Quando o Brasil era a Terra de Santa Cruz, as mulheres tinham de se enfear e os homens precisavam dormir de lado, nunca de costas, porque "a concentração de calor na região lombar" excitava os órgãos sexuais. E nos momentos a sós --geralmente no meio do mato, e não em casa, porque chave era artigo de luxo e não era possível fechar as portas aos olhares e ouvidos curiosos--, as mulheres levantavam as saias e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Tirar a roupa era proibido. E beijar na boca? Bem... sem pasta e escova de dentes, difícil.
Mary del Priore, ex-professora de história da USP e da PUC/RJ, pós-doutorada na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, tem 29 livros de história publicados, sendo o mais recente Uma breve história do Brasil, escrito com Renato Venancio e lançado pela Planeta em 2010. É vencedora de vários prêmios literários nacionais e internacionais, como Jabuti, Casa Grande & Senzala, APCA, Ars Latina, entre outros. Colabora para jornais e revistas, científicos e não científicos, nacionais e estrangeiros. É sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do PEN Club do Brasil. Atualmente, leciona na pós-graduação de história da Universidade Salgado de Oliveira.
Para gostar, tem que lembrar/saber que se trata de um trabalho de divulgação de pesquisa histórica que, em alguns aspectos, já está meio datado (li uma edição de 2011). Algumas discussões recentes, especialmente as que são relacionadas às identidades LGBTQIAPN+, não estão contempladas na obra porque, quando de sua publicação, não tinham chegado ao debate público mais amplo. A autora parece querer conversar com o público geral, e faz isso muito bem. Se não nos atentamos a esses pontos, podemos achar o livro fraco. Particularmente, gostei da leitura, aprendi bastante e fiquei estimulado a visitar a vasta bibliografia de fontes primárias e secundárias sinalizada pela autora. Tirei estrelas porque não consegui não me incomodar com algumas escolhas lexicais e ironias que hoje soam um pouco desrespeitosas.
Acho que tinha potencial para ser muito mais do que é. O livro não se propõe a ser um tratado, mas em muitos momentos é extremamente superficial e deixa muitas informações soltas e meio corridas. Além disso, acaba do nada (não que seja um romance, mas até em não-fícção o assunto precisa ser amarrado).Esperava mais.
Escrita deliciosa, em que cada capítulo te faz viajar por uma parte diferente da nossa história, dos tempos coloniais aos contemporâneos. Alguns são leves, dedicando-se a mudanças culturais como roupas e acesso a anticoncepcionais, enquanto outros são bem mais pesados, tratando sobre o nosso histórico de pedofilia e feminicídio. A maior preciosidade do livro encontra-se na análise das raízes de uma peculiaridade cultural nossa: como somos tão católicos na igrejas, mas agindo de forma completamente liberal fora dos lares e igrejas? Definitivamente uma leitura para todos que querem entender um pouco mais da história dos nossos hábitos e relações.
A Mary del Priore tem uma prosa deliciosa e conta de uma forma bem bacana a história da sexualidade e erotismo no Brasil. Ajuda a entender uma série de comportamentos que vemos nos dias e hoje principalmente quanto ao machismo do brasileiro, mas sem levantar bandeiras ou fazer discursos. Livro que sem dúvida vale ler.
Muito bom para entendermos esta loucura cultural que é o Brasil. Um país com forte tradição conservadora cristã mas ao mesmo tempo com tendências liberais e tolerâncias de todas as ordens na seara da sexualidade humana. O livro também nos dá uma boa ideia da formação patriarcal da sociedade brasileira.
Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil Mary Del Priore
Terminei a leitura desse livro há algumas semanas e só agora tirei tempo para fazer algumas notas. O livro tem prefácio de Moacyr Scliar, é fácil de ler, empolgante até, por vezes. A autora atravessa a história do Brasil do período colonial até os dias de hoje e vai mostrando como os conceitos ou o que chamamos de « gosto » muda com o tempo. Eis um exemplo já logo no começo, no capítulo, No início, era o paraíso “Estrangeiros que passavam pelo Brasil, nessa época, ficavam chocados com a nudez dos escravos nas ruas. As poucas blusas que escorregavam pelo ombro, os seios nus, magros e caídos, escorrendo peito abaixo. E, contrariamente aos nossos dias, não havia lugar do corpo feminino menos erótico ou atrativo do que os seios. « Os seios jamais eram vistos como sensuais, mas como instrumentos de trabalho de um sexo que devia recolher-se ao pudor e à maternidade. » No segundo capítulo, E depois, o inferno... encontramos essa explicação sobre o banho:
“Proibidos aos religiosos, sobretudo quando jovens, abster-se de banho se tornou sinônimo de santidade. Santa Agnes privou-se deles toda a vida. Ordens monásticas os proibiam aos seus monges. O batismo cristão, antes uma cerimônia comunitária de imersão, transformou-se numa simples aspersão.”
O século XIX é chamado de o século hipócrita: « Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e a concubina, do outro. Todos muito devotos! »
mais um livro que era um compromisso antigo. comecei em 2022 e interrompi a leitura por outras se mostrarem mais urgentes e importantes no momento. por ser o livro físico (e a edição que eu li tem a capa muito mais bonita que o aplicativo) e pelo tamanho dele, dificultava que eu pudesse ler em intervalos do trabalho ou antes de dormir... enfim, é um livro de leitura fluida e rápida, que promove conhecimento e insights diversos sobre vários temas dentro desse guarda-chuva que é a sexualidade tratada historicamente no brasil. fica a impressão de que tudo o que a autora aborda pode ser mais aprofundado, talvez em compreensões que extrapolam o campo estritamente histórico. parece também que em alguns aspectos falta um pouco de crítica ou então expressões e compreensões hoje atualizadas (como não se usar o termo transexualismo, por exemplo). também lamentei não ter tido contato com o livro enquanto escrevia meu trabalho sobre anticoncepção cirúrgica voluntária... provavelmente esse livro se tornará de consulta futura. gostei. 💖✨
Histórias Íntimas faz parte da leva de paradidáticos que enchem as nossas prateleiras... não deixe isso que te afaste. Mary Del Priore é uma historiadora de renome que faz um ótimo trabalho em fazer a História da Sexualidade mais acessível.
O livro foca primariamente na história brasileira, falando não apenas sobre práticas sexuais, mas também sobre erotismo, casamento, relações sociais, política e tudo o mais que engloba esse tema.
O livro também é rico em relatos e ilustrações, apresentando uma rica bibliografia para quem deseja se aprofundar no assunto.
Livro bastante interessante, falando das construções e descontruções dos brasileiros em relação a sexualidade, demonstrando fatores que contribuíram pra formação da cultura machista na forma que a conhecemos, e da emancipação sexual (muito) gradual das mulheres.
Minha única crítica fica em relação à narrativa, que em alguns momentos não prende tanto (o que é extremamente subjetivo).
É um livro muito interessante que passa por diversos aspectos da sexualidade brasileira desde a colonização, com os portugueses se chocando com índias nuas e de comportamento livre, até os dias atuais, com as redes sociais e hiperexposição. Achei truncado em alguns pontos, como se a autora estivesse correndo para acabar mais rápido. Algumas passagens poderiam ter explicações maiores e melhores, mas a bibliografia no final é extensa, fontes para continuar lendo não faltam. Gostei como o livro mostra a construção e desconstrução de muitos dos nossos preconceitos, além de mostrar que as lutas para vencer cada um deles são parecidas e, desde sempre, deveriam andar lado a lado. O triste é ver certos valores do século 19, que deveriam ter ficado lá, ainda valendo nos dias de hoje. No mais, ao menos isso a gripe me trouxe de bom: tempo pra terminar esse livro.
Além de trazer muitos fatos interessantes, o livro nos faz compreender como surgiram diversos conceitos e costumes. Através dele podemos perceber a força que tem certos acontecimentos e como, através do tempo, eles conseguem determinar a cultura de um país e de uma geração. A falha do livro, na minha opinião, está em como ele foi organizado: em certos momentos as informações me parecem um pouco jogadas e fora de ordem. É uma leitura válida e curiosa, mas a qualidade da escrita é apenas OK.