Esta é a história de um homem e de uma mulher, Lucas e Vanessa. Do seu amor trágico, como são todos, e de uma Cidade com vista para muitas vidas. Também é a história de uma doença e de uma saída de cena, de uma frustração que não se cura. Ontem, na Floresta de Teutoburgo, onde fracassaram as legiões de Públio Quintílio Varo, hoje, em Massamá, onde acaba de ruir uma hipótese de redenção. Nos dois casos, o mesmo desenlace, com mais ou menos Império em pano de fundo. No lugar do traidor Armínio, motivado pela ambição, apresenta-se João, portador de um evangelho com saída para lugar nenhum. A estação de comboio, o trabalho, o vaivém daqueles que vivem de par em par com aquilo que lhes está destinado. O acaso. Crónica de uma, duas mortes anunciadas, a segunda por decisão natural de Vanessa, mulher investida de toda a autoridade. Faltam dois minutos e picos, 127 segundos, pouca-terra, pouca-terra, é só o que ela pede. Ou pelo menos que lhe seja leve.
PEDRO VIEIRA nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde reside. Licenciado em Publicidade e Marketing pela Escola Superior Comunicação Social, trabalha no Canal Q das Produções Fictícias como criativo, e é atualmente a cara do programa diário Inferno. Trabalhou como livreiro nos grupos Almedina e Bulhosa Livreiros e como designer no Centro Cultural Olga Cadaval. Fez formação adicional na área da Ilustração, que exerce em regime free lance, em cursos promovidos pela Ar.Co e pela Fundação Calouste Gulbenkian. É ilustrador residente da revista LER. Blogger indefectível, criou o irmaolucia e é co-autor do Arrastão. Publicou em 2011, com a Quetzal Editores Última Paragem, Massamá, o seu primeiro romance, distinguido com o Prémio Revelação do PEN Clube Português. Em 2012, reuniu as crónicas do irmaolucia no Canal Q, no volume Éramos Felizes e Não Sabíamos.
Trouxe este livro de uma troca e na altura prometi que não o podia deixar esquecido na estante. Foi durante o #lerosnossos que resolvi pegar nele e conhecer a escrita de Pedro Vieira (escritor, ilustrador e bloguista). Descobri, depois de o ler, que com este livro ganhou o prémio P.E.N. Clube Português para Primeira Obra em 2012.
Entrei nas primeiras páginas com estranheza, sem perceber o que o autor me queria dizer, foi só depois de umas páginas que começou a fazer sentido. O livro começa com o trágico final, as personagens estão reunidas no mesmo sítio e cada uma delas nos é apresentada de forma muito pouco convencional. Começamos por saber para onde se dirigem, o que pretendem, as suas preocupações, as frases que ecoam nas suas cabeças. E se ao início não conseguimos ver os fios que os unem, ao longo da narrativa vai-se tornando cada vez mais claro.
Apesar de a história não me ter fascinado, senti-a demasiado real (e talvez por isso banal), a escrita surpreendeu-me muito. Custou-me um pouco entender a sua lógica porém acabou por fluir muito bem. Deu para conhecer uma escrita muito rica, bem apresentada, o autor parece ser mestre na utilização e manipulação das palavras. Vou querer ler mais.
Conhecemos as personagens num embate: primeiro, Públio Quintílio Varo; depois, Vanessa. Os dois se suicidam, uma amostra da queda dos impérios - a derrocada, quando o mundo que conhecemos pára de se expandir. Fracasso.
Vanessa, Lucas e João compõem o triângulo amoroso que brota em horário nobre. As restantes pessoas do comboio desenham o ambiente inicial, mas perdem a força com o inevitável afunilamento no trio. São seres mundanos (consequências da crise), sem traços físicos: um símbolo de nada. Ao longo dos capítulos, assimilamos os três tristes tigres enquanto representações realistas dos anos da morte lenta, de transe elegíaco. E é na alternância entre ida e volta, subúrbio e cidade, que os comboios reforçam o contraste visual entre as pontes que dividem, mais do que nos ligam.
