Sabia que atravessar a fronteira com a Galiza, mais do que entrar em Espanha, significa estar numa terra irmã? Que o espaço da antiga Galécia romana, com capital em Braga, constituiu uma unidade até ao século XII e esteve na origem do reino e da língua de Portugal.
Desde então, mantiveram-se a continuidade das paisagens, a proximidade linguística, a intermitência dos diálogos culturais e a importância das relações transfronteiriças. o presente ensaio aborda a história e a cultura da Galiza, em diálogo com a evolução histórica de Portugal e, em especial, da Região Norte.
Foi escrito desde a história, mas também como uma aposta de futuro que permita entender que as identidades comuns da Galiza com Portugal poderão alcançar uma nova dimensão institucional e um importante peso regional no quadro da União Europeia.
Ramón Villares Paz (Cazás, Germade, Lugo, 1951) es un historiador español.
Se licenció en Filosofía y Letras, rama Historia, en la Universidad de Santiago de Compostela en 1973. Ese mismo año obtuvo el graduado con la memoria de licenciatura Los inventarios post mortem, como fuente para el estudio de la historia rural y la economía agraria, y en 1980 el doctorado en Historia con la tesis La evolución de las estructuras agrarias en la provincia de Lugo. Propiedad y rentas de la tierra, ambas dirigidas por Antonio Eiras Roel. La Universidad de Santiago le concedió en 1980 el premio extraordinario de doctorado en Historia, cursos 1977-1980, y la Universidad Internacional Menéndez Pelayo, en 1981, el premio a la mejor tesis en Filosofía y Humanidades presentada en España en 1980.
Desde 1987 es catedrático de Historia Contemporánea de la Universidad de Santiago de Compostela, de la que también fue rector de 1990 a 1994 y decano de la Facultad de Geografía e Historia entre 1986 y 1990. Además es, desde 2002, director del Arquivo da Emigración Galega del Consello da Cultura Galega. Fue miembro fundador y presidente de la Asociación de Historia Contemporánea entre los años 1996-2002, así como director en Galicia de la Universidad Internacional Menéndez Pelayo.
Participa en el consejo asesor de revistas como Ayer (Marcial Pons Ediciones de Historia), Historia Social (Valencia), Hispania (Madrid), Ler Historia (Lisboa) o Perspectivas Históricas (México). Es también miembro del Patronato del Museo do Pobo Galego y del Instituto de Estudios Gallegos "Padre Sarmiento", donde es, desde 1979, secretario de la sección de Geografía e Historia.
"Podem retirar-se as portas, mas permanecem os marcos", William Kavanagh
Em Portugal brincamos com a integração da Galiza no território português, e não é surpreendente, visto as relações entre a região do Minho e Galiza já ter séculos de ligações culturais, sociais e até de sangue. Também existe algum perverso sentido imperialista que remonta aos Descobrimentos, mas de todos os casos de ligação entre povos a Galiza é dos casos mais interessantes.
No entanto, a integridade territorial da Galiza já vem estabelecida desde o séc.XII. Ainda que na era medieval as fronteiras fossem altamente simbólicas, o Iluminismo e modernidade reforçaram-nas, e tornaram-se mais rígidas em 1640, após a restauração da dinastia de Bragança no trono português. Posto isto, será difícil para os putinistas do mundo ibérico confecionar uma reivindicação sem um completo revisionismo histórico.
Do ponto de vista galego, o nacionalismo galego moderno começou a transformar Portugal num ponto de referência onde enquadrava um conceito de pan-lusismo que tinha encontrado muitos ecos entre os intelectuais republicanos portugueses. Foi só no século passado que a irmandade entre as regiões ganhou uma dimensão política, que defendia uma aliança ou fusão entre Portugal e Galiza como expressão de uma nacionalidade atlântica, por oposição à nacionalidade castelhana e catalã. Mas apesar de memes e clamores, nenhum projeto tomou forma e não saiu dos sonhos e saudosismos dos escritores e intelectuais.
Também é importante frisar que o estreitamento de Portugal e Galiza, mesmo que desse numa união, a Galiza não tem interesse em ser portuguesa, mas galaico-portuguesa. A Galiza é uma região autónoma com a capacidade de integrar os seus próprios serviços, e que traz os seus obstáculos provenientes dos nacionalismos de Estado, espanhol e português, além do galego.
Por enquanto, temos de nos contentar com a característica Europeísta da abolição de fronteiras. A União Europeia retirou as portas entre Portugal e Galiza, substituindo o contrabando por comércio legítimo e um fluxo migratório integrante, mas os marcos permanecem entre as regiões e os respetivos Estados. Isto é verdade para quase todas as regiões fronteiriças dentro da União Europeia. Imaginem o caos que era se deixássemos um precedente como a unificação de Portugal e Galiza acontecer, mas a verdade é que as características fronteiriças da UE só vieram estreitar a comunicação entre as infra-estruturas e facilitar o intercâmbio de bens e pessoas, inclusive trabalhadores e turismo.
O autor deste livro defende que a Galiza adotou uma estratégia cultural enquanto Portugal adotou uma estratégia política, criando assim a divisão. Mas desde o século passado que as regiões se têm integrado cada vez mais, e considera que a "trágica" divisão pode ser superada ou pelo menos repensada. Este ensaio procura aprofundar essa conversa.
Uma história concisa da Galiza e também das suas relações com Portugal. O livro é bastante denso e a leitura nem sempre fácil para quem não esteja familiarizado com alguns temas (fazem falta algumas notas de rodapé), mesmo assim pode ser uma ótima porta de entrada para um diálogo que se vem fortalecendo há décadas já. Até porque é também um livro muito factual e moderado, que não assume um posicionamento radicalmente lusista, que acaba por ser contraproducente. A separação política das duas margens do Minho vem desde o século XII e não pode por isso ser ignorada, como bem explica o autor.
A existência do livro, nesta coleção de grande alcance, que pode ser comprado em Portugal numa caixa do Pingo Doce, é por si só prova da vitalidade deste novo diálogo lusogalego, também visível nas várias coproduções recentes entre a RTP e TVG. Para o seu fortalecimento institucional, continua sobretudo a faltar uma região Norte que fale em pé de igualdade com a Xunta galega, lá chegaremos também.
Foi provavelmente infeliz ter lido este livrinho logo a seguir a "The Discovery of France" de Graham Robb, que é fascinante e interessantissimo do princípio ao fim... enfim, muito formal, muito certinho, bem fundamentado, bem estruturado, muito correcto, mas sem alma. Compreendo que não fosse requisito, mas a mim fez-me falta.