Apesar do enredo desta peça estar longe dos grandes temas da tragédia grega ou dos da comédia aristofânica (os meus predilectos até agora e que fundamentam o meu fascínio por estes clássicos), sinto-me sempre enormemente grata e priveligiada por terem chegado até aos nossos dias estes pequenos "pedaços" de história, testemunhas vivas do nosso passado civilizacional.
Desenganem-se aqueles que julgam estas obras inacessíveis ou de difícil leitura. Esta é essencialmente uma peça leve, de comédia, uma farsa cheia de intrigas e volte-faces, que procura entreter e fazer rir o espectador (neste caso leitor). O autor é latino mas esta trama tem como cenário Atenas, sendo protagonizada por personagens gregos (Plauto terá adaptado uma peça grega já existente para o público romano). Assistimos nesta obra a como Epídico, um escravo que poderíamos chamar nos dias de hoje de "desenrascado", "chico-esperto" ou quem sabe de uma forma mais moderna e respeitosa, um "problem solver" 😁, tenta cumprir as ordens da familia a que pertence, onde nem sempre as firmes directrizes do pai Perífanes são compatíveis com os voláteis desejos do filho Estratípocles.
Uma comédia em contexto familiar. Mas apesar dos diversos (e criativos) expedientes de Epídico, não me foi possível achar piada a uma peça que assenta em abusos e desigualdades várias. Em igual situação me encontrei quando li a comédia "O Eunuco" de Terêncio (outra peça latina). Contudo, obviamente é necessário contextualizar na época e na sociedade para a qual foi escrita. Retirei pois destas últimas duas obras mencionadas, não o entretenimento ou o prazer para o qual inicialmente foram concebidas, mas aprendizagens sobre teatro, literatura e história que se vão acumulando, modificando e acrescentando a cada peça e autor lido, pelo que esta nova incursão nos clássicos greco-latinos, foi uma experiência bastante válida, que gostei de ter feito, e que desejo continuar a realizar.