Sobre os casamentos arranjados pelos pais como aliança e não por amor, a autora cita ironicamente Brantôme: "Casamento que começa com namorico termina com fanico" e sobre a violência que as mulheres (e os filhos) sofriam às mãos dos maridos, o olhar da sociedade era de tolerância pois o marido estaria a "educar" a mulher: "quem sabe amar sabe castigar".
A mulher é aparência: o seu corpo, o seu rosto, o seu cabelo. O cabelo era entendido como o elemento que condensava a sedução da mulher e, por isso, as grandes religiões monoteístas insistiam que este fosse coberto com um véu. Este passou a ser sinal de dependência, pudor e honra.
O pêlo mal domesticado sugeria a presença inquietante da natureza e na Idade Moderna a peruca passou a ser um sinónimo da sociedade de corte: domesticação da peruca levada ao extremo.
Os cabelos pretos a dada altura eram sinal de erotismo, até surgirem as loiras do século XX como Marily, Brigitte Bardot, Grace Kelly... As ruivas, queridas ao pintor Toulouse- Lautrec não gozavam de boa reputação pois o sangue aflora-lhes à pele e de algum modo eram feiticeiras... Os loucos anos 20 viram surgir a emancipação feminina e, como símbolo, os cortes curtos. Era a new woman da belle époque. Segundo consta, as primeiras mulheres a cortar o cabelo foram as estudantes russas dos anos 1870-1880, niilistas ou não, que se inscrevem nas Faculdades de Medicina para se ocuparem da saúde do povo.
Cortar o cabelo a alguém era um sinal de ignomínia (vergonha pública grave) imposto aos vencidos, aos prisioneiros, aos escravos. Praticava-se na Antiguidade e na Idade Média. No fundo, sempre se assistiu a este fenómeno ao longo da História. Às feiticeiras também se lhes rapava o cabelo como se as longas cabeleiras fossem maléficas. Foi o caso de Joana d'Arc. E na 2ª Guerra Mundial às mulheres acusadas de "colaboração horizontal".
"A beleza era um capital na troca amorosa ou na conquista matrimonial" (p.51) e mulheres como Virgínia Wolf revoltavam-se perante essa sujeição da mulher à sua aparência: "É o vestuário que nos usa e não o contrário".
"Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres." Simone de Beauvoir
A virgindade é um valor supremo para as mulheres e filhas de Maria são obrigadas à pureza e o pudor é o seu adorno. As mulheres devem defender-se da sedução e até da violação, mesmo que se permitisse a bandos de rapazes que o fizessem em busca de iniciação, um ritual de virilidade (ouvi falar pela primeira vez deste infame fenómeno na minha série preferida, Outlander). À noite, as mulheres sozinhas deviam ter cuidado. Depois, na noite de núpcias o marido apoderava-se da mulher, verdadeiro rito de tomada de posse. Durante muito tempo foi um ritual público e com a demonstração do lençol manchado. E havia ainda o direito de pernada medieval que, a ser verdade - ainda gera controvérsias entre os historiadores, a ser verdade ou não - que consistia no horrível "direito" que o senhor tinha sobre a primeira noite de uma serva sua quando esta se casava. Para certos estudiosos este direito foi um mito, construído num contexto de desvalorização de uma Idade Média obscura.
As mulheres de sexualidade desenfreada são perigosas. Maléficas, assemelhadas às feiticeiras com as suas "vulvas insaciáveis". Mesmo depois de velhas, ultrapassada a idade permitida para amar, estas feiticeiras deixavam-se possuir por trás, contrária à posição permitida pela cristandade apenas para procriar. O alvo das incriminações era o útero, não o Diabo.
Quanto à prostituição pode dizer que se trata de um sistema deveras antigo e universal, organizada com estatutos diferentes. As civilizações antigas e orientais não demonstram a atitude da civilização cristã, que considera a carne como fonte de infelicidade e a fornicação o maior dos pecados.
Diferente das "Shirabyōshi" japonesas cujo ofício era divertir os homens, fosse a cantar, dançar e através do sexo. No entanto não eram estigmatizadas nem viviam encerradas; provinham de meios modestos e geralmente recrutadas de mãe para filha. Viviam de maneira livre e autónoma, algumas eram verdadeiras artistas cujo nome permaneceu, como Shizuka Gozen, a favorita de um ministro do Império. Esta condição começou a degradar a partir do século XIII, em particular por influência do budismo tântrico que defendia a pureza.
Apesar de ter gostado e consolidado algumas questões, a autora incide sobretudo no caso das mulheres francesas.