Neste livro se reúnem crónicas com que o escritor moçambicano colaborou com a imprensa de Moçambique durante os dois últimos anos da década de 80. Este conjunto de textos mereceu o Prémio Anual de Jornalismo Areosa Pena, atribuído pela Organização dos Jornalistas Moçambicanos em 1989.Mais do que crónicas estes textos são pequenos contos condensados de forma a se enquadrarem no espaço dos jornais a que se destinavam. Aos textos inseridos nos jornais de Moçambique, o autor acrescentou outros inéditos. Uns e outros estão profundamente marcados pela arte de recriar a língua portuguesa que caracteriza toda a escrita deste autor africano.
Journalist and a biologist, his works in Portuguese have been published in more than 22 countries and have been widely translated. Couto was born António Emílio Leite Couto. He won the 2014 Neustadt International Prize for Literature and the 2013 Camões Prize for Literature, one of the most prestigious international awards honoring the work of Portuguese language writers (created in 1989 by Portugal and Brazil).
An international jury at the Zimbabwe International Book Fair called his first novel, Terra Sonâmbula (Sleepwalking Land), "one of the best 12 African books of the 20th century."
In April 2007, he became the first African author to win the prestigious Latin Union Award of Romanic Languages, which has been awarded annually in Italy since 1990.
Stylistically, his writing is heavily influenced by magical realism, a style popular in modern Latin American literature, and his use of language is inventive and reminiscent of Guimarães Rosa.
Português) Filho de portugueses que emigraram para Moçambique nos meados do século XX, Mia nasceu e foi escolarizado na Beira. Com catorze anos de idade, teve alguns poemas publicados no jornal Notícias da Beira e três anos depois, em 1971, mudou-se para a cidade capital de Lourenço Marques (agora Maputo). Iniciou os estudos universitários em medicina, mas abandonou esta área no princípio do terceiro ano, passando a exercer a profissão de jornalista depois do 25 de Abril de 1974. Trabalhou na Tribuna até à destruição das suas instalações em Setembro de 1975, por colonos que se opunham à independência. Foi nomeado diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) e formou ligações de correspondentes entre as províncias moçambicanas durante o tempo da guerra de libertação. A seguir trabalhou como diretor da revista Tempo até 1981 e continuou a carreira no jornal Notícias até 1985. Em 1983 publicou o seu primeiro livro de poesia, Raiz de Orvalho, que inclui poemas contra a propaganda marxista militante. Dois anos depois demitiu-se da posição de diretor para continuar os estudos universitários na área de biologia.
Além de ser considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, é o escritor moçambicano mais traduzido. Em muitas das suas obras, Mia Couto tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, publicado em 1992, ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995 e foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué.
Na sua carreira, foi também acumulando distinções, como os prémios Vergílio Ferreira (1999, pelo conjunto da obra), Mário António/Fundação Gulbenkian (2001), União Latina de Literaturas Românicas (2007) ou Eduardo Lourenço (2012). Ganhou em 2013 o Prémio Camões, o mais importante prémio para autores de língua portuguesa.
Continuo a perguntar-me como é que este senhor "imagineiro" ainda não recebeu o Nobel da literatura. Nem todas as histórias são excecionais, mas são a beleza e a criatividade da linguagem que mais enleiam.
«Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.»
«Tímidos dedos roçam a vidraça. É a chuvinha, tão leve, tão menina que só pode tombar por lapso do céu. Parto prematura da nuvem, a chuva não cria poça, nem deixa descendência. Extingue-se, sorvida sem vestígio. E a areia nem se mexe. O aguaceiro foi só cócega na imensa pele do mundo.»
«(…) O país que tinham obrigara-os a viajar mas não os deixara nunca partir. Para onde quer que fossem levavam a sua terra. A saudade que tinham nascia de estarem longe de si mesmos.»
«Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso. E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir. Seus sonhos vão à frente de seus passos. Os homens nasceram para desobedecer aos mapas e desinventar bússolas.»
Das melhores leituras até agora. "Mya Kowto" passou a ser dos meus escritores favoritos pela maneira como usa toda a linguagem para fintar e trocar o leitor, ferindo-o com o golpe acutilante que apresenta nestes "simples" contos.
Índice: A carta A sombra sentada Lénine na cabeceira O viajante clandestino Sangue da avó, manchando a alcatifa A ascensão de João Bate-Certo A velha e a aranha Lixo, lixado O gato nacional O dia em que fuzilaram o guarda-redes da minha equipa O Januário, ou melhor: o Januário O jardim marinho Lágrimas novas para as velhas damas A rua de pernas para o ar O filho da morte A lição do aprendiz Mulher roxa em vestido laranja Natural da água Balões dos meninos velhos Pingo e vírgula Pela gravata morre o tímido A prenda do viajante As medalhas trocadas Mezungos A mancha O rio que bebeu o homem Um pilão no nono andar Entre a missa e as misses O homem com um planeta dentro Sangue da atriz no cinema da vida No zoo-ilógico Animais, animenos O monstro infantil O secreto namoro de Deolinda. Ossos do ofício O retro-camarada O cabrito que venceu o Boeing. A culatra saiu pelo tiro Os anjos embriagados A derradeira morte da estátua de Mouzinho Sonhar de bicho Escrevências desinventosas A morte nascida do guardador de estradas África com kapa? Carta entreaberta do corrupto nacional O português, as raças, os corvos Amar à mão armada ou armar a mão amada? Pescador na ida, herói na chegada O Gentipó, suas gentis poeiras