Por que vivia o Diabo nos aposentos de Valeria? Então não pensava nisso (e Valéria também nunca o soube). Era algo natural como eu viver no aposento das crianças, o papá no escritório, a avó no retrato, a mamã no tamborete do piano, Valéria no Instituto Catarina II, e o Diabo nos aposentos de Valéria. Então era um facto. Agora sei-o: o Diabo vivia nos aposentos de Valéria, porque nos aposentos de Valéria, transformada em armário para livros estava a árvore da ciência do bem e do mal, cujos frutos, As donzelas de Lujmanova, Em volta do mundo no Milão, de Staniukovich, Catacumbas, de Evgueni Tour, A família Bor-Ramenski e anos inteiros da revista Rodnik (O Manancial), devorava com grande avidez e pressa, com sentimentos de culpa, mas sem poder conter-me, olhando sempre para a porta, como outros para Deus, mas sem atraiçoar nunca a minha serpente.
Tsvietaieva (vou manter a grafia desta edição), contrariamente a outros artistas - com uma grande exceção protagonizada pelos auto-intitulados poetas malditos - não associa o seu dom ou a sua paixão a deus, mas sim ao diabo. Esse diabo é presença (física e espiritual) frequente nas suas recordações (leia-se no seu mito) e ajuda a escrever a sua vida a partir desse ponto.
Com o Diabo eu tinha uma linha própria, inata, uma comunicação directa. Um dos primeiros secretos horrores e horrorosos segredos da minha infância (a minha primeira infância) era: «Deus-Diabo!» Deus com o tácito, aterrador e invariável complemento: Diabo.
Parte autobiografia ficcionada em contos (contos com muitas reticências, e apenas para dar conta do tamanhos dos textos), parte ficção autobiográfica, O Diabo, pequena coleção de seis textos sobre a vida de Tsvietaieva, é uma viagem assombrosa pela infância real e ficcionada da poetisa (talvez nem a 50% seja possível aferir o que é, de facto, autobiográfico daquilo que é fantasia) que, profundamente mística, encontra desde cedo, nas palavras, a desconstrução dos símbolos que a irão perseguir e maravilhar:
Naftalina, traça, dote, patchuli - nenhum sentido, a mais pura magia.
Esse amor às palavras é o fio condutor destes textos, juntamente com as influências espirituais e artísticas que se lhe impunham por proximidade familiar ou simples rebeldia simbolista.
A sua religião é a recusa do rito, da praxe, e a aceitação mais profunda de uma espiritualidade onde o temor não se coaduna com a contemplação:
Por causa dos sacerdotes - a montanha prateada das costas do sacerdote, que é montanha apenas para dissimular - também Deus me parecia um terrível sacerdote, mas ainda mais terrível que o monte prateado: Ararat. E os três carneiros da lengalenga infantil: «No Ararat três carneiros gritavam...» claro, gritavam de medo, por terem ficado sozinhos com Deus.
Deus era para mim - o medo.
Nada, nada além do mais mortal aborrecimento, frio como o gelo e branco como a neve, durante toda a minha primeira infância e na igreja não senti Nada além de um melancólico desejo: quando é que isto acabará? e a consciência desesperançada: nunca. Era pior que os concertos sinfónicos na Sala Grande do Conservatório.
Para Tsvietaieva, criada num cenário profundamente ortodoxo - austero - e adulto, o diabo representa a transgressão, mas também o reencontro, a reaproximação, a redescoberta e a unidade máxima do ser consigo, o consolo e a libertação:
Deus era - alheio, o Diabo- próprio. Deus era - o frio, o Diabo - o calor. E nenhum dos dois era bom. E nenhum deles mau. Mas eu amava um deles e ao outro não. Conhecia um, o outro - não. Um amava-me e conhecia-me e o outro - não.
A um deles impunham-mo, arrastando-me para a igreja, fazendo-me permanecer de pé durante o serviço, com os candelabros de cristal diante dos ícones, com os acrónicos e faraós que de vido ao sono se duplicavam: separavam-se e encontravam-se de novo diante dos meus olhos e com toda a incompreensibilidade do idioma eslavo. A um - chegava por si e ninguém o sabia.
Esse diabo, como estas narrativas, forjam o mito Tsvietaieva, e como tudo é mito, como não existe o não-mito, o alheio-ao mito, o fora-do-mito, como o mito se antecipou e de uma vez para sempre cinzelou tudo, a poetisa jamais se irá descolar da força destas imagens que vai deliberadamente criando. Embora não cheguem para explicar tudo, a morte, a arte, a igreja, a família etc são partes que formam o todo da sua vida e obra, e são, nestes textos, as partes maiores desse todo.
Toda ela mística, mulher e obra, apresentam-se de forma muito própria, às vezes hermética, obscura e pouco legível - mas essa escrita roça já as margens da poesia e assim deve ser entendida e sentida mais do que esmiuçada.
Tsvietaieva, um pouco como Mallarmé - para voltar aos malditos - também me parece o tipo de poeta que é intraduzível, mesmo na sua língua.
Se as mães dissessem com maior frequência coisas incompreensíveis aos filhos, esses filhos, ao crescer, não apenas compreenderiam mais, mas actuariam com maior segurança. Não é necessário explicar o que quer que seja a uma criança é necessário enfeitiçá-la. E quanto mais misteriosas forem as palavras do feitiço, mais profundamente se enraizarão na criança, mais indiscutivelmente actuarão nela: «Pai nosso, que estás nos céus...»
O Conto de Minha Mãe
⭐⭐⭐⭐
O Diabo
⭐⭐⭐⭐⭐
A Torre Coberta de Hera
⭐⭐⭐⭐⭐
As Flagelantes
⭐⭐⭐⭐⭐
A Casa do Velho Pimen
⭐⭐⭐⭐
A Minha Mãe e a Música
⭐⭐⭐⭐
As coisas que mais amo no mundo: a música, a natureza, a poesia e a solidão.
(...)
A vida é uma estação, em breve partirei: para onde - é coisa que não penso dizer.