Conheci a Capicua através de uma entrevista que deu ao Diogo Faro e fiquei fã dela. Confesso que a sua música não conheço bem. Agora através da sua escrita fiquei uma admiradora ainda maior. A autora, a Ana, a Capicua, mostrou ser uma série de coisas, mas para mim mostrou-se sobretudo ativista, feminista, crítica, mulher portuense orgulhosa, mãe, artista, prá frente. O livro está organizado numa espécie de 5 capítulos temáticos, e os temas que explorou de que mais gostei foram o feminismo, a crítica social e política, o Porto e a maternidade.
Gostei tanto de algumas crónicas, às vezes por me identificar, outras vezes por achar muito importantes, que várias foram lidas em voz alta para serem partilhadas, e uma ajudou a estimular uma discussão (saudável).
Algumas das crónicas (que incluem também anotações e poemas) de que mais gostei foram: Janela, Jane Fonda, Erro, Corações ao alto, Destino, Mar, Palavras, A luta, Palavras, Medusas, Ainda bem, Algumas reflexões sobre o (anti) racismo, Matrescência, Ser, Brincar, Três.
Alguns excertos que achei deliciosos:
"Já repararam que «avô» e «avó», juntos no plural, convergem no feminino «avós», ao contrário da regra?" in Avós
"Não porque ache injusto [ganhar pela terceira vez o título de Best European Destination], porque continuo a dizer que o Porto é uma cidade belíssima e que sabe acolher como nenhuma. É castiça, na sua mistura de cinza, ouro e azuleijo. Meio tosca, meio burguesa. Dá de bem comer e beber (o que já chegava para encantar), mas arrebata porque ora se esconde, sorumbática, por ruelas escuras e tortuosas, ora se debruça em paisagem sobre o rio, fazendo dele sala de estar. Ora se apresenta sólida, numa sobriedade de granito, como aparece descomposta, tropeçando ladeira abaixo em seus casebres, misturada com os gatos e as gaivotas, toda torta.
O Porto nunca foi para meninos. É chuvoso e mal-humorado de manhã. Ciumento e pouco dado a despedidas, Mas, quando voltamos, não aguenta a birra e recebe de pontes estendidas aqueles que lhe têm devoção. Tem (como já disse) a dimensão perfeita da domesticidade, e é o melhor lugar do mundo para passar o domingo à noite (além de ter os melhores rissóis)." (aqui substituiria por torradas). in Destino
"Preciso de água, como as plantas, só que salgada. Quando passo perto do mar e o vejo a entrar pela janela do carro, sinto uma espécie de sede, que não é de beber, mas de mergulhar. Todos os anos se repete a privação e todos os anos os anos prometo a mim mesmo um (utópico) verão na areia, só para ver se é possível fartar-me dele, e não fazer mais nada que não ler, dormir e flutuar.
Flutuar é aliás um dos prazeres da vida mais menosprezados e uma das artes mais intuitivas (porém, delicadas) que podemos praticar. Para mim, sempre foi fácil. É só estender o corpo na água como numa cama infinita, e senti-lo derreter para depois levitar, numa espécie de lençol fluído que nos embala docemente." in Mar
"Vivemos numa longa praia, num país que se encosta ao litoral, como quem vem à varanda ver o mar." in Saber-a-pouco
"(...) fui vivendo com o Brasil dentro de casa e com o português do Brasil dentro do ouvido. Esse português com pimenta, musicado pela deliciosa falta de respeito pelo português canónico. Esse português elástico, inventivo, jovem, em que o calão da semana passada é sempre obsoleto, e vale tudo, menos cristalizar." in Palavras
"Quando dizemos o que fazemos, normalmente usamos o verbo ser. Como se fôssemos a nossa profissão, aquilo em que trabalhamos. Dizemos que somos médicos, ou jardineiros, ou atores. E mesmo sabendo que ser é muito mais do que fazer, identificamo-nos com o nosso ofício, mesmo que ele não seja uma vocação, e usamo-lo para nos situarmos no mundo. Ora, além de a nossa profissão ser muito mais uma função do que um elemento identitário, na maioria dos casos, grande parte das vezes nem sequer é uma escolha ou vocação." in Ser
"Quem me dera andar assim pelo mundo, com o peito sempre diante dos pés e olhos devoradores.
Obrigada por me levares pela mão e por teres a bondade de me limpar os óculos que o tempo embaciou." in Três