Pensei que a leitura deste livro "ia ser dose" ou seja, que ia ser muito complexa e aborrecida, mas não foi assim uma leitura tão má quanto isso. É óbvio que a minha compreensão total deste livro beneficiaria em muito de um conhecimento mais aprofundado e contextualizado da obra completa deste filósofo, contudo não a achei difícil de entender e penso ser uma obra acessível a quem como eu tenha poucos conhecimentos sobre Filosofia.
O autor propõe-se neste livro chegar estabelecer os fundamentos da metafísica dos costumes para chegar a uma razão pura prática. Divide o texto em três partes para melhor expor as fases e o processo de construção desta sua teoria filosófica. O processo está bem descrito e interessante, pois o autor serve-se de várias abordagens: do particular para o geral e também o contrário, do método indutivo e também do dedutivo, num texto bem estruturado e claro para o leitor. Como os assuntos giram em torno da moralidade, dos costumes, da natureza, da acção humana, etc, também algumas passagens (quando ele se refere a exemplos) são muito interessantes, porque acabei por os ver como apontamentos da época e da sociedade onde o autor se movimentava.
Gostei particularmente do imperativo categórico (logo a sua primeira formulação, ainda sem mais desenvolvimento). Em minha opinião, tal como está formulada e mesmo retirada deste seu contexto original, é uma frase digna de reflexão, que se bem interpretada pode ainda ser "importada" para os nossos dias (enquanto orientadora geral da acção):
"Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal"
A forma como eu a entendo retirada do contexto não é contudo original bastando uma outra frase cuja origem é a da moralidade religiosa (da qual a teoria de Kant se tenta afastar) para orientar a acção humana de forma idêntica :"Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti" (penso que a frase original estará na negativa, "não faças aos outros...", mas vai dar ao mesmo :)
E depois tudo o que não gostei e que vou resumir:
a) a tentativa de chegar a leis universais para um pensamento puro que deveria ser a base da acção humana : quimérico, em minha opinião. Ainda que fosse possível, nunca poderia ser realizável por este meio. Se o autor parte da sua experiência individual, da sua sociedade, do seu tempo, enfim do seu mundo... como poderia ele criar leis universais para toda a humanidade, ainda mais quando estamos a falar da prática, da acção, do comportamento. Não deixa contudo de ser interessante a forma como ele o tentou.
b) a falta de definição dos construtos que ele utiliza para a sua teoria: algo muito próprio do seu tempo e da filosofia em geral, mas que a mim me fez alguma falta. O que entende o autor por moralidade? por acção? o querer? a vontade? o desejo? até a natureza?... se queremos falar de uma da construção de uma teoria, ainda que filosófica, seria importante para mim saber exactamente como é que o autor define estes conceitos. Talvez estejam descritos em outro lugar, mas julgo que seria importante estarem também definidos na obra.
b) as divisões cartesianas: a razão da emoção, o sensível do inteligível, o racional do irracional... Não me vou alongar aqui porque teria muito a dizer, mas em suma, não concordo e penso que qualquer teoria que tente isolar o pensamento do homem do seu sensível, da sua natureza, da sua emoção, e mesmo da sua condição enquanto animal, estará sem dúvida condenada a não ser válida.
c) "os homens e os outros seres racionais..." : pelo menos duas vezes Kant escreveu desta forma dividindo os homens dos outros seres racionais...(??)...seremos nós as mulheres? perguntei-me eu... pois parece que sim. Vá lá, ainda nos considera racionais, mas quando se refere a estes outros seres racionais, estão sempre ligados à natureza, à razão vulgar, às vontades e desejos, ao que ele (Kant) considera como inferior. Uma pequena procura na net revelou-me que para Kant nós mulheres somos vistas assim (atenção esta frase não é deste livro):
“a mulher não deve aprender nada de geometria; do princípio da razão suficiente ou das mônadas só saberá o indispensável para entender a graça das poesias humorísticas”
Ó meu amigo Kant...e ainda me dei eu ao trabalho de te ler... :D Eu sei que és fruto de uma época, que este teu trabalho é datado e que tens muito valor, mas apesar de continuar a dar-te o valor que bem mereces, pensar que o teu pensamento foi um dos mais influentes da era moderna....arrrepia-me...lol.