(...)elle avait de la justesse dans l'esprit et de la justice dans le coeur..
Mais do que uma biografia, este livro sobre Madame de Pompadour é uma tremenda vingança que Mitford faz cair sobre os detratores da classe a que pertence - detratores esses, muito próximos dela, tão próximos que partilham laços de sangue, que, por vileza, perpetuam os lugares comuns de privilégio, insensibilidade, inconsequência e frivolidade aristocrática com os quais a autora não consegue concordar.
Fazendo assim da Marquise o veio central que percorre uma galeria de intrigas, jogos de poder, políticas, gáudios e esplendor, Mitford acaba por criar uma biografia pouco comum: sensível, embora não isenta, doce, trágica, romântica e, ainda assim, bastante realista de uma mulher que sabia representar, cantar e dançar, e o seu mestre foi Jéliotte, da Comédie Française; recitava peças inteiras de memória, e teve como professor de elocução Crébillon, o dramaturgo; tocava clavicórdio na perfeição, um dom precioso naquela época em que era preciso mais do que carregar num botão para ouvir música. Era uma jardineira e botânica entusiasta e sabia tudo sobre os arbustos maravilhosos que invadiam a França, oriundos de todos os cantos do mundo; adorava história natural e coleccionava pássaros raros e exóticos. A sua caligrafia, curiosamente moderna, era bonita e legível. Pintava, desenhava e gravava pedras preciosas. Por último, mas não menos importante, era uma dona de casa excepcional.
Para o conseguir, Mitford recorre a uma extensa bibliografia, entre a qual figuram sobretudo memórias, diários e cartas, fontes inesgotáveis de boatos, piadas e má língua que alimentam grande parte do livro. Mas aquilo que se destaca dele é sobretudo uma enorme admiração por uma época e uma personalidade ímpares na história e cultura europeias: absolutamente contraditórias, insondáveis, místicas e fascinantes:
A aparência e o comportamento geral tinham de ser alegres. A boa disposição era não só uma virtude como uma questão de delicadeza e quando não era natural tinha de ser cultivada. Quando as pessoas se sentiam tristes, doentes ou ansiosas guardavam esses sentimentos para si próprias e mostravam em público uma cara sorridente. E também não se demoravam nas tristezas dos outros, depois de uma primeira manifestação de solidariedade. Calculava-se que cada ser humano tinha cerca de duzentos amigos; destes, todos os dias devia haver pelo menos dois a sofrer de alguma preocupação; mas seria errado continuar a sofrer por eles porque também era necessário pensar nos outros.
Jeanne-Antoinette, futura Madame de Pompadour, nasceu em 1720, e nos anos que se seguiram, pese embora o facto de pouco sabermos da sua infância, estaria longe de imaginar o seu futuro. Ainda assim, em 1745, o seu destino ficou rapidamente selado (e por sua excelsa vontade):
(...)na altura só havia um tema de conversa na sociedade, tanto em Versalhes como em Paris: quem seria a próxima amante? (...)
Tal era o prestígio de monarca nesses tempos, tão perto estava de ser considerado deus, que a posição da sua amante não se revestia de grande vergonha, ao passo que as vantagens materiais para a família dela eram enormes.
A apoteose da Marquise, com tudo o que tem de claro e obscuro, positivo e negativo, grandioso e mundano, ocupa grandemente Mitford que se serve desta biografia para trazer à luz a faceta privada e pessoal, tantas vezes descoradas, da sua heroína (que o é):
Se era verdade que Madame de Pompadour não estava fisicamente apaixonada pelo Rei, sendo fisicamente incapaz de paixão, não seria demasiado dizer que ela o adorava; ele era o seu deus.
Nesta viagem pelos esplendores da corte francesa de século XVIII, a autora não esquece um sem nome de personalidades que cruzam caminho com Pompadour: de Voltaire a Diderot, de Richelieu a Frederico da Prússia, Mitford dá vida a um conjunto de personalidades extraordinárias e fascinantes que então, como agora, nos parecem tão vivas e igualmente misteriosas:
Na sua juventude [Luís XV], um dia voltara de Paris tão horrorizado com a pobreza e a fome que lá tinha visto que despediu de imediato oitenta jardineiros. Como alguém lhe disse depois que esses homens e as respectivas famílias iriam morrer à fome, o Rei voltou a chamá-los. Tinha a impressão irritante de que nunca conseguia fazer nada direito.
