Bem lá no fundo, eu sabia…ou, às tantas, apenas acalentava o desejo de que assim fosse.
De uma forma ou de outra, John Steinbeck “salvou-me” de um marasmo literário no qual tinha mergulhado durante o verão.
“Chama Devoradora”, originalmente publicado em 1950, é o terceiro livro que Steinbeck caracteriza como “romance-peça teatral” (depois de “Ratos e Homens” - o meu preferido - e “Noite Sem Lua”, lido este ano).
Este género é, sem dúvida alguma, de uma riqueza incontestável pois, à sua escrita profusamente descritiva do tempo, do espaço e do mundo interior das personagens, Steinbeck acrescenta ingredientes dinâmicos, próprios de uma peça de teatro, tornando a leitura interessante, fluida e recheada de momentos de tensão tanto psicológica como emocional.
Inspirando-se numa fábula medieval, o autor apresenta quatro personagens que ficam, para todo o sempre, interligadas: existe um traço, uma pegada, um sonho, uma decisão (pouco consensual) que atravessam esta narrativa, dividida em três actos.
Enquanto os diálogos entre as personagens conferem um ímpeto devorador ao desenrolar dos acontecimentos, é o diálogo interior das personagens que acaba por decidir o rumo imprevisível que esta história assume até ao fim.
Neste seu livro, Steinbeck debruça-se sobre a chama devoradora que existe em cada um de nós: um desejo férreo, incontrolável de alcançar algo passível de ser perpetuado, em jeito de legado. Algo que de nós permaneça quando morrermos. E não será este um desejo universal? De igual modo, Steinbeck destrincha os contornos ambíguos do amor e do alcance desse mesmo amor, cruzando-os com princípios e valores, tanto individuais como sociais, ainda arraigados a estereótipos de género.
Aconselho este livro não só a apreciadores da escrita de Steinbeck como também a quem desejar desafiar-se a ser, não só o leitor-observador, como também o leitor-que se coloca no lugar de.