Apesar da estranha obsessão de Nikolai Gogol por narizes…
- Não quero, não preciso de nariz! – dizia com as mãos a abanar. – Só o nariz me gasta três libras de rapé por mês. (…) Não quero ter meu nariz! Corta meu nariz! Eis aqui meu nariz!
…desta vez consegui apreciar o humor do autor, depois de ter desistido da obra protagonizada pelo dito apêndice facial.
Ao meio-dia fazem as suas incursões na Avenida Névski os preceptores de todas as nacionalidades com os seus educandos de colarinho de cambraia. Os Johns ingleses e os Cocôs franceses andam de braço dado com os pupilos entregues aos seus cuidados paternais e, com uma solenidade decente, explicam-lhes que as tabuletas sobre as entradas das lojas foram concebidas para, por meio delas, se saber o que se encontra dentro das respectivas lojas.
A Avenida Névski parece-me o equivalente russo da nossa Avenida da Liberdade quando esta foi criada como passeio público, ou seja, não tanto como um meio mas um destino, como aponta Gogol a respeito da grande artéria de São Petersburgo, um lugar onde também se ia para se ver e ser visto. O retrato impagável que ele faz do diferente tipo de transeuntes consoante a hora do dia poderia ter sido escrito com o olhar crítico e jocoso de Eça de Queirós, o mesmo se aplicando às reuniões sociais quer da burguesia arrivista quer da aristocracia frívola.
Gostam de discursas sobre literatura. (…) Não perdem uma conferência pública, nem que seja sobre contabilidade ou silvicultura. (…) Porque as barbas russas, apesar de cheirarem ainda a repolho, de modo algum gostariam de ver as suas filhas casadas coim alguém inferior a general ou, pelo menos, a coronel.
É nesta avenida que dois amigos, um pintor e um oficial, se cruzam com duas beldades. Numa decisão nada repelente, cada um decide seguir a rapariga que lhe caiu no goto, com resultados diferentes: um mais trágico, outro mais cómico, mas tudo a apontar para a farsa, de tão idiotas que as situações se tornam. A escolhida do pintor revela-se uma praticante da mais velha profissão do mundo, o que faz dele imediatamente um aspirante patético a salvador…
- É verdade que sou pobre – rematou Piskariov, finalmente, o seu longo sermão – mas vamos trabalhar. Tentaremos melhorar a nossa vida com o nosso esforço conjunto. Não há nada mais agradável do que conseguir tudo com os nossos próprios esforços. Eu pinto os meus quadros e tu, sentada a meu lado a bordar ou a fazer outro trabalho de mãos, inspiras-me, não nos vai faltar nada.
…enquanto o tenente descobre que a sua possível conquista é uma mulher casada, o que só atiça os seus dons de sedutor.
A estupidez constitui um encanto especial numa mulher bonita. Pelo menos, conheci muitos maridos entusiasmados com a estupidez das suas esposas e que vêem nela todos os sinais da ingenuidade infantil. A beleza pode produzir verdadeiros milagres. Todos os defeitos espirituais de uma beldade, em vez de causarem repugnância, tornam-se de algum modo incrivelmente atraentes. (…) Porém, se a beleza desaparecer, a mulher precisará de ser 20 vezes mais inteligente do que o homem para inspirar se não o amor, pelo menos o respeito.
Dois desfechos ridículos com uma lição de moral intemporal: nem tudo o que reluz é ouro.