Carlo Antonini recebe uma nova paciente em seu consultório, em Nova York. O que parece uma consulta trivial, pouco antes de uma viagem que o terapeuta fará a São Paulo para uma palestra e alguns dias de férias, desencadeia uma trama envolvendo um casamento conturbado, uma organização suspeita de terrorismo, um assassinato e uma história familiar de vingança. Para escrever a nova aventura do protagonista de O conto do amor, seu aclamado romance de estreia, Contardo Calligaris usou elementos autobiográficos recriados num enredo que une investigação psicanalítica e policial. “Minha memória é uma espécie de comédia dell’arte”, diz o autor, “na qual as lembranças ganham vida própria e vão, aos poucos, compondo uma história.” O livro traça o paralelo aparentemente improvável entre o que Antonini desconfia se esconder sob as palavras de sua paciente - a descrição de uma festa com seus dois filhos na qual tudo será “vermelho e branco” - e o encontro fortuito, num restaurante do bairro da Liberdade, com uma namorada vietnamita dos tempos em que morou em Paris. “A tentativa de me enlouquecer, maquinada por duas mulheres perigosíssimas?”, ele pergunta a certa altura. A resposta talvez esteja em outra fala sua: “Policiais e psicanalistas temos isto em comum: não acreditamos em coincidências, não é mesmo?”. Nesse mergulho num mistério que une passado e presente, há momentos dignos de um thriller, como o cerco a um suspeito num drive-in da zona leste paulistana, ou as conversas entre o narrador e um célebre consultor americano especializado em segurança pública. Ao mesmo tempo, emerge das ações externas uma reflexão delicada sobre identidades individuais - de ordem étnica, religiosa, ideológica, sexual - no mundo contemporâneo. Por trás de tudo, como uma suma da variedade de temas que o romance trata por vezes com tensão dramática, por vezes com leveza e ironia, a impossibilidade de estabelecer uma versão definitiva dos fatos. “O que aconteceu é, antes de mais nada, o que contamos no primeiro relato”, diz Antonini. “E isso vale sobretudo quando se trata de um acontecimento que preferiríamos deformar ou esquecer.” Uma lição que terapeutas e escritores, acostumados a lidar com a ambiguidade das palavras e com as verdades construídas pelos mecanismos subjetivos da memória, sabem desde sempre.
Contardo Calligaris foi um psicanalista e cronista italiano. Doutor em psicologia clínica pela Universidade de Provence, iniciou seus estudos nas áreas das letras e da filosofia. Em 1975, foi aceito como membro da Escola Freudiana de Paris, onde morou até 1989. Lecionou na Universidade Paris 8 e teve aulas com os filósofos franceses Roland Barthes e Michel Foucault, além de acompanhar os seminários ministrados pelo psicanalista francês Jacques Lacan, uma grande influência em sua formação.
Em 1985, veio ao Brasil para o lançamento de seu primeiro livro de psicanálise, Hipótese sobre o fantasma. Posteriormente, acabou fixando residência no País, onde reside até hoje. Suas reflexões se concentram na condição humana da sociedade marcada pela obrigatoriedade da felicidade, do gozo, da beleza e dos excessos. Estudioso das questões da adolescência, considera esta a etapa da vida que possui uma intensa carga cultural e que se caracteriza como uma das mais potentes fontes de energia da atualidade. A adolescência é um dos seus livros mais lidos e estudados.
Além de atender nos seus consultórios em São Paulo e Nova York, foi colunista do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, no qual escreveu sobre psicanálise e cultura. Publicou mais de dez livros, incluindo dois romances e uma peça teatral. Criou a série de televisão intitulada Psi, exibida no canal a cabo HBO. Foi professor de estudos culturais na New School de Nova York e professor convidado de antropologia médica na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Também fez parte do corpo docente do Institute for the Study of Violence, em Boston.
Contardo Calligaris, em seu trabalho, conduziu as pessoas à reflexão sobre a existência humana, contribuindo para amenizar as angústias provocadas pelos desafios contemporâneos e pelo confronto com o outro, que pode limitar os prazeres e contradizer as certezas e seguranças.
Publicado 10 anos depois dos atentados as torres gêmeas, precisei descobrir essa informação pois li o livro 23 anos depois e ainda me é estranho histórias que se passam ou abordam essa temática. Mas as coisas logo tomam um outro rumo para longe do óbvio. Acompanhamos aqui um analista que busca escutar uma paciente misteriosa, e acaba por ceder a sua curiosidade e ao ponto que a vida os conecta. Acho que realmente só um analista poderia escrever essa história!
Ótimo livro. Uma história interessante que envolve crime, investigação, escuta psicanalista e a união de temas como terrorismo, vingança, um amor nunca esquecido e conflitos de guerra.
As verdades que contamos para nós mesmos, se inverídicas, deixam de ser verdades? O que elas protegem?
