«A melhor maneira de celebrar [a data do regicídio] é tentar compreender quem foi, de facto, esse monarca reformista. Isso pode (e deve) ser feito lendo a biografia que Rui Ramos escreveu, uma biografia que, e passo a citar Vasco Pulido Valente,"não é só uma biografia, é a história de uma época ou, mais precisamente, da decadência e queda do regime monárquico. Há muito tempo que não se escrevia nada de comparável. Céptico, penetrante, minucioso, D. Carlos diz mais sobre o país pobre a patético que somos do que toda a 'análise política' por aí à venda." Nem mais. [...] As 512 páginas de texto incluem vários anexos, uma cronologia detalhada, genealogias dos reis de Portugal (a da IV Dinastia inclui as ramificações até à actualidade), fontes, bibliografia e um utilíssimo índice remissivo. Também há portfolio fotográfico. O indispensável ponto de partida para um debate sério.»
RUI MANUEL MONTEIRO RAMOS nasceu a 22 de Maio de 1962, em Torres Vedras. É licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1985) e doutorado em Ciência Política pela Universidade de Oxford (1997). Ensinou na Faculdade de Letras de Lisboa (1985-1986), na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa (1998-2001), e na Universidade de Évora (2000). Actualmente, dirige seminários no Mestrado em Ciências Políticas da Universidade Católica (desde 2002) e no Mestrado em Política Comparada do Instituto de Ciências Sociais (desde 2003). É ainda Professor Convidado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Membro do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (desde 2012).
Enquanto historiador, especializou-se na história de Portugal dos séculos XIX e XX, estudando sobretudo os aspectos políticos e culturais. Tem-se dedicado em particular à investigação da época do final da monarquia constitucional e da I República. Foi um dos fundadores e membro do conselho de redacção da revista Penélope - Revista de História e Ciências Sociais (1988-2006) e um dos organizadores dos dois congressos de História Social das Elites (1991 e 2003). Foi condecorado pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em Junho de 2013 e foi vogal do Conselho das Ordens Nacionais da Presidência da República (2014-2016).
Em Outubro de 2002, a Academia Europaea outorgou-lhe a distinção de Burgen Scholar “in recognition of excellent academic achievement”.
Na imprensa, teve uma coluna semanal no Diário Económico (2005), e depois no Público (2006-2009), Correio da Manhã (2009) e Expresso (2010-2013). Colaborou em programas de debate semanal na RTP-N, TVI-24, SIC-Notícias e Canal Q, e fui autor da série de 12 episódios “Portugal de...”, da RTP-1 (2006-2007).
«D. Carlos» de Rui Ramos não é a biografia de um homem chamado Carlos de Bragança Saxe-Coburgo-Gotha, que por acaso foi rei de Portugal.É a biografia de um rei. É um livro de história, não é um romance. Um grande trabalho de investigação que resultou num livro sério, muito bem organizado e muito bem escrito.
A biografia do rei, mas também o retrato da decadência e queda do regime monárquico.
«Foi a morte de D. Carlos que criou uma situação nova, fechando certas portas e abrindo outras. Como disse Agostinho de Campos, é fácil matar um rei, mas ninguém sabe o que pode morrer com ele. Às vezes, é todo um mundo. Neste caso, o mundo da monarquia constitucional e do liberalismo, um mundo que apenas sobreviveu mais dois anos ao regicídio, para desaparecer de vez em Outubro de 1910.» - pág. 464
D. Carlos teve uma morte trágica, morto como um animal em pleno Terreiro do Paço. É por isso de estranhar que tenham sido publicadas tão poucas biografias sobre o penúltimo rei de Portugal. A de Rui Ramos distingue-se das escassas tentativas para tal empreitada por ser directa, imparcial, procurando outros pontos de análise desta polémica figura. O objectivo de Ramos é claro: acabar com as mentiras e falsos testemunhos que a Primeira República construiu acerca de D. Carlos e sua governação - em particular as caricaturas de um homem inculto, mais dado a caçadas do que à governação do País, e que o havia espoliado até à bancarrota. Rui Ramos escreve aqui, mais do que uma biografia do homem, uma biografia do Portugal de finais do século XIX, afectado pelo rotativismo serôdio entre Regeneradores e Progressistas e pela ascensão da oposição republicana. Para tal socorre-se de abundante documentação, principalmente fontes primárias, como as cartas do rei para João Franco ou José Luciano de Castro, a imprensa da época, os relatos de deputados do Rotativismo. A escrita é clara, os argumentos do autor solidamente alicerçados em documentação primária. Em suma, a melhor biografia sobre o malogrado rei alguma vez elaborada.
Very well written, detailed while not becoming weary and a great investigation work. The historiographic context (Chapter 1 - 'Misunderstood king') gives us a rich sum-up of this king's and reign image and opinions during his lifetime and after that - flawed with sentiments, ideology and political aims. Chapter 3 (King Charles - the last?) reveals to us the fragility of the political system and presents a more realistic view of the British Ultimatum of 1890 - the result of an exacerbation of internal politics and an attempt to shift from the British alliance to a multitude of agreements with the other major powers. Valuable considerations of the portuguese colonialism follow in the next pages and chapters. Chapter 6 (The King and his «friends») is instrumental to understand the place of the political figure that is the king and his reserve power ("Poder moderador"). Furthermore, how the portuguese constitutional monarchy differed from others like the British or German. Chapter 11 (The government that cannot fall) explains the myth of the dictatorship of João Franco. It was problematic not because it was tyrannical but because it tried to reshuffle the political scenery within the regime. This biography collection (portuguese kings and queens) is very welcome filling an important void and this particular work can only be one the best well-written.
Uma biografia muito detalhada e demasiada focada no contexto político do final do século XIX e início do XX. Respeito pelas fontes reais e apresentando as várias versões quando não coincidem. Um rei mal tratado pela República mas sobretudo vitima dos políticos. Fica a certeza que os políticos são muito maus desde a Revolução Liberal. Absolutamente incapazes de se preocuparem com o bem comum e o desenvolvimento de Portugal.
Esta obra obrigou-me a escrever a minha primeira review, dado que 5 estrelas não são suficientes. O Professor Doutor Rui Ramos consegue, com esta obra, mais do que uma grande biografia política de D. Carlos, uma fenomenal descrição detalhada do cenário político português durante a vida do monarca, quer como príncipe, quer como rei. O livro é extremamente lúcido e holístico, analisando todas as problemáticas pelos vários pontos de vista e oferecendo o contexto completo de cada acontecimento e decisão no meio político. O autor tem, aqui, a capacidade importante e difícil de julgar tudo pela lente da época em questão, sem cair na armadilha de usar uma visão anacrónica das ocorrências. Demonstra um claríssimo à-vontade com a política da segunda metade da monarquia constitucional. A obra demonstra uma pesquisa muito extensa e minuciosa, recorrendo a uma abundância de fontes primárias para todas as descrições e explicações. D. Carlos, uma figura tão rodeada de mitos, lendas e incompreensões, é aqui exposto e explicado com seriedade e cinismo, sem lugar para juízos ideológicos ou opiniões cegadas pelas correntes positivas e negativas que falaram do monarca depois do seu tempo. Por fim, e não menos importante, a obra apresenta um fantástico equilíbrio entre qualidade da prosa e rigor académico e histórico. Dificilmente virá a haver uma biografia de D. Carlos que chegue ao nível desta. 6 estrelas.