Este livro foi decididamente uma viagem. Sobretudo porque, não encontrando fonte alguma que explicasse o seu teor (exceto que era uma 'teodiceia', o que me parecia algo vago) e dele não sabendo nada exceto que era um clássico da filosofia portuguesa, apercebi-me para minha grande surpresa que Sampaio Bruno não me facilitaria a vida: ia eu a meio do livro e continuava sem perceber qual era o propósito deste longuíssimo ensaio. Não que estivesse desinteressado; muito pelo contrário, na verdade. O autor ia fazendo considerações sobre isto e aquilo, passando de descrições de experiências pessoais da sua vida para a história da filosofia portuguesa na época moderna, sem parecer decidir-se por tema algum; mas com tal arte para fazer transições que nem era possível aperceber-se que se saía de um tema até que Sampaio já estava enterrado na análise de outro.
Mas lá para o meio do livro, finalmente se decide o autor a focar na ideia de Deus, que deu, afinal, o título a este livro. É então que engenhosamente argumenta uma defesa do seu deísmo racionalista, contra o materialismo que começava a estar em voga e contra o dualismo idealista. Neste processo, passa a rever as provas da existência de Deus (os argumentos ontológico e cosmológico, sobretudo) antes de chegar à sua própria justificação para a existência da divindade. Ora eu, agnóstico com queda para o materialismo, não posso deixar de observar que, por engenhoso que seja o argumento, não é de maneira nenhuma argumento imbatível ou inviolável - mas, em boa verdade, que argumento é? Quod nihil scitur, refere o próprio autor a algum momento do texto.
Ainda assim, a conclusão a que chega não deixa de ser interessante: o Tempo é Deus. Não um atributo de Deus; é (como a acessível forma única originária da ideia suprema mesma) Deus: homogéneo, infinito, continuo, imutável, absoluto, necessário. Curioso que esta ideia desenvolvida por um filósofo português no início do século XX conserve, pelos parâmetros atuais ainda o seu quê de frescura, de elegância, e até de relevância. A série Dark, por exemplo, joga com uma ideia semelhante, ainda que não exatamente correspondente à visão deste filósofo.
Enfim, fascinante. E resumindo, porque não cabe aqui fazer um resumo da ideia de Deus defendida por Sampaio Bruno, termino por dizer que quer se concorde quer não com o raciocínio apresentado, este muito injustamente esquecido livro é uma ótima escolha para qualquer leitor amante de filosofia.