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O Sol Bailou ao Meio-Dia A Criação de Fátima

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Cem anos depois do «milagre», subsiste a questã culto espontâneo ou fenómeno produzido e promovido pela Igreja Católica? Com as «aparições» de Fátima, nasceu na Cova da Iria um culto popular que depressa se propagou num país católico, analfabeto e dado a devoções, atravessando à época um momento dramático da sua história. Em boa hora o sol bailou para a Igreja Católica - que enfrentava uma aguerrida laicização do Estado e a perda de privilégios -, que transformou o culto num sucesso mundial e o instrumentalizou a seu favor. No ano do centenário das «aparições» de Fátima, nova edição do corajoso livro O Sol Bailou ao Meio-Dia, agora em formato económico com cantos redondos.

Paperback

First published March 1, 2011

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About the author

LUÍS FILIPE TORGAL é Licenciado em História e Mestre em História Económica e Social Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é doutorando em História. Professor da Escola Secundária de Oliveira do Hospital, colaborador de investigação do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20), é fundador e coordenador da revista Ipsis Verbis (Oliveira do Hospital). É autor do livro As aparições de Fátima. Imagens e representações (2002), refundado e reeditado com o título O sol bailou ao meio-dia. A criação de Fátima (2011) e de Tomás da Fonseca: missionário do povo - uma biografia (2016). Organizou e prefaciou a reedição do livro de Tomás da Fonseca Na Cova dos Leões. Fátima: Cartas ao cardeal Cerejeira (2009) e a edição de uma antologia da obra do mesmo autor, intitulada Religião, República, Educação (2012). Colaborou nas obras História de Portugal em Datas (1994), História Comparada – Portugal, Europa e o Mundo (1996), Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-74) (2004) e Dicionário de História da I República e do Republicanismo (2013-14). Proferiu algumas conferências em Portugal e no Brasil e é autor de diversos artigos científicos ou de intervenção cívica em blogues ou revistas e jornais locais, regionais e nacionais.

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Displaying 1 - 3 of 3 reviews
Profile Image for Maria.
275 reviews158 followers
August 13, 2026
Apesar do tom documental e algo rígido da escrita - não se tratando propriamente de uma obra literária -, Luís Filipe Torgal prima por uma investigação cuidada, rigorosa e, sobretudo, imparcial. O autor não procura tomar partido quanto à veracidade das aparições, mas antes documentar meticulosamente os acontecimentos que tiveram lugar na Cova da Iria em 1917, recorrendo a cartas, artigos de imprensa, testemunhos e entrevistas da época e dos anos que se seguiram.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é precisamente o enquadramento histórico e social que acompanha a narrativa. A gripe pneumónica, o anticlericalismo da Primeira República e a Primeira Guerra Mundial constituem elementos essenciais para compreender não só o contexto em que o fenómeno de Fátima surgiu, mas também a forma como foi sendo construído, interpretado e amplificado nas décadas seguintes, de acordo com as circunstâncias políticas e sociais do país.

Mais do que uma análise das aparições em si, o livro acaba por oferecer um retrato impressionante da sociedade portuguesa rural do início do século XX: das suas crenças, medos, tensões sociais e relação com a religião e com as instituições.

Aconselho vivamente a leitura a todos os interessados por História e Sociologia, sobretudo a quem tenha curiosidade em compreender Fátima não apenas enquanto fenómeno religioso, mas enquanto fenómeno profundamente enraizado na sociedade portuguesa do seu tempo.
Profile Image for Leo Abrantes.
24 reviews
March 5, 2011
Uma excelente visão de como o fenómeno de Fátima foi aproveitado para a questão religiosa. A evolução do culto, de uma simples curiosidade que facilmente cairia no esquecimento, para se tornar num fenómeno de massas enquadrado ideologicamente pela Igreja católica para servir de arma contra os "males" do mundo.

O livro é uma revisão de um outro lançado em 2002 pelo mesmo autor, com o título As aparições de Fátima: Imagens e representações, com algumas substanciais revisões e adições.

O livro não se debruça sobre a veracidade das aparições, ou seja, a questão de terem sido um fenómeno concreto e real não é o enfoque desta obra – apesar de ser notória a posição do autor. Trata-se sim de analisar como o evento sendo construído ao longo dos anos para se tornar o fenómeno que Fátima é hoje, no contexto nacional e internacional. É, acima de tudo, uma análise do fenómeno, da contextualização do mesmo no século XX português e na forma como foi aproveitado para dois campos muito específicos da realidade portuguesa.

