chegando ao fim deste partir de pedra que a Judith Butler encetou até chegar aos corpos que se materializam e contam [“matter”] vem me à cabeça o Vergílio (não fosse ele um império romano desde que comprei o “Pensar” num domingo de manhã, a caminho do Nimas, quando parei numa banca de livros, daquelas onde encontramos sempre as edições mais insólitas e esgotadas aos melhores preços): “só será definível talvez o que é exterior a nós - não o que interiorizamos e faz parte do que somos e se integra no nosso estar sendo”.
os estudos de género, creio, sempre dançaram muito em torno de tentar definir algo que não é definível, nem tem de ser, ou tão pouco deve ser. mas é compreensível que assim o seja, pois não passa do mesmo automatismo reflexivo e combativo com que reagimos a um ataque.
assistimos à ascensão da extrema-direita e, no campo político, o fenómeno replica-se: eles, esses que andam aí e andaram aí a espreitar debaixo das pedras desde que se fez abril, trazem para cima da mesa a questão da imigração como o grande problema da sociedade atual, colocando-a fora de proporção, e a reação é rebater. rebater porque não faz sentido, porque é sensionalista, porque não se baseia em factos, mas sim em percepções e preconceitos.
porém, todavia, contudo, de repente estamos todos sentados numa mesa a discutir aos berros a imigração (como se fosse mais uma ceia anual natalícia com familiares xenófobos, homofóbicos, racistas e machistas), enquanto a educação, a habitação, a saúde, a violência doméstica, e tantos outros problemas prementes se encontram na mesa das crianças, relegados e renegados para um terceiro, quarto ou nono plano; como se estivessem com pulseira amarela a morrer numa sala de espera de um SNS constantemente alvo de desinvestimento enquanto se discute a privatização da saúde como a cura para todos os males (já agora, privatize-se o ar que respiramos também!).
o mesmo aconteceu no domínio dos estudos de género. a sociedade colocou-nos em caixinhas heteronormativas que dependem, por definição e de raiz, das exclusões que criam e, de repente, estamos a discutir as exclusões. estamos a tentar encontrar mais caixinhas que sejam inclusivas e a querer re-definir e re-significar uma essência que não cabe em gavetas, por mais armários que se arranjem, porque haverá sempre algo a viver na margem do que não é, nem tem de ser, nem isto, nem aquilo.
a lufada de ar fresco que a Judith Butler traz neste livro, mais do que em “Problemas de Género”, é não seguir a mesma metodologia. é regressar à origem. é expor logicamente a falta de lógica dos caminhos que foram tomados e ainda se querem
tomar. se em “Problemas de Género” estamos, à luz de uma vela, a começar a questionar a ideia de género e a refletir na superfície da performatividade, a continuação do “Corpos que Contam” transporta-nos para um armazém cheio de luzes LED que iluminam qualquer sombra.
aprofunda-se a reflexão sobre o estatuto material do corpo e sobre como os corpos são produzidos e reconhecidos socialmente através de práticas reiteradas que, através do discurso, produzem o que dizem estar produzido num plano pré-existente. advogar uma indefinibilidade não é negar a materialidade e importância dos corpos, é tão só reconhecer que essa materialidade não é nem natural, nem pré-discursiva: é moldada e delimitada por normas sociais, políticas e culturais.
se em “Problemas de Género” temos algumas pistas para começar a refletir na performatividade não só do género, mas do próprio sexo em si, aqui abrem-se os estores e as portas para expor que o corpo não é apenas um dado biológico: é construído através da linguagem, do discurso e das práticas sociais que paradoxalmente dizem encenar algo que já está construído.
é com mestria que a Judith Butler mostra como essas normas determinam quais corpos contam [matter], sendo reconhecidos como legítimos, e os corpos que ficam à margem, abjetos, excluídos, não reconhecidos em algo tão básico como a sua humanidade; como os corpos que contam só contam porque há corpos que não contam, porque as definições dependem da patologização das exclusões que necessariamente encerram.
a maneira como a Judith Butler desconstrói estas construções é uma coreografia da interseccionalidade do feminismo com as questões de classe e raça, numa leitura verdadeiramente holística destas prisões sociais que vigiam e punem (Foucault reference ex vi da Judith Butler!!) os corpos que são artificial e socialmente (in)significados.