Massamá, no papel da carruagem e do bilhete, é uma paragem intermédia; aqui, é a última. O início do livro, é o ponto final da vida de Vanessa (que é atraso, inconveniência, distúrbio para terceiros). No que a isto antecede, há HIV e homossexualidade, traição e martírio.
São histórias dessas vidas, aquelas que ignoramos por querer-lhes ser o exato oposto. A banalidade da pessoa portuguesa, persona de encanto, desde que seja em comparação com a baixeza. Uma caricatura de todo/as que não sabem como existir por si mesmo/as; a desventura de viver quando não se sabe por e para que se vive.
Um narrador que consigo goza, em rodopios de raciocínio excêntricos (e bem-feitos), nos quais alterna entre o bom-senso e o cântico da vida reles.
"Última Paragem, Massamá", o primeiro livro de Pedro Vieira, foi uma muito agradável surpresa. Poderia dizer-se que sou suspeito, pois morando em Massamá e conhecendo muito bem a linha de Sintra (ferroviária), me foi mais fácil identificar alguns elementos que o autor nos "atira à cara" em cata dupla, mas são poucas essas referências no conjunto de termos que PV utiliza num estilo muito próprio e perfeitamente original para descrever situações e personagens. É um romance centrado em duas personagens - Lucas e Vanessa - mas é também um livro sobre o mundo suburbano que rodeia a cidade. Deveras interessante e a fazer ter vontade que Pedro Vieira nos dê mais livros...
Um bom livro sobre a suburbanidade Portuguesa, uma realidade presente na vida de muitos mas que nunca foi devidamente retratado pela literatura moderna Portuguesa. É bastante interessante a forma irónica como o autor consegue retratar a rotina diária de uma grande parte da classe trabalhadora que depende do centro urbano de Lisboa para ir vivendo. De notar também a maneira despreconceituosa como o autor aborda a homosexualidade. È Realmente uma paródia à classe média e média baixa do Portugal moderno. Recomendo este livro a quem se interesse por Urbanismo nomeadamente Ordenamento do território ou neste caso por vezes desordenamento territorial e para quem gosta de estudos sociológicos.
História de uma vida suburbana com inúmeras referências na linha de Sintra, os seus dramas, amores e desamores, vidas ocas e vazias, abnegações e conformismos. Bem escrito, no final fica uma sensação de incompletude, como em tantas vidas, neste caso, suburbanas.
Conheço o Pedro há alguns anos, trabalhámos juntos numa livraria em Campo de Ourique. Comprei este livro há já algum tempo e hoje chegou o dia de o ler, de fio a pavio.
Curiosamente, nasci em Massamá em 1979. Para os que pensam que os grandes aglomerados em torno das cidades são muito diferentes das aldeias, desenganem-se. Apesar dos passos de gigante que demos em relação aos direitos LGBT nos últimos 20 anos, ainda sou olhado de lado se beijo um amigo num café... Digamos que Massamá é uma grande aldeia onde todos se conhecem. E, para quem for homossexual, se não tiver poder de encaixe, dificilmente lidará com os comentários daninhos e o ser assunto de café.
Curiosamente, também sou seropositivo, dando a cara pela causa sempre que necessário. Ao contrário do Lucas, ao fim de 10 anos de diagnóstico, com um resultado melhor e bastante eficaz ao tratamento.
E a Vanessa? Se no Lucas e no João reconheço a história de tantos e tantas, que dizer da Vanessa? Uma jovem proveniente duma família disfuncional, com um passado difícil que pensou encontrar no amor a estabilidade que lhe faltou durante a juventude. Uma Vanessa igual a tantas "Vanessas" que fui conhecendo ao longo da jornada.
Um romance brilhante, mordaz e acutilante. Um retrato fiel da vida nos subúrbios. A ler.