Talvez seja necessário relembrar que o final do século XIX e o início do século XX foi marcado por dois campos antagónicos, politica e ideologicamente, o campo do republicanismo – anti-clerical, anti-monárquico – e o campo mais conservador, ligado à monarquia e à posição da Igreja. Não deve ser ignorado o ataque que a Igreja sofreu neste período. Também não deve ser esquecida a visão real do país nesta conjuntura – um país extremamente dividido entre uma sociedade urbana, reduzida em termos populacionais e um país rural, maioritariamente analfabeto.

O que tornou as aparições de Fátima um caso extraordinário? Numa análise fria, exactamente a questão de ter acontecido naquele momento histórico específico. Poderia ter sido apenas uma mera curiosidade no conjunto da religiosidade popular. Acontece, que o ano de 1917 não é um ano como 2001. Um ano marcado por convulsões sociais e políticas específicas com a agravante da Europa estar em guerra e Portugal ser um infeliz participante.

São estes dois campos que fazem das aparições em Fátima aquilo que Fátima se tornou hoje. E para isso contribui a recém formada opinião pública – nascida das convulsões do século XIX, com o advento dos jornais – do peso que a palavra escrita foi tendo ao longo destes tempos, não obstante o facto da sociedade portuguesa ser maioritariamente analfabeta. O autor não demonstra qualquer pudor em demonstrar como a propaganda intelectual, republicana e revolucionária contribuiu para dar trunfos, se bem que inconscientes, diria mesmo ingénuos, para o nascimento de toda a mística em redor de Fátima como exponente de uma luta entre o movimento anti-clerical e a reposição de um sentimento divino religioso.

Para avaliar de que maneira as aparições provocaram as paixões e o repúdio de ambos os campos, as fontes que o autor privilegiou foram os media portugueses da altura, de ambas correntes políticas e ideológicas. Os relatos que serviram de base para esta obra encontram-se, na íntegra, em anexos no final do livro, com excepção – infelizmente – das reproduções dos interrogatórios feitos a Lúcia em 1917 e também do relatório Oficial da Comissão canónica Diocesana de 1930.

Uma grande surpresa foi ver que que nem sempre os jornais da época corresponderam à sua corrente ideológica. Por exemplo, o grande motor para o desenvolvimento do fenómeno foi o relato de Avelino de Almeida, enviado do jornal republicano O Século para relatar as aparições de Outubro e que “parece mesmo demonstrar alguma disposição para aceitar tratar-se de um facto sobrenatural (…)”. Será este artigo e outro do mesmo autor publicado na revista Ilustração Portuguesa que irão ser “invocados como prova insuspeita da ocorrência do milagre.” [pag. 49].

Ao mesmo tempo, surgem do campo conservador e católico posições cépticas e de alguma reserva, como é o caso de um artigo publicado no periódico A Ordem sob a pena do pseudónimo de Domingos Pinto Coelho, que, como curioso, esteve em Fátima no dia 13 de Outubro. Relata como o sol, tendo surgido após ter estado encoberto de nuvens, provocou imediatamente um efeito de admiração, pela sua aparente anormalidade. No entanto, o mesmo fenómeno será visível, dias depois, em condições atmosféricas análogas.

Ao longo da análise, estará patente a evolução dos relatos pela vidente Lúcia, que numa primeira fase, demonstram uma simplicidade extrema, passando depois pela construção ideológica da Igreja, através da disciplina, ordenamento (compra dos terrenos da Cova da Iria por elementos católicos logo nos anos 20), controlo e, por fim, oficialização do culto, contando, para isso, com governos que logo a partir de 1918 desenvolveram tentativas de aproximação à Igreja.

Nas palavras de Fernando Rosas no prefácio, “Numa primeira fase, Fátima é um pólo da cruzada pela restauração do país cristão (…). A partir da segunda metade dos anos 30, sob os ventos da guerra civil de Espanha Fátima torna-se um símbolo internacional da resistência internacional: o pólo de irradiação moral da resistência ao comunismo (…)”

A introdução feita por Fernando Rosas é apenas uma de entre as várias introduções que este historiador fez para as mais recentes edições da Tinta da china e que se centram nas comemorações da República. Convém igualmente dizer, que Fernando Rosas, como professor da Universidade Nova de Lisboa, especialista em História Contemporânea portuguesa, é uma presença incontornável neste campo da historiografia daquela universidade.
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Profile Image for Tuba.
5 reviews
December 2, 2012
Relato do que realmente se passou na construção do "milagre" de fátima. Possui extensas evidencias documentais que nos demonstram o processo de fabricação do mito desde os primeiros momentos em que o padre Formigão (principal idiólogo e promotor do caso), passando pelos relatórios das entidades oficiais da altura declarando a deficiência mental de Lúcia e o subsequento efeito de "bola de neve" aproveitando a credulidade das pessoas simples.
Muito bom para saber como se fabricam santos e milagres...
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