Marguerite Duras é uma autora que se repete e reinventa constantemente. Quando leio as suas obras, sinto o desejo de explorar as suas histórias desde as suas origens. No entanto, muitas vezes, parece que continuo a não entender aquilo que desconhecia ou conhecia, apesar da persistência em reconhecer personagens e factos. Talvez Duras não tenha simples leitores mas leitores fãs de uma autora que parece escrever textos sem os «burilar nem lhe conferir sensatez, velocidade ou lentidão, deixar tudo no estado em que surgiu.». Há sempre algo que não pode ser compreendido e me ofusca e não consigo ver.
Aqui reconheci Yann Andréa de outros livros. Diz a crítica literária que esta obra talvez seja a melhor da Duras [a nível da qualidade da escrita, não duvido] mas continuo a preferir os seus ciclos da Índia e da Indochina que, como não podia deixar de ser, também se referem aqui.
Verão. Quillebeuf,um pequeno porto petroleiro do norte da França. O bar do hotel da Marina é o cenário para dois casais que bebem e conversam sobre suas vidas. Nesse ambiente, conhecemos duas histórias de amores em crise: a dos franceses Marguerite Duras e Yann Andréa, e a dos ingleses Emily L. e o marido Captain. Os dois homens sentem ciúmes, inveja ou desconfiança da literatura das suas mulheres, que descrevem um mundo que eles não habitam.
«Ambos estavam persuadidos de que o Captain decidira andar às voltas pelos mares da Malásia porque a reputação dos poemas [de Emily L.] ainda não tinha decerto, aí chegado.»
Entre mágoas, alcoolismo e triângulos amorosos, o romance desenrola-se em histórias que nunca se confessam nem ficam completamente escritas ou explicadas. E sempre o fio condutor: o que acontece na juventude decide o curso das vidas, as expectativas, a dor da memória, a bebida, a morte.
Emily L é uma personagem complexa (talvez um alter-ego da Duras):
«- Parecem-se ambas. Ela, consigo quero eu dizer - estão sempre a olhar para o rio, nunca riem. São sempre tocantes as parecenças entre as mulheres que não se parecem umas com as outras.»