Flaskan, skogen, kistan och bron. För Ida och hennes syster Sanna och Filip med sina bröder och Nicklas, den faderslöse med ärret i pannan, kretsar livet kring till synes enkla ting och platser. En handfull ungdomar på landsbygden bränner tiden med whiskey och småprat, och köttets lust och själens eviga ensamhet driver Filip till att ställa sig på bron en dag. Han står där allt som oftast. Och ibland så hoppar han.
På landsbygden är människan herre över hundarna. Hundarna är rotade i denna ursprungsmark, där rötterna i jorden är det som håller människan kvar. Rötterna blir bara starkare och starkare och i vissa fall ger de en kraft att ge sig av, men för de allra flesta skapas band som inte kan kapas.
I romanen Hundarna får tillståndet sitt eget rum och personerna vi möter ställer de eviga frågorna om tidens gång, smärtans punkter och nuets stillastående tystnad. Ola Nilsson ställer i denna första del av en tänkt trilogi, in kikarsiktet på landsbygden och blinkar i skildringen åt Tage Aurell och den regionala realism som växte sig stark i Sverige på fyrtiotalet. Texten drar också mot amerikansk dirty-realism, och om man vill spetsa till det kan man kalla Hundarna "en jämtländsk country-noir".
År 2010 belönades Ola Nilsson med Norrlands litteraturpris för denna roman.
Ola Nilsson är författare och översättare. Han belönades med Norrlands litteraturpris 2010 för romanen Hundarna. 2015 belönades han med Svenska Dagbladets litteraturpris för romanen Isidor och Paula.
Num portentoso retrato humano retirado de uma tenebrosa Suécia, Ola Nilsson apresenta-nos vidas despedaçadas aos 14 anos. Pequenas (grandes!) tragédias pessoais povoam as curtas vidas de 5 personagens adolescentes, unidas por um irremediável desprendimento pela existência. Respirar, dar um passo, tomar uma decisão, olhar o outro nos olhos é uma morte lenta, um gradual afundar em areias movediças, um afogar-se nas trevas da floresta de troncos invisíveis que juncam o rio perdido. Corpos enlutados de si próprios, à deriva num mar de olvido, náufragos de uma náusea constante pela vida. E a salvação, o adormecimento pelo álcool.
Casa é a ponte, ponto de encontro, encruzilhada onde é semeado um caixão flutuante que demarca o território da morte. A matilha agrupa-se em torno das suas fraquezas refugiada no abrasador calor do vício. E olha mas não vê. E ri-se mas os lábios não se movem. E abraça-se mas não se toca. Abandonam-se e são abandonados, os jovens enrugados. Cães. Lobos.
“Os Cães” do escritor sueco Ola Nilson é o primeiro livro de uma trilogia composta por “Os Anjos” e “No Amor se Ancora a Memória”, ainda não editados em Portugal. Numa pequena aldeia do Nordeste da Suécia um grupo de cinco adolescentes – os rapazes Filip, Kalle e Nicklas e as raparigas Sanna e Ida (irmãs), com idades compreendidas entre os catorze e os dezasseis anos, deambulam sem rumo definido, sedentos de álcool e sexo, numa monotonia asfixiante e relacionamentos desastrados. Estes jovens reúnem-se na proximidade de uma ponte – que representa a transição para a modernidade – num tempo de ruína para as comunidades rurais, com o aumento do despovoamento e do desemprego, numa paisagem rural e florestal agreste e inóspita. “Os Cães” é um livro minimalista, num retrato de personagens adolescentes e gerações em conflito, condicionados por relações familiares complexas, num desespero silencioso e repleto de solidão e tristeza. A escrita de Ola Nilson é verdadeiramente convincente, conseguindo agrupar as personagens e as cenas individuais, numa narrativa equilibrada e poética, repleta de memórias, numa estrutura de genuína autenticidade. “Os Anjos” e “No Amor se Ancora a Memória” revelam-se de leitura obrigatória.
Somos todos um pouco cães. Mas estes jovens um pouco mais. Vivendo sem regras, entediados numa pequena vila, estes jovens estão sempre à procura de álcool. O ponto de encontro é debaixo de uma ponte, lembrando este livro um filme "Kids" com a banda sonora de "Under the Bridge", mas o ponto central do livro não é a meu ver o vazio e o desgosto da adolescência, mas sim a procura de sentido na entrada na vida adulta, em aceitar ou não um destino, numa localidade que pauta sempre pela morte. O livro é lido pela perspectiva de diferentes jovens, sobretudo por três irmãos, que se preparam para receber o pai em casa depois deste sofrer uma trombose. Em reflexão sobre o laço paternal e fraternal, eles acham-se muito diferentes mas no fim não deixam de ser cães da mesma laia.
No nordeste da Suécia, longe das comodidades e da vida confortável que o centro económico de Estocolmo e Gotemburgo oferece, há vilas, aldeias e pequenas cidades com pouca densidade populacional onde o dia-a-dia é deprimente, funcionando o álcool como analgésico.
Ola Nilsson (n. 1972), longe de ser muito famoso por estes lados, é um autor sueco vencedor do Prémio Literário Norrland 2010, que a Eucleia publica num catálogo que inclui outros autores nórdicos de grande interesse. Os Cães, primeiro capítulo de uma trilogia composta por Os Anjos e No Amor se Ancora a Memória), aborda a vida de cinco adolescentes presos na ruralidade de um nordeste sueco que pouco tem a ver com a imagem tradicional que o país exporta; a perigosa e misteriosa ponte onde a matilha de adolescentes, cujas idades variam entre os 14 e os 16 anos, passa os tempos livres, é o centro onde a acção deste curto romance decorre.
Esta ponte - que na minha opinião faz precisamente a ponte entre a adolescência e a vida adulta da aldeia – funciona como escape a um grupo de adolescentes que encontra, no álcool, sexo e mergulhos da ponte para o rio, uma espécie de local seguro, longe do resto do mundo, longe das suas famílias disfuncionais. Ola Nilsson imprime um carácter triste, sóbrio e directo às suas palavras, palavras que muitas das vezes contrastam com a imagem gráfica que o leitor absorve da narrativa; um dos aspectos mais duros e pesados da obra encontra-se nas interacções e relações familiares das personagens, pautados por uma certa distância entre pais e filhos, uma quase indirecta imposição de maturidade forçada que os progenitores impingem aos filhos.
Não obstante a vida independente na sociedade Sueca – nórdica, em geral – começar por volta dos 16 anos, em Os Cães há uma ausência de afecto e acompanhamento deste processo de independência que, a meu ver, os pais devem seguir de perto; a obra sugere várias vezes que são os mais novos que tratam dos mais velhos, invertendo assim os papéis da responsabilidade que liga os pais aos filhos.
O título do romance poderá estar ligado a esta capacidade de crescimento à força e falta de figuras paternais – ou figuras que se distanciam das crias demasiadamente cedo – que faz parte da vida dos cães, como é sabido. As pouco mais de cem páginas de Os Cães, ainda que curtas, escondem um alto impacto visual.