O que foi isto, Claudia? Há algum tempo que não chorava a ler um livro. Uma Pequena Sorte cativa, inicialmente, pelo mistério. Queremos ler mais e mais para perceber que raio levou Mary a fugir, o que fez de tão tremendamente errado, que espécie de culpa, de responsabilidade e de dor carrega. Sabemos que é uma dor brutal, para sempre, como na citação de Alice Munro, em "O Amor de uma Boa Mulher".
"Esta é uma dor aguda. Que se tornará crónica. Crónica significa que será definitiva, embora talvez não constante. Poderá também significar que não morrerás dela. Senti-la-ás sempre, mas não morrerás disso. Não a sentirás a cada minuto, mas também não passarás muitos dias sem que volte a afligir-te."
A história de Mary é profundamente humana, expõe a vulnerabilidade de quem erra e a facilidade com que se julga. Porque poucos conseguem colocar-se na pele do outro, nos sapatos do outro. Sobretudo se o outro não for a vítima tradicional, sobretudo se for quem faz mal, quem faz o mal, ainda que só um e isolado, ainda que com circunstâncias atenuantes. Quem se colocaria nos sapatos de um criminoso? Não é tarefa fácil.
"(...) as suas frases iam e vinham dentro da minha cabeça, literalmente, palavra a palavra, mas o seu significado aparecia e desaparecia como a luz de uma lampadazinha que faz mau contacto. Deve ter sido uma forma de me proteger: se eu as tivesse apreendido e compreendido o seu significado exato, penso que teria morrido ali mesmo."
A crueldade dos mais próximos é felizmente compensada, neste livro e na vida, com a amabilidade de estranhos. Tal como em "Um Elétrico Chamado Desejo", de Tennessee Williams, citado pela autora argentina. "Reconheço que dependo cada vez mais da amabilidade de estranhos. Não basta estar rodeado de gente para não se estar só."
Uma Pequena Sorte revela também medos e anseios, a eterna indecisão entre não correr riscos ou arriscar. Correr riscos pode acarretar desilusões infindáveis, mas também pode ser a porta para a felicidade. Não arriscar mantém o futuro em suspenso, o leque pleno de possibilidades, não fecha a porta, mas também nunca a abre. E se?
"Não quero cruzar-me com ele e quero cruzar-me com ele, ao mesmo tempo, num mesmo desejo. A cobardia inclina-me para a primeira opção, a necessidade de não me pôr em risco. No entanto, qual é o verdadeiro risco? Vê-lo, cruzar-me com ele, olhá-lo nos olhos? Ou estar a poucos metros e não olhar para ele, não o procurar, não saber dele nem que seja uma última vez?"
Pode não parecer no início, mas este livro é também sobre o que cada um é capaz de fazer por amor. Ou quer fazer. Ou julga melhor. E se a pessoa amada não percebeu que foi por amor? Se não sabe porquê?
"Nem sempre uma pessoa é dona de reter a verdade, de a guardar para si. Nem sempre uma pessoa é dona do seu silêncio."
São várias as referências a outras obras (livros, filmes) feitas por Claudia Pineiro. Uma delas, que encontro com frequência entre diferentes autores, é a Wakefield, de Nathaniel Hawthorne. No fundo, todos temos curiosidade de saber o que fariam os que amamos sem nós por perto. O que seria de ti sem mim?