Um livrinho rápido, intrigante e cativante, que não deixa nada a desejar. Eu amo a forma como Calligaris escrevia; ele é, sem sombra de dúvidas, muito criativo. Vai ser difícil não ter mais livros dele para ler. Foi, como sempre, um imenso prazer ler este livro
Depois da leitura do excelente romance A MULHER DE VERMELHO E BRANCO, de Contardo Calligaris, [ Cia das Letras: 2011] eu gostaria de poder rever meu primeiro professor em teoria da percepção, Antônio Gomes Penna (1917-2010), para dizer, “valeu mestre”, o senhor me preparou para a boa interpretação de texto e das artes visuais. A realidade é plural. É a soma do que vemos e do que não vemos. Mas através desses anos, como historiadora da arte, o conhecimento da gestalt raramente se fez óbvio, pelo menos ostensivamente. A razão é simples: a ênfase tem sido na historiadora e não no teórico das artes visuais. A história da cultura ocidental através das artes plásticas e da literatura prevaleceu sobre as teorias da percepção, se isso pode de fato acontecer, porque a história também está sujeita às interpretações diversas não sendo fixa nem sedimentada. Como tudo mais é a soma do que vemos e do que não vemos. O romance de Contardo Calligaris é uma fascinante e deliciosa aventura, contagiante e sedutora, no mundo das nossas percepções daquilo que nos rodeia, daquilo que nos afeta e até mesmo da interpretação dos nossos sonhos.
Mas não se enganem, A MULHER DE VERMELHO E BRANCO é antes de tudo uma ótima história, contada de maneira simples, direta, sem muitos rodeios literários. É um quase-thriller. Digo um quase-thriller porque as aventuras que se desenrolam ao longo do caminho são mais de ordem intelectual. Até mesmo o perigo é mais potencial do que factual, se bem que tão importante quanto. Mas há um fio condutor de suspense até a última página, quando temos que reconsiderar tudo o que poderíamos ter imaginado e somá-lo ao que já considerávamos como certo.
A trama se passa em seis meses de 2003 com duas atualizações em 2010 e 2011 e retrata a vida do psicanalista Carlo Antonini, dentro e fora de seu consultório: vida profissional e particular. São os dois aspectos de sua vida que se entrelaçam: ora o psicanalista, ora o homem comum nos ajudam a construir o enredo. Seguindo seus passos e suas divagações, considerando os amigos, as conversas e, em particular, uma paciente entramos com ele na difícil arte de interpretar a realidade que se apresenta aos seus olhos. A MULHER DE VERMELHO E BRANCO não deixa de ser um envolvente ensaio prático sobre a ambigüidade, um documento lúdico que demonstra como as condições do observador modificam a importância do que é percebido.
Nessa narrativa tudo tem muitas faces. Tudo é a soma de todos os seus componentes tanto os percebidos quanto os que estão distantes do nosso conhecimento: as pessoas têm diferentes nacionalidades, vão e vêm de diferentes países, falam pelo menos duas diferentes línguas com familiaridade. São famílias com mais de uma identidade, vindas de diversos lugares do mundo. Duas mulheres, que a princípio parecem diametralmente opostas, ambas com singular dualidade entre seus nomes de batismo e os nomes pelos quais vêm a ser conhecidas, apresentam comportamentos que, por base em um evento, parecem se modificar no inesperado oposto do que haviam sido até então. Ambas podem ou não ser suspeitas de atos de violência, mas ambas também podem demonstrar fragilidade e doçura. Até mesmo o psicanalista Carlo Antonini que narra o romance, que trafega com familiaridade entre São Paulo, Nova York e Paris, que muda de língua como se muda de roupa, considera a ambivalência do dentro e do fora de seu consultório, de seus motivos e até do que a vida poderia ter sido. E ainda é confrontado com a ambivalente leitura que faz daqueles que o rodeiam, dos amigos e conhecidos. Não é que a realidade esteja sempre em questionamento na narrativa, é ela que se apresenta camaleonesca, múltipla, facetada e precisa ser ajustada à medida que os personagens dão vazão à fluidez de suas vidas.
Mais do que um romance, uma aventura ou um thriller, A MULHER DE VERMELHO E BRANCO é um exemplo do trabalho da psicologia cognitiva. Ele demonstra a realidade é ambígua, que cada pessoa, fato ou evento pode mudar de acordo com a interpretação que deles fazemos. E, no final, quase somos surpreendidos, não necessariamente pela trama. Mas quando consideramos o efeito da ambiguidade em tudo que nos cerca. Como conseguimos navegar ao longo de nossas vidas sem maiores embates, sem grandes desentendimentos, quando não podemos compreender tudo o que nos cerca? Parece fantástico, miraculoso até: se cada um de nós percebe o mundo de maneira tão diferente, tudo deveria contribuir para um caos ainda maior do que o que enfrentamos, para o oposto da ordem. Vale a leitura. Recomendo.