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Paperback
First published January 1, 1988
Ilumina- se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
O sono — Oh, ilusão! — o sono? quem
Logrará esse vácuo ao qual aspira
A alma que, de aspirar em vão, delira,
E já nem força para querer tem?
Que sono apetecemos? O d'alguém
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir no qual a dor nos vem?
Ilusão tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O último anseio desesperado e vão.
Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.
Vive o momento com saudade dele
Já ao vivê-lo...
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos...
Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
Que a nossa consciência de nós seja
Uma coisa que nada já deseja...
Saber? Que sei eu? Pensar é descrer.— Leve e azul é o céu— Tudo é tão difícil De compreender!... A ciência, uma fada Num conto de louco...— A luz é lavada— Como o que nós vemos É nítido e pouco! Que sei eu que abrande Meu anseio fundo? Ó céu real e grande, Não saber o modo De pensar o mundo!
Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou;
E estamos os dois falando
O que se não conversou.
Isto acaba ou começou?
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.