Voltaire, em pleno século XVIII, mostra-se consciente e, como o próprio argumenta, um filósofo verdadeiro, em apontar os animais como nossos irmãos, além de mostrar e desmentir a falácia cartesiana de que os mesmos seriam apenas máquinas. Porém, Voltaire analisa que tal pensamento não é propriamente seu; para isso recorre ao hinduísmo e a interessantíssima história (que os esotéricos iram pirar) de que Pitágoras havia ido atrás de magos indianos e, de lá, trouxera para o ocidente a ideia de abster da carne e, claro, não menos importante, suas teorias matemáticas.
De qualquer forma, Voltaire é original em seu pensamento em justificar sua escolha tardia de vegetarianismo através de pequenos contos fabulísticos (e quase infantis) usando os próprios animais, como em O Diálogo Entre um Capão e uma Franga (1763), contos esses que, bem explica no posfácio, foram por muito tempo execrado por analistas de sua obra por classificá-los estranhos e fora de tom de sua obra.
Como poderia o principal ator do Iluminismo a ter pena de animais?, argumenta Renan Larue na nota de posfácio. No mais, revisitá-lo (de maneira inédita em português) é se colocar diante de uma figura que seu tempo não poderia prever.