Relatar como Pompadour consegue subir a pulso num mundo altamente categorizado, estruturado e hermético é a missão de Mitford que para isso nos pinta, ao longo das páginas desta biografia, várias cenas da corte com os seus galanteios, maneirismos e rituais, como nenhuma historiografia oficial os apresenta:
A coutada favorita do Rei era a floresta de Sénart, onde tinha um pavilhão de caça chamado Choisy, uma casa pequenina que Gabriel alterara propositadamente para ele e que ele amava mais do que qualquer um dos seus palácios; dizia-se que mais até do que qualquer uma das suas amantes. Refugiava-se ali para poder ter privacidade e para se divertir, fazendo-se acompanhar por seis senhoras e vários amigos homens mas nunca por maridos desmancha-prazeres; ali a vida era tão livre e fácil que as mulheres estavam autorizadas a andar sem anquinhas, uma permissão sem precedentes na casa de um cavalheiro. Da cozinha. uma mesa mecânica subia já preparada com a comida, para que a presença de criados na sala de jantar não fosse necessária; depois do jantar, o próprio Rei fazia o café. No entanto, que ninguém julgue que ali havia orgias; Luís XV não era de todo apreciador do género.
E a Madame que Mitford nos traz também diverge daquela que a história gosta de mostrar (embora começando a arrepiar caminho), normalmente frívola e banal. Mitford fala de uma Marquise incómoda, literada e apaixonante que o bom senso tantas vezes cala por não lhe encontrar coerência num tempo de fausto e extravagância inconsequentes:
Ao todo havia [na biblioteca de Pompadour] 3525 volumes, grosseiramente divididos nas seguintes categorias:
87 traduções dos clássicos.
25 gramáticas e dicionários de francês e italiano.
844 livros de poesia francesa.
718 romances, entre eles: Manon Lescaut; La Princesse de Cleves; La Princesse de Montpensier; Histoire Amoureuse de la Cour d'Angleterre, do Comte de Hamilton; Robinson Crusoe; Perkin, Faux Duc d'York; Anecdotes Secrètes et Galantes sur la Cour d'Angle terr; L'Histoire de Cleveland, Fils Naturel de Cromwell; Milord Stan ley, ou le Criminel Vertueux; Tom Jones; Roderick Random; Moll Flanders, e Amelia (todos os ingleses em tradução).
52 contos de fadas, incluindo os de Perrault.
42 histórias religiosas.
738 livros de história e biografias.
235 de música.
Só cinco livros de sermões, incluindo os de Bourdaloue, Masillon e Fénelon.
215 livros de filosofia.
75 vidas de escritores.
Certo é que Madame de Pompadour se impôs pelas suas virtudes maiores sem perder o rumo, sem se tornar idealista, sem ceder à malícia e à maldade, guardando em si a compaixão e o amor próprio, e cultivando uma cultura artística ímpar nas cortes europeias da época, ganhando assim, mais do que um lugar na cama, um lugar no coração (e nas políticas) do rei. É esse o elogio maior que Mitford lhe faz.
Todos estes sinais de poder foram surgindo gradualmente; e, gradualmente, os cortesãos foram compreendendo que havia agora duas Rainhas de França em Versalhes, e que quem reinava não era a esposa do Rei.
A biografia em si, embora flua com facilidade, tem momentos de excesso em que se instala a confusão de nomes e títulos - acabando por levar o leitor no mesmo caos de orientação que, decerto, circundava os recém chegados à corte de Versailles. O formato também afasta esta biografia das fastidiosas e secas biografias habituais, mas, se a lermos com uma mente e um espírito abertos, as pequeninas originalidades da autora tornam-se agradáveis e não impedem a fruição plena da obra, que não serve só propósitos históricos, mas igualmente artísticos, já que está ao nível da sua ficção e não tem grande pretensão de dela se descolar. O grande estudo a que Mitford se deu, e que fica evidente, também acrescenta à experiência e oferece a quem não seja grande apreciador do estilo biográfico uma alternativa viável, agradável, apaixonada e apaixonante.
Madame de Pompadour era exímia numa arte que a maioria dos seres humanos despreza profundamente porque não é lucrativa e é efémera: a arte de viver.