Na origem de tudo, uma nota. Galáxias, grãos de areia, você, tudo foi criado pela nota amarela, a nota da Criação, o som perfeito. Quando a cellista Jacqueline du Pré sobe ao palco para o concerto mais emblemático de sua vida, parte em busca dessa nota, sem saber o preço por sua audácia. Enquanto executa o Concerto para Violoncelo de Elgar – regido pelo maestro Daniel Barenboim, com quem recém havia se casado –, Jacqueline mergulha no labirinto da própria mente, atravessando claridades e escuridões à procura da perfeição. O cello, vivo junto a seu corpo, por vezes é a tábua de salvação que a impede de se afogar; por outras, o traidor que aponta o caminho mais perigoso entre as pedras e as ondas. A performance da jovem e talentosa musicista junto à New Philarmonia Orchestra foi registrada pelo documentarista Christopher Nupen, um testemunho do arrebatamento proporcionado e sentido por ela, e o livro cumpre uma das mais importantes funções da trazer a palavra para dentro do vazio das imagens. Depois daquela tarde em 1967, a violoncelista mais famosa do mundo, que tocava para reis e presidentes, entenderia as consequências de sua busca pela nota impossível.
Gustavo Melo Czekster é advogado, escritor e doutor em Escrita Criativa (PUC-RS). É autor dos livros de contos O homem despedaçado e Não há amanhã, com o qual venceu o prêmio Açorianos 2017, o prêmio AGES 2017 e o prêmio Minuano 2017, tendo sido finalista do Jabuti 2018. Em 2021, lançou o romance A nota amarela (Zouk), que foi semifinalista do Oceanos 2022 e vencedor do Prêmio Alcides Maya 2022, da Academia Riograndense de Letras.
A nota amarela, de Gustavo Melo Czekster, tem como protagonista a cellista inglesa Jacqueline Du Pré, cuja vida já foi tema de livros e do filme Hilary e Jackie, sobre a conturbada relação entre as irmãs, baseado em livro da própria Hilary. Mas o que interessa aqui não é a vida da musicista, mas a apenas um momento que foi filmado, por Christopher Nupen, em 1967, com Du Pré executando o Elgar Cello Concerto, sob a condução do seu marido, Daniel Barenboim.
A narrativa, que se dá inteiramente num fluxo de consciência de Du Pré, é um tour de force no sentido de captar a velocidade do pensamento da protagonista enquanto toca seu violoncelo. Da concentração na partitura às memórias, passando por uma mecha de cabelo que a atrapalha o tempo todo, do sublime ao mundano dentro da cabeça da personagem. Percebe-se que o autor conhece bem música, e, por isso, é capaz de escrever sobre questões técnicas de forma acessível e orgânica na narrativa, que anda de forma urgência e precisa.
Uma das coisas mais bem construídas nesse romance é a dessacralização do artista como um ser iluminado acima da humanidade. Du Pré é colocada, como qualquer artista, na categoria de trabalhadora. O cello entra como uma espécie de mediador, mas também ferramenta de trabalho – como qualquer outra. Se há algo de sublime na execução da peça – e há – está no plano material da produção artística – na produção de uma mercadoria. É muito sagaz que o livro consiga construir essa percepção a partir de um momento registrado de Du Pré – a gravação está no youtube, e o livro traz o endereço.
Poucos anos depois dessa filmagem, como se sabe, a artista foi diagnosticada com esclerose múltipla, o que a fez encerrar sua carreira. No romance, ela dá os primeiros sinais do que aparenta ser essa condição. Já a tal nota amarela do título tem origem chinesa, e é algo transcendental, com a qual Du Pré se digladia durante o concerto. Encontrar essa nota inigualável é chegar perto Deus, mas também pode ter o mesmo potencial destruidor, assoberbador para um artista. Talvez seja melhor mesmo não atingir esse nível.
É impressionante a paixão com que Gustavo Czekster se concentrou em seu tema e a técnica com que o controlou. Sem estragar a surpresa, só posso acrescentar que é ótimo.
A ideia do livro é muito interessante. Entretanto, o romance na verdade é um grande fluxo de consciência, algo de que não gosto tanto assim. Para mim, a segunda parte do livro, o ensaio, foi a melhor, escrita com seriedade mas também muito bom humor.