O Chico Buarque justifica cada atitude e maneirismo das personagens, como se as tivesse estudado em laboratório... parecem animais selvagens, parece às vezes que estou a "ler" uma animação em que todos os maneirismos são exagerados, como num filme Ghibli, que também deriva das décadas de experiência em people-watching que tem o Miyazaki.
Provavelmente o Chico pensa assim o seu dia-a-dia, vendo narrativa e poesia em tudo o que surge. Sinto que está a projetar-se no Benjamim quando diz que este "tem do passado uma impressão tão nítida, que a actual paisagem mais lhe parece uma reminiscência". É fascinante ver o produto de alguém com esta capacidade de compreensão do humano que eu ainda não tenho, e provavelmente não vou ter, com esta memória de merda.
A narrativa não linear é estranha mas depois de habituado fiquei viciadão. Tudo flui quase como que num filme do Lynch, ou num sonho, o que faz sentido dado que a história acontece desde o momento em que Benjamim está a ver a sua vida a andar para trás. Como não me importo de às vezes não perceber um caralho daquilo que estou a ler ou a ver, e incluo isso como algo essencial à minha experiência, curti muito deste livro