jornalista. Depois das experiências na Rádio Universidade de Coimbra e no Jornal de Coimbra, integrou a equipa do Público, na sua fundação – primeiro na secção de Cultura, e depois na secção Internacional. Cobriu vários conflitos em África e na ex-Jugoslávia, enquanto jornalista freelancer para o Público e para a Visão. Foi como delegado da Lusa que esteve em Timor de 2007 a 2010. Peregrinação de Enmanuel Jhesus, o seu último romance, decorre desta experiência.
Baía dos Tigres (1999) foi o seu primeiro romance, que mereceu o Prémio Pen Club e está publicado em mais de 20 países. Outros romances: Atlântico (2003, romance fotográfico em co-autoria com João Francisco Vilhena) e Lenin Oil (2006, romance em co-autoria com Alain Corbel). Publicou também livros de reportagem.
Timor
Timor, a ilha que nasceu de um crocodilo, é um destino turístico ainda pouco explorado e, por isso, genuíno.
Subir ao Matebian é passar por entre os pedregulhos pontiagudos, antropomórficos, e pisar o solo que foi reduto da Resistência independentista. Subir o Ramelau é conquistar o maior cume da ilha (cerca de 2.400m de altitude).
Visitar Lospalos é conhecer a autêntica casa timorense, que Alor procurava, a casa fataluku, a uma lulik: construção ritual, casa tótem, de ligação com os antepassados. Muitas destas casas foram destruídas pelo regime indonésio, numa tentativa de anular a cultura local.
Em 2016, o mar de Ataúro foi considerado pelo The Guardian como o local da terra com maior biodiversidade. Ao contrário das restantes Sondas, que são vulcânicas, Timor é formado por corais. As areias têm por isso reflexos lindíssimos, dizem. Os mergulhos são um espectáculo de côr e de vida.
Timor é o meu lugar de nascença. Vim com 21 dias, e nunca regressei. Os meus pais sempre me disseram que era essa a minha Terra. Tenho imagens de paraíso, de pôr-do-sol na praia e de estrelas do mar azuis que brilham no escuro.
Ler por aí… em Timor – outras sugestões:
Um Cancioneiro para Timor, de Ruy Cinatti Crónica de uma Travessia, de Luís Cardoso Timor - Paraíso Violentado, de Fátima Guterres