Áspero, agoniante e luzente
Este é trilogia com uma carga emocional muito elevada. Neste 3º livro da trilogia é a asfixia e, por outro lado, o refúgio numa breve leveza de esperança pela igualdade, justiça e liberdade. É incrível como Jorge Amado o faz através de descrições de simples olhares, breves discursos, e até silêncios dos personagens.
Inicialmente torna-se importante referir que ao longo desta obra, Jorge Amado surge como uma espécie de sociólogo, procedendo a uma análise social, na qual relata e descreve uma parte da história do Brasil.
Debruça-se sobre a opinião, os ideais e as convicções das diferentes classes sociais, discorrendo simultaneamente e em forma de protesto incendiário a situação política, social, cultural e económica do país.
Nesta obra, Amado procurou denunciar o avanço das forças políticas de extrema-direita não só no Brasil, mas em todo o globo, enumerando vários exemplos, como o de António Salazar (Portugal), Adolf Hitler (Alemanha), Francisco Franco (Espanha) e Benito Mussolini (Itália). Este avanço era visto como uma potencial e perigosa ameaça à forma de organização e constituição das diferentes sociedades, visto que todos estes ditadores estabeleciam coligações para dilacerar os seus oponentes. Uma das coligações apresentadas em vários trechos da obra é o Pacto Anti-Komintern.
No decorrer do livro, o autor através de contos idealiza que luta do Partido Comunista, neste caso o Brasileiro, mais que um movimento de resistência, é a principal “arma” da nação para derrubar o Estado Novo, a Estrutura Nacional.
O autor também expõe que o partido luta pelos interesses da classe proletária/trabalhadores, que é composta por pessoas que «ganham a vida vendendo a sua força de trabalho» à classe burguesa/capitalista que é a detentora dos maiores Meios e Objectos de Produção, «meios pelos quais ganham o seu sustento». O que leva a que a classe proletária se assemelhe a «servos, trabalhando a terra sem outros instrumentos que os seus próprios braços e sem nenhum direito possuir sobre os frutos da terra» (Jorge Amado, Os Subterrâneos da Liberdade I – Os Ásperos Tempos, pág. 328). Assim, Amado vocifera que o partido combate igualmente a pobreza, a miséria e a exclusão social dentro de uma sociedade. Nesse sentido, o partido torna-se num produto das massas operárias, e simultaneamente um sistema de produção dessas mesmas massas.
Jorge Amado conseguiu transmitir a sua aspiração, defendendo que a vida e o rumo do país devem ser pensados e levados a cabo em torno, e de acordo com a maioria, isto é, do povo para alcançar-se o tão desejado bem comum.
Resumidamente, o autor proclama a sua crença no sucesso do Partido Comunista, vendo-o, com base no seu discurso, como uma “máquina ilegal” no Brasil, mas que «sem limites nem fronteiras, se estende pela vastidão do mundo, vitorioso na União Soviética, em armas na Espanha, nas montanhas da China, nos subterrâneos da Alemanha, combatendo um duro combate nos demais países, um mar subterrâneo que se levantará um dia em ondas colossais, lavando da superfície do mundo a podridão e a injustiça» (Jorge Amado, Os Subterrâneos da Liberdade I – Os Ásperos Tempos, pág. 257), tendo em vista, sempre que necessária, a revolução democrático-burguesa e a reforma agrária, caracterizando-a como a luta infinita, até à morte.
Esta trilogia foi o último sopro, assumidamente comunista, de Jorge Amado. Ou seja, representou o fim de uma escrita político-partidária.