Comecei a ler “O Guarani” com certo pé atrás. Não faltam motivos para essa prevenção: a leitura obrigatória na escola, que faz José de Alencar virar lição de casa; o estilo palavroso, que saiu de moda, a abordagem da questão indígena, agora antiquada... O livro, porém, recompensa quem ultrapassa a barreira dos elementos datados e se deixa levar pela história.
A primeira noção que superei foi a de que Alencar é um escritor chato. José de Alencar é um grande escritor de aventura e Peri é um Indiana Jones, um James Bond nacional. Depois dos primeiros capítulos, em que Alencar apresenta os personagens e o local em que se desenrola a trama, o que temos é um enredo animado de traições, planos mirabolantes e fugas épicas. Um capítulo engancha no outro, a leitura é empolgante e o clima é de suspense.
Como em “O Vermelho e o Negro”, porém, o que eleva a obra é o final. Como o livro de Stendhal, até os últimos capítulos, “O Guarani” é um novelão - com a diferença que não há um grande personagem n’O Guarani, com motivações complexas e personalidade multifacetada. Os capítulos finais d’O Guarani tem 2 grandes méritos: eles dissolvem a dicotomia entre civilizados e selvagem e operam essa dissolução em campos diferentes. No campo literal, Alencar ainda celebra a nobreza de caráter de D. Mariz, o bom cristão, e valida a imolação de Loredano, o frade que abandona a batina por dinheiro. O leitor se solidariza à família portuguesa e aos aventureiros que desbravam a terra. Porém, as imagens que Alencar constrói, carregadas nas tintas do romantismo, condenam silenciosa mas enfaticamente os portugueses - e, de certa forma, também o leitor que foi levado a se identificar com essa nobre família portuguesa e condenar os atos bárbaros dos aimorés. Alencar nos fala dos aimorés, terríveis canibais com seus rituais macabros; em seguida, nos mostra Loredano na fogueira, uma solução arquitetada pelos bons e civilizados cristãos. Alencar descreve os aimorés como animais de caça, matadores natos; algumas páginas depois, o ato de morticínio em massa é cometido por um D. Mariz agarrado à cruz.
Depois dessa cenas, se ainda resta dúvida ao leitor, vem o último ato - um apocalipse, um dilúvio mítico, um julgamento final. Tal qual o episódio bíblico de Noé, o mundo antigo é apagado e restam apenas o melhor dos indígenas e a melhor dos portugueses - Peri e Ceci, um início esperançoso para a identidade brasileira.
Terminei o livro convencida de que Alencar é um grande escritor. “O Guarani” entretém, é sensível à complexidade e tem a ambição de fornecer uma lenda de origem ao país.