De todos os volumes lidos até então, este foi aquele de que mais gostei. Com um nível de qualidade contínuo, este é, em concreto, um Livro de Mistérios: vários mistérios à moda americana. Digo isto porque todos os contos são da autoria de escritores americanos que, de há já longos anos, demonstram uma capacidade imensa neste estilo literário – certamente os vejo como referências literárias a explorar depois da leitura deste livro.
- "O Véu negro do Pastor", de Nathaniel Hawthorne: Marcado pelo romantismo negro do autor, este é um conto de muito interesse. O autor tece uma curta narrativa que em si comporta uma componente simbólica incrível. Na leitura deste conto é que nos apercebemos do impacte que um simples objecto incomum pode ter no estabelecimento das relações sociais. Vemos que quando algo incomum interfere com os hábitos sociais, as pessoas automaticamente rejeitam-no. Neste caso, ou seja, neste conto, o véu negro demonstra bem esta situação, integrando, simultaneamente, a mensagem de que todos temos algo de que nos redimir, mas com o enfoque de que cada pessoa fá-lo à sua maneira, conforme considerar mais adequado. Por tudo isto, apreciei muito este conto.
- "O Pretendente", de John Collier: Este conto foi o que menos me agradou. Curto, sem muito desenvolvimento, deixou-me algumas dúvidas. O que destaco, precisamente por ser uma possibilidade duvidosa, é precisamente a ideia de que um amor comprado/imoralmente conquistado é um amor que exigirá uma desconquista também ela comprada e imoral. E essa mesma desconquista é mais cara e perigosa do que a conquista inicial. Mas isto é só uma suposição. É esta suposição que deixa em aberto a possibilidade de considerar este conto minimamente positivo.
- "O Roubo", de Katherine Anne Porter: Neste conto gostei da importância dada ao auto-roubado. Isto é, esta narrativa leva-nos a pensar que o ato de nos roubarmos a nós mesmos, de forma material e imaterial, é sempre pior do que sejam outros a roubar-nos. Quando nos auto-roubamos desinvestimos, desfazemos e desacreditamos todas aquelas que são as janelas de oportunidade das nossas próprias vidas. Então, devido ao levantamento desta questão, este é um conto que vale bem a sua leitura.
- "A Lei", de Robert M. Coates: Tal como o 1º conto deste livro, este é um conto de crítica social à liberdade e às formas existenciais das pessoas. Com implicações nas esferas política e económica, penso que esta crítica incide sobre a “vida realmente vivida” pelas pessoas. Tem elementos muito interessantes que, paradoxalmente, me fizeram lembrar a Teoria dos Factos Sociais desenvolvida pelo sociólogo Émile Durkheim e a Teoria da Acção Social de Weber. Resumidamente, a ideia principal é a de que a vida das pessoas não pode seguir, de forma linear e obrigatória, padrões gerais enquadrados numa média social. Assim, este conto destaca a ideia de que as pessoas têm vontades e desejos subjectivos que o Estado e a respectiva Sociedade Estatal não podem e não conseguem prever e, por isso, também não podem controlar. Outro conto que vale bem a sua leitura.
- "O Ídolo", de John O'Hara: Este é um conto com um bom desenvolvimento, caracterizado por um diálogo corrente muito interessante (algo que marca a carreira literária do seu escritor). Tem em si o mistério de que a dimensão pessoal da vida das pessoas acompanha e interfere sempre, de forma directa, na vida profissional. Penso que este conto, ironicamente, escolhe para este mistério de distanciamento, ou não, do pessoal e do profissional o campo social político que se desenvolve por “ajudas e favores”.
- "O Véu negro do Pastor", de Nathaniel Hawthorne: 4 estrelas
- "O Pretendente", de John Collier: 2,5 estrelas
- "O Roubo", de Katherine Anne Porter: 4 estrelas
- "A Lei", de Robert M. Coates: 4 estrelas
- "O Ídolo", de John O'Hara: 3 estrelas
Média final: 3,5 estrelas