em linguagem de jurista, o sexo e o género são um costume, uma prática reiterada com convicção de obrigatoriedade, na definição do Oliveira Ascensão; uma repetição de normas e atos regulados que criam a norma ao mesmo tempo que abrem espaço para as exceções que a desafiam.
o discurso aparece, assim, como uma arma de poder que limita os nossos corpos e identidade, mas também como uma arma de poder que, através de livros como este, nos faz ter esperança de que é possível quebrar as correias que nos pesam tanto nos pulsos; ou, pelo menos, perceber que não passam de correias e os nossos corpos e identidades, mesmo quando são marginalizados e excluídos, colocados nos limites das ontologias existentes e dos esquemas de inteligibilidade, afinal, contam [matter]; afinal, se não cabem nos termos que o discurso normativo nomeia não é porque não têm lugar ou não existem ou não deviam existir, mas apenas tão só porque, por definição e essência, não é possível descrever plenamente o que se nomeia e não se podem condensar nos termos identitários que reiteradamente se prescrevem com um propósito castrador. romper, enfim, a compulsão da cadeia da significação e citação que enforma as exclusões constitutivas e contingentes.
enfim, este livro fez a minha química cerebral saltar tanto num trampolim que tenho a certeza que todas as releituras que faça no futuro me vão trazer novas realizações que não percebi da primeira vez porque sou só uma garota sem o backround e o estofo filosófico que este livro exige, CARAMBA!!
~ “O «fracasso» do significante em produzir a unidade que parece nomear não resulta apenas de um vazio existencial, mas da capacidade de o termo incluir as relações sociais que provisoriamente estabiliza mediante um conjunto de exclusões contingentes. Esta incompletude resulta de um conjunto determinado de exclusões sociais que retornam para assombrar as reivindicações identitárias definidas pela negação; é preciso ler e usar estas exclusões na reformulação e na expansão de uma reiteração democratizadora do termo. Que não possa haver inclusividade plena ou final resulta, pois, da complexidade e da historicidade de um campo social que nunca se pode - e que, por razões democráticas, nunca se deveria poder - condensar em nénhuma descrição.
Quando preenchemos o conteúdo de uma identidade com um conjunto de descrições, o resultado é inevitavelmente fraccionário. Estas descrições includentes geram sem querer novos lugares de contestação e uma série de resistências, renúncias e recusas de identificação com os termos. Os termos «mulheres» e «queer», não sendo referenciais, instituem identidades provisórias e, inevitavelmente, um conjunto provisório de exclusões.
O ideal descritivista cria a expectativa da possibilidade de plena e finalmente enumerar características. Em resultado disso, orienta a política identitária a confissão plena do conteúdo de qualquer categoria identitária. Quando o conteúdo se revela ilimitavel, ou é limitado num acto peremptório de exclusão, a política identitária mergulha em disputas faccionadas a propósito da definição de si ou de se exigirem testemunhos cada vez mais personalizados e específicos de transparência própria que nunca satisfazem plenamente o ideal sob o qual operam.
Compreender o termo «mulheres» enquanto lugar permanente de contestação, lugar feminista de combate controverso, é assumir que nao se pode - e, por razões politicamente relevantes, nunca se deveria poder - fechar esta categoria. Que a categoria nunca seja descritiva é condição da sua eficácia política.
Neste sentido, o que se lamenta nesta categoria por ser desunião e facciosismo no ângulo descritivista afirma-se, no ângulo anti-descritivista, como potencial aberto e democratizador.
As inúmeras recusas de «mulheres» em aceitarem as descrições dadas em nome das «mulheres» não demonstram apenas as violências concretas que um conceito parcial impoe, mas a impossibilidade constitutiva de um conceito ou de uma categoria imparciais ou exaustivos. Diz-se que se conseguiu um conceito ou uma descrição imparciais excluindo o campo político que se diz ter esgotado. Esta violência é simultaneamente exercida e rasu-rada numa descrição que se afirma derradeira e inclusiva. Para minorarmos e reformularmos esta violência, temos de aprender um duplo movimento: invocar a categoria, instituindo provisoriamente uma identidade, e ao mesmo tempo abri-la enquanto lugar de contestação política permanente. Que o termo seja contestável não implica não o usarmos, nem a necessidade de o usarmos implica que não devamos sempre interrogar as exclusões que dele advêm, justamente para aprendermos a viver a contingência do significante político numa cultura de contestação democrática” <333