Nesta obra, o desejo de vingança – como protótipo de justiça – conduz a um acontecimento tremendo: André comete fratricídio, matando o irmão João. Fá-lo motivado por suspeitas – não da sua parte, mas dos seus amigos e, principalmente, do seu pai – de que ele tinha “ido para a cama com a sua mulher”. A narrativa de Caim e Abel é recriada e adaptada ao povo cabo-verdiano de 1975. O campo das transformações socioculturais desenha-se, a traço trágico, dividido entre o apelo de pertença comunitária e o desejo de viver livremente.
A obra começa aquando do início do julgamento – improvisado numa escola, em péssimas condições –, e a história é conhecida por analepses. André não estava convencido da traição de Maria Joana com o seu irmão. Assim, comporta-se normalmente com ele, durante 21 dias. Por não o condenar de imediato, é desaceite pela sua família e amigos. Acaba por o matar, brutalmente, com vinte e uma facadas.
A questão da honra motiva o crime, à semelhança do que acontece em Michael Kohlhaas. E, também como na obra de von Kleist, o processo de vingança exige movimentos de mais que uma pessoa – a família de quem se quer vingar; n´Os Dois Irmãos, o pai, acima de todos. A cultura da vergonha reina, como n´O Processo, de Franz Kafka.
Na verdade, André não queria matar João. Inicialmente, nem estava convencido de que ele era culpado. Logo, noutro sentido, quem mata João é a sociedade, com o pai à cabeça. A hermenêutica da suspeita reina. Não temos a certeza de que terá realmente ocorrido um adultério – apenas uma carta do pai nos dá esse parecer; é um ato linguístico que ativa todo o crime. Para além disso, o pai refere que apenas viu Maria Joana com uma pessoa por cima – acha (só acha, mesmo) que se tratava de João, o seu filho, em cima dela. A partir daí, move todas as suas energias em prol de um desejo de vingança sanguinária, comprovada multiplamente ao longo da obra. Assim, é-nos fácil concluir que o principal culpado disto tudo é o inconsciente do pai. E, como dizem Marx, Nietzsche e Freud, o inconsciente não é, de todo, fiável.
Por isso o juiz se mostra reticente, apesar da evidência das provas – não percebe tamanha mudança no comportamento de André. De um momento para o outro, passa de abraçar o irmão para o matar brutalmente. Fica estupefacto com os valores que regem a sociedade, os quais desconhecia: não imaginava o seu povo tão injusto, animalesco e sedento de vingança.
A história decorre uns anos após a independência de Cabo Verde e leva-nos a refletir sobre até que ponto um homem é totalmente livre nas decisões que toma. Se é condicionado pelo meio social e cultural em que vive e se o crime que pratica deve ou não ser julgado tendo em conta o contexto social da época; ou antes a (in)capacidade do ser humano à autodeterminação e de agir de forma livre e autónoma e unicamente de acordo com a sua consciência, sem ser condicionado nas suas atitudes por qualquer espécie de influência externa.
Os Dois Irmãos faz parte daquelas obras em que o intertexto bíblico funciona apenas como âncora cultural e simbólica, inteiramente dependente das intenções do autor, que pretende, fundamentalmente, dar a ver o seu país, num determinado momento histórico, após o processo do colonialismo e subsequente desarticulação pós-colonial iniciada em 1975. Assim, segundo os costumes culturais da época e daquele povo, se André não matou João, devia tê-lo feito.
A insistência do narrador na área semântica do trágico e do fatídico tem, pelo menos, três funções hermenêuticas de grande rendimento: permite ler o romance à luz dos protocolos ético-sociais da tragédia clássica; proporciona um abrandamento da culpabilização do réu; e, numa perspetiva de cariz antropológico, dá forma a um retrato psicossocial da população cabo-verdiana, mais afetada pelas mudanças comportamentais determinadas pela emigração e pelo